Ciencia e Tecnologia

Rotação da Terra desacelera por ação da Lua, mostram medições

A Terra gira cada vez mais devagar, e a culpa é da Lua. Pesquisadores do Observatório Nacional confirmam em 2025 que a rotação do planeta continua desacelerando, em um processo minuciosamente medido por relógios atômicos.

O freio invisível que alonga o dia

No laboratório de tempo do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, computadores registram variações que cabem em milissegundos. São números microscópicos, mas contam a história de um planeta que perde velocidade. Desde sua formação, há cerca de 4,5 bilhões de anos, a Terra gira um pouco mais devagar a cada século.

A principal responsável é a Lua. A interação gravitacional entre os dois corpos, conhecida como força de maré, funciona como um freio sutil e constante. As marés oceânicas deslocam enormes massas de água, geram atrito com o fundo do mar e, em troca, roubam uma fração da energia de rotação do planeta. Essa energia migra para a órbita lunar, que se afasta da Terra alguns centímetros por ano.

Hoje, um dia sideral, que é o tempo de uma volta completa da Terra em relação às estrelas distantes, dura cerca de 23 horas, 56 minutos e 4 segundos. No início da história do planeta, esse giro é muito mais rápido. “Os estudos indicam que um dia chegava a ter entre 5 e 10 horas”, explica o pesquisador Fernando Roig, do Observatório Nacional. O contraste mostra a escala do processo, mas também sua lentidão.

Os especialistas trabalham com dados atuais e registros históricos para reconstruir a trajetória dessa desaceleração. Marcas de antigos recifes de coral, por exemplo, guardam o ritmo das marés de milhões de anos atrás. Documentos de observatórios dos séculos 18 e 19 ajudam a comparar o tempo astronômico com o tempo mantido pelos relógios. Desde a década de 1950, relógios atômicos elevam essa precisão a outro patamar.

Variações minúsculas, impacto global

Relógios atômicos medem o tempo a partir das oscilações de átomos, que funcionam como pêndulos perfeitos. Eles permitem perceber que a rotação da Terra não desacelera em linha reta. O planeta também acelera ou desacelera ligeiramente por causa de fenômenos geofísicos e climáticos. Mudanças na circulação dos oceanos, deslocamentos de massas de ar na atmosfera e até grandes terremotos redistribuem massa e ajustam o ritmo do giro.

Entre julho e agosto de 2025, os pesquisadores observam uma aceleração temporária da rotação. O dia fica um pouco mais curto, mas a diferença é da ordem de milésimos de segundo. Sem instrumentos de alta precisão, ninguém percebe. “Essas variações são esperadas e não representam uma ameaça. Elas são uma janela para a dinâmica interna da Terra”, afirma Roig.

O impacto mais imediato aparece no sistema de medição do tempo. O tempo civil, aquele que regula relógios, computadores, bolsas de valores e sistemas de navegação por satélite, precisa acompanhar o comportamento real do planeta. Desde 1972, autoridades internacionais ajustam esse relógio global com a inclusão ocasional de segundos intercalares, para compensar o descompasso entre a Terra e os relógios atômicos.

A desaceleração de longo prazo aponta para dias mais longos no futuro distante, mas a escala permanece inatingível para qualquer planejamento humano. Para que o dia alcance 25 horas, seriam necessários centenas de milhões de anos de freio contínuo. Na prática, nenhuma geração atual, nem as próximas dezenas de milhares de gerações, verá o relógio marcar “25:00”.

Os ajustes de hoje se concentram em frações de segundo. Ainda assim, eles têm consequências concretas. Satélites de posicionamento, que guiam desde aviões comerciais até aplicativos de transporte, dependem de sincronização absoluta entre tempo e espaço. Um erro de um milissegundo pode deslocar um ponto no mapa em dezenas de metros. Por isso, centros de tempo do mundo todo acompanham com atenção cada oscilação da rotação.

Tempo planetário e o que vem pela frente

A relação entre Terra e Lua molda não só os relógios, mas também parte da história climática e geológica do planeta. Dias mais curtos significam rotações mais rápidas, que influenciam ventos, correntes oceânicas e a forma como a energia do Sol é distribuída. A compreensão detalhada dessa engrenagem ajuda a refinar modelos de clima e projeções de longo prazo.

Pesquisadores do Observatório Nacional usam as variações diárias, registradas em milissegundos, para testar hipóteses sobre o interior da Terra. Alterações na rotação podem indicar movimentos no manto, mudanças na distribuição de gelo nos polos ou oscilações na circulação dos oceanos. “Cada desvio no tempo de rotação é uma pista sobre o que acontece por baixo de nossos pés”, diz Roig.

No curto prazo, o desafio está em manter o sistema global de tempo estável, em um cenário no qual a rotação exibe pequenas “engasgadas”. Debates internacionais já discutem o fim dos segundos intercalares, considerados complicados para sistemas digitais. Se essa mudança for adotada, a diferença entre o tempo medido pelos relógios atômicos e o tempo ditado pela Terra vai crescer lentamente, exigindo novas estratégias de correção no futuro.

A longo prazo, o quadro é de transformação inevitável, porém imperceptível. A Terra continua perdendo velocidade, a Lua segue se afastando e o dia médio aumenta a passos de formiga. Milhões de anos à frente, o planeta terá um ritmo diferente, desconhecido para qualquer civilização humana. Até lá, a cada milissegundo contado nos laboratórios, cientistas aproveitam a desaceleração para entender melhor de onde viemos, como o planeta funciona e quanto tempo ainda cabe em um dia de 24 horas.

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