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Lula confirma candidatura em 2026 e promete quarto mandato mais ousado

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirma que será candidato à reeleição em 2026 e promete um quarto mandato mais ambicioso que o atual. Em entrevista nesta terça-feira (14), ele vincula a decisão à defesa da democracia e à continuidade de políticas sociais e econômicas.

Candidatura atrelada à defesa da democracia

A confirmação ocorre em conversa à TV 247, em parceria com a Revista Fórum e o DCM, e encerra meses de especulação no Planalto e no mercado. Lula insiste que não busca um novo mandato por vontade pessoal, mas por entender que o ambiente político exige sua presença na disputa de 2026.

“Não se trata de querer um quarto mandato. As circunstâncias políticas e o momento eleitoral que você vive decidem”, afirma. Ele diz enxergar na eleição uma espécie de missão histórica. “É um compromisso moral, ético – e eu diria, até, cristão – não permitir que os fascistas voltem a governar este país”, declara, ao lembrar a transição do fim da ditadura militar, em 1985, até a crise institucional recente.

Lula sustenta que se sente pronto para mais quatro anos de conflito político e pressão econômica. “Me sinto fisicamente muito bem, politicamente muito bem. Estou com a saúde muito bem preparada e motivado, porque tem muita coisa para fazer pelo Brasil. A razão da minha candidatura é essa. Tenho um compromisso com o país e o povo brasileiro”, diz.

O presidente avalia que um novo mandato não pode repetir apenas o roteiro do atual. “Eu jamais concorreria a um mandato para fazer as coisas darem errado. Meu quarto mandato é para fazer esse país dar um salto definitivo e se transformar em um país desenvolvido”, afirma, projetando avanços econômicos, sociais e institucionais acima dos registrados desde 2023.

Crescimento, mercado e papel do Estado

No campo econômico, Lula apresenta números para sustentar a tese de retomada. Ele lembra que o PIB volta a crescer acima de 3% em 2023, após mais de uma década de desempenho fraco. “A economia brasileira não crescia acima de 3% desde que eu deixei a Presidência em 2010. Só voltou a crescer acima de 3% quando voltei em 2023”, afirma.

O presidente cita expansão da indústria, melhora no comércio exterior e abertura de mercados para reforçar a narrativa de um país de volta ao jogo global. “Abrimos 518 novos mercados em três anos e meio para produtos brasileiros. O Brasil voltou a ser levado a sério no mundo inteiro”, diz, atribuindo os resultados à combinação de diplomacia ativa e crédito direcionado à produção.

A relação com o mercado financeiro aparece como ponto de atrito. Lula admite divergências com investidores e bancos em torno de juros, gastos sociais e papel do Estado. “O mercado sempre vai querer outro candidato. O mercado não quer políticas de inclusão social. Ele quer política para pagar a taxa de juros deles”, critica. O presidente indica que um quarto mandato significaria aumento de investimentos públicos em programas sociais e infraestrutura.

“Nós vamos fazer muito mais investimento em política de inclusão social, porque o povo brasileiro merece ter mais do que tem”, afirma. Ele diz que suas decisões partem da vida concreta das famílias. “Eu converso com as pessoas para saber o seguinte: ‘como está sua vida? Seu salário? Como você gasta seu dinheiro?’”, relata, num esforço de se contrapor ao discurso de austeridade fiscal exigida por parte do sistema financeiro.

Lula volta a atacar privatizações, em especial no setor de energia. “Na privatização da BR […] e a mesma coisa vale para a Eletrobras. São dois escândalos”, diz, sem detalhar na entrevista medidas concretas de reversão. Ele sinaliza, porém, que pretende ampliar a presença do Estado. “Ainda sonho que a gente vai ter uma empresa distribuidora de gás e de combustível”, afirma, apontando para uma reconfiguração do modelo de concessões e disputando espaço com grupos privados.

A segurança pública entra no pacote de promessas. Lula diz que condiciona a criação de um Ministério da Segurança Pública à aprovação da PEC da Segurança no Congresso. “Na hora que for aprovada a PEC […] esse país vai ter segurança pública com Polícia Federal com mais gente e mais inteligência”, afirma, numa aceno a governadores e corporações policiais, preocupados com o avanço do crime organizado.

Apostas online, crime organizado e embate internacional

O impacto das plataformas de aposta online na renda das famílias aparece como um dos temas mais sensíveis da entrevista. Lula fala em “cassino dentro de casa” e associa o fenômeno ao endividamento e à lavagem de dinheiro. “As pessoas gastam R$ 300 ou R$ 400 por mês com internet […] e agora tem as bets para assaltar o povo. Agora o cassino está dentro da sua casa”, afirma.

O presidente diz preparar um novo programa para aliviar dívidas de pessoas físicas, em linha com o Desenrola, lançado em 2023. “Estamos preparando um programa para resolver parte da dívida das pessoas, como já fizemos com o Desenrola”, anuncia, sem apresentar números ou calendário. Ele associa a regulação das bets ao combate a quadrilhas. “Tem muita lavagem de dinheiro nesse mundo. E se a gente quiser combater o crime organizado, a gente vai ter que atacar todos os flancos”, afirma.

No cenário externo, Lula mira a política dos Estados Unidos e critica a postura do presidente Donald Trump, que busca um novo mandato em Washington. “Trump faz um jogo na tentativa de agradar o povo americano”, diz, ao relatar divergências sobre guerras, clima e multilateralismo. Ele conta ter dito ao líder norte-americano: “A gente tem que escolher se a gente quer ser temido ou amado”.

Lula defende uma política externa assentada no diálogo, sem alinhamento automático a potências. “Ninguém precisa ter medo de ninguém […] minha guerra é no argumento”, afirma. A frase resume a estratégia de projetar o Brasil como mediador em conflitos e defensor da multipolaridade, ao mesmo tempo em que fala para o eleitorado interno, cansado de tensões diplomáticas que afetam exportações e investimentos.

O presidente usa parte da entrevista para reafirmar confiança nas instituições democráticas, depois do trauma dos ataques de 8 de janeiro de 2023. “Fora da democracia, qualquer coisa é pior”, diz. Para ele, o funcionamento de Congresso, Judiciário, imprensa e movimentos sociais é condição para o país avançar. “A democracia é um regime difícil porque você tem que conviver com imprensa, sindicato, com oposição, Congresso… Mas essa é a riqueza da democracia”, afirma.

Imprensa, corrupção e a disputa até 2026

A relação tensa com parte da imprensa reaparece quando Lula revisita a Operação Lava Jato e a cobertura de grandes veículos, especialmente a TV Globo. “Não posso permitir que eles achem que eu esqueci o que eles fizeram”, afirma, citando o episódio do PowerPoint apresentado em rede nacional. Ele relata ter cobrado a direção da emissora. “Tive uma conversa com o dirigente da Globo, para mostrar a irresponsabilidade daquele PowerPoint”, diz.

Apesar das críticas, Lula afirma defender liberdade de imprensa, com responsabilidade. “Seja livre. Fale mal, mas fale a verdade. Não invente história”, diz, tentando equilibrar o discurso de vítima de abusos midiáticos com a imagem de garantidor de direitos constitucionais. O embate tende a atravessar a campanha, em um ambiente de redes sociais ainda mais fragmentado que em 2018 e 2022.

Ao falar de corrupção, o presidente argumenta que governos que investigam mais expõem mais casos. “Quando você apura a corrupção […] aparece a corrupção. Aparece no governo de quem combate a corrupção”, diz. Ele menciona casos como Banco Master e INSS e atribui a origem das irregularidades ao governo Jair Bolsonaro (PL), numa estratégia de deslocar o foco para o antecessor e reforçar a narrativa de saneamento da máquina pública.

A confirmação da candidatura reorganiza o tabuleiro eleitoral com quase dois anos de antecedência. Aliados veem vantagem em consolidar o campo governista e pressionar adversários a acelerar a definição de nomes. Críticos afirmam que a antecipação aumenta a polarização, afasta o investidor e reforça incertezas sobre reformas econômicas. As declarações sobre ampliar o papel do Estado, rever privatizações e endurecer com o mercado financeiro devem se refletir em discursos de bancos, empresários e agências de risco nas próximas semanas.

Lula aposta que o saldo de crescimento acima de 3%, ampliação de programas sociais, nova estrutura de segurança pública e protagonismo internacional será suficiente para convencer o eleitor de que um quarto mandato pode entregar “um salto definitivo”. A campanha, porém, ainda depende de articulações no Congresso, da reação do mercado e da capacidade da oposição de construir um projeto alternativo. A incógnita que permanece é se o país chega a 2026 disposto a apostar mais quatro anos no mesmo líder ou se buscará uma outra forma de renovar a democracia que o presidente diz querer proteger.

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