EUA e Irã encerram rodada crítica em Islamabad sem acordo final
Autoridades dos Estados Unidos e do Irã encerram, na madrugada de domingo (12), em Islamabad, a rodada mais alta de negociações em décadas sem um acordo. Depois de mais de 20 horas de conversas diretas, os dois lados admitem ter chegado perto de um entendimento, mas recuam diante de impasses sobre o programa nuclear iraniano e o controle do estreito de Ormuz.
Primeiro encontro em mais de uma década expõe desconfiança
O encontro ocorre no fim de semana seguinte ao cessar-fogo anunciado em 7 de abril de 2026, que interrompe seis semanas de guerra entre Washington e Teerã. É a primeira vez em mais de dez anos que emissários das duas capitais se sentam frente a frente, e a reunião é descrita por diplomatas como o compromisso mais importante desde a Revolução Islâmica de 1979.
As delegações ocupam duas alas separadas do luxuoso Serena Hotel, no centro de Islamabad, com uma área neutra para reuniões trilaterais mediadas pelo governo paquistanês. De um lado, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, lidera o time dos EUA. Do outro, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, divide a linha de frente com o chanceler Abbas Araqchi.
Os celulares ficam do lado de fora da sala principal. A cada intervalo, negociadores cruzam os corredores para telefonar a seus governos, numa rotina que mistura sigilo e urgência. “Havia uma grande esperança no meio das negociações de que haveria um avanço e os dois lados chegariam a um acordo. No entanto, as coisas mudaram em pouco tempo”, relata uma fonte do governo paquistanês presente às conversas.
Onze pessoas com acesso direto às discussões, ouvidas sob condição de anonimato, descrevem uma maratona de quase 24 horas que atravessa a noite entre sábado e domingo. Em vários momentos, segundo uma delas, os negociadores chegam “80% lá”, perto de um acordo-quadro, antes de esbarrarem em decisões que ninguém se sente autorizado a tomar em Islamabad.
Núcleo do conflito: bomba, sanções e Ormuz
No centro da mesa está o programa nuclear iraniano, visto por EUA, países europeus e Israel como caminho para uma arma atômica. Teerã nega que busque a bomba, mas mantém o enriquecimento de urânio e cobra reconhecimento formal desse direito. A Casa Branca, por sua vez, insiste em metas máximas. Uma autoridade americana resume o objetivo: garantir que “o Irã nunca obterá uma arma nuclear”.
Washington quer que o Irã encerre todo o enriquecimento, desmonte suas principais instalações, entregue o estoque de urânio altamente enriquecido e aceite um arranjo de segurança que inclua aliados regionais. No pacote, exige ainda o fim do financiamento a grupos alinhados a Teerã no Oriente Médio e a reabertura completa do estreito de Ormuz, sem qualquer tipo de pedágio imposto por forças iranianas.
Teerã responde com uma lista própria de exigências. Pede um cessar-fogo permanente, com garantias de que não haverá novos ataques ao país ou a seus aliados, a suspensão das sanções primárias e secundárias impostas pelos EUA, o descongelamento integral de ativos bloqueados no exterior e o reconhecimento de seu direito ao enriquecimento nuclear e ao controle contínuo de Ormuz. Fontes iranianas afirmam que o acesso ao dinheiro congelado e a definição do status do estreito figuram entre as linhas vermelhas da delegação.
O estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no planeta, se torna o símbolo mais visível da disputa. O Irã bloqueia na prática parte do trânsito, pressionando o mercado global de energia e contribuindo para a alta de preços em ano de eleições legislativas nos EUA. Washington reage com ataques militares e promete reabrir a rota, ampliando o risco de confronto direto numa das áreas mais militarizadas do mundo.
No salão de reuniões em Islamabad, essa disputa geopolítica aparece em frases curtas e irritadas. Quando a conversa entra em garantias de não agressão e alívio de sanções, o tom de Araqchi endurece. De acordo com duas fontes iranianas, ele cobra os americanos: “Como podemos confiar em vocês quando, na última reunião em Genebra, vocês disseram que os EUA não atacariam enquanto a diplomacia estivesse em andamento?” Dois dias depois daquele encontro, um ataque conjunto Estados Unidos-Israel atinge alvos em território iraniano.
Mercado de energia e política interna entram na conta
Os impactos da guerra e do impasse diplomático vão além da sala fechada em Islamabad. O bloqueio do estreito de Ormuz já estrangula o fornecimento global de energia e pressiona a inflação em grandes economias importadoras, do Leste Asiático à Europa. Analistas estimam que a continuidade da tensão pode adicionar vários dólares ao barril de petróleo em questão de semanas, com efeito direto sobre combustíveis e fretes.
Nos Estados Unidos, a alta dos preços em ano eleitoral alimenta desgaste político e força a Casa Branca a buscar algum tipo de descompressão. “Ainda há um engajamento contínuo entre os EUA e o Irã e um avanço na tentativa de chegar a um acordo”, afirma uma autoridade americana, ao comentar a fala do presidente Donald Trump de que o Irã “ligou esta manhã” e “gostaria de fechar um acordo”. A declaração não é verificada de forma independente, mas indica o interesse de Washington em mostrar iniciativa diplomática ao eleitorado.
No Irã, a conta da guerra aparece em outra moeda. A economia, já fragilizada por anos de sanções, sofre novo choque com os danos aos setores de energia e infraestrutura. Autoridades em Teerã temem que o prolongamento do conflito enfraqueça ainda mais o regime depois de novos protestos, reprimidos recentemente com violência que deixa centenas de mortos, segundo organizações de direitos humanos.
Em Islamabad, a tensão desses cálculos se mistura ao desgaste físico. Representantes paquistaneses, entre eles o chefe do Exército, Asim Munir, e o chanceler Ishaq Dar, atravessam o hotel durante a madrugada para evitar rupturas. Um auxiliar de segurança descreve a cena: “Houve altos e baixos. Houve momentos de tensão. As pessoas saíam da sala e depois voltavam”. Em pelo menos um episódio, vozes elevadas são ouvidas do lado de fora antes de os mediadores pedirem uma pausa para o chá e separarem temporariamente as delegações.
O aparato de segurança na capital paquistanesa confirma o peso político da reunião. Policiais, militares e agentes de inteligência cercam o hotel e controlam acessos em várias ruas do entorno, numa operação que envolve checagens rápidas de antecedentes para funcionários e equipe de apoio. Parte deles dorme em colchões improvisados nos corredores, à espera de novas sessões.
Diálogo segue aberto e pressiona próximos passos
Ao final da maratona, na manhã de domingo, as delegações deixam a mesa sem documento assinado, mas evitam declarar fracasso. Duas fontes iranianas dizem que, nas primeiras horas do dia, a atmosfera melhora, e uma extensão por mais 24 horas chega a ser cogitada. O plano cai quando fica claro que os pontos centrais — enriquecimento de urânio, sanções e Ormuz — continuam sem saída imediata.
Vance deixa Islamabad sob a avaliação de que não há mais o que negociar naquele formato, mas indica que a janela diplomática permanece aberta. Diante de jornalistas, fala em termos de ultimato calculado: “Saímos daqui com uma proposta muito simples, um método de entendimento que é nossa melhor e final oferta. Veremos se os iranianos a aceitam”.
Do lado iraniano, autoridades evitam comentar publicamente os detalhes. Em Teerã, o governo não responde a pedidos formais de esclarecimento sobre as tratativas. Fontes ouvidas pela reportagem, porém, insistem que o diálogo continua, com o Paquistão repassando mensagens entre as duas capitais e mediadores regionais em contato constante com Washington.
O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, tenta manter uma nota de otimismo. “Quero dizer a vocês que ainda há um esforço total para resolver as questões”, afirma, ao comentar o fim da rodada em Islamabad. Diplomatas no Oriente Médio relatam que conversas entre mediadores e representantes americanos seguem desde a partida de Vance, e novas reuniões técnicas já estão em estudo.
Nas próximas semanas, o cálculo de custo e benefício tende a ficar ainda mais apertado para ambos os lados. Se o impasse se prolongar, o preço da energia, a inflação global e a instabilidade regional devem aumentar. Se houver concessões, Washington arrisca críticas internas por ceder a um rival histórico, e Teerã enfrenta a resistência de setores que veem qualquer recuo como ameaça à soberania. O tabuleiro permanece em aberto, e o peso de cada decisão tomada em Islamabad ainda deve se medir não em comunicados oficiais, mas nas próximas cifras do petróleo e na capacidade de o cessar-fogo anunciado em 7 de abril se sustentar além do papel.
