Esportes

Disputa por controle da SAF do Botafogo expõe risco de uso do clube para salvar Lyon

A disputa pelo controle da SAF do Botafogo chega ao auge neste 13 de abril de 2026 e expõe uma crise silenciosa entre John Textor e o fundo Ares. No centro do impasse está a Eagle Bidco, holding que comanda a operação alvinegra e que hoje serve de palco para uma disputa de poder com impacto direto no futuro financeiro e esportivo do clube.

Controle em disputa e caixa em xeque

John Textor ainda aparece como controlador da SAF, amparado por uma liminar judicial. Na prática, porém, as decisões estratégicas migram para a Eagle Bidco, hoje sob influência ampliada da Ares. O fundo assume o comando da holding após executar garantias de um empréstimo ligado aos negócios internacionais do empresário, que realiza apenas pagamentos parciais.

A mudança não resolve o problema central: quem, de fato, manda no Botafogo. Ares detém o controle societário da Eagle Bidco, mas evita se aproximar da gestão cotidiana do clube. Nenhum executivo do fundo aparece no Nilton Santos, nem para jogos decisivos, e relatórios financeiros enviados pela SAF não resultam em novos aportes. Após uma auditoria interna, a conclusão é dura: o investimento necessário para estabilizar o clube não compensa, ao menos por enquanto.

While Textor tenta se manter à frente do projeto esportivo, a operação corre com freio de mão puxado. As reuniões de planejamento esbarram na dúvida sobre quem autoriza decisões estruturais, de contratações a pagamento de dívidas. Dirigentes descrevem um clima de indefinição que já contamina o vestiário e as expectativas para a temporada.

A tensão se agrava com a aproximação entre a Ares, Textor e o Botafogo Social. O segmento associativo do clube tenta recuperar espaço e cobra participação nas conversas, diante do risco de ver o futebol virar peça de negociação em acordos que envolvem outros times do grupo Eagle Bidco.

Dinheiro do Botafogo no Lyon e dívida bilionária

O imbróglio atual nasce fora do Brasil. Em junho de 2025, Textor vende sua participação no Crystal Palace e usa parte do dinheiro para reduzir uma dívida com a Ares, ligada à compra do Olympique Lyonnais. O acordo prevê alongamento de prazos, mas o pagamento não se completa. O fundo executa as garantias e passa a dividir o controle do Lyon com outros acionistas, entre eles Michele Kang, ampliando a influência sobre a Eagle Bidco.

No mesmo período, o Lyon enfrenta forte pressão de órgãos reguladores do futebol francês e risco de sanções esportivas. Para evitar punições mais pesadas, a Eagle Bidco adota um modelo de caixa compartilhado entre os clubes do grupo. Nesse arranjo, receitas e premiações do Botafogo em 2024 atravessam o Atlântico e reforçam o caixa do time francês.

A operação não se dá como decisão isolada da SAF alvinegra, mas como estratégia central da holding. A Ares analisa o movimento, decide manter os valores no Lyon e não assume compromisso formal de devolução. Internamente, a leitura é que o dinheiro ajuda a estabilizar o clube francês e impede um cenário de colapso.

O Botafogo reage na Justiça. A SAF cobra cerca de R$ 745 milhões, valor que inclui recursos que teriam sido transferidos ao Lyon nesse período. Dirigentes reconhecem que o dinheiro é usado na França dentro da lógica do grupo, mas defendem que o clube brasileiro não pode funcionar como banco informal de uma operação internacional em crise.

Em conversas reservadas, fontes ligadas à SAF afirmam temer uma solução que envolva compensar essa dívida com uma mudança de controle. A avaliação é direta: “O risco é o Botafogo virar moeda de troca para fazer caixa com o Lyon”. A possibilidade de um acordo que troque o comando da SAF por perdão ou desconto do débito é discutida internamente, mas, até agora, não há proposta formal sobre a mesa.

Textor tenta recomprar Botafogo e clube busca unidade

Enquanto o embate avança nos bastidores, Textor tenta retomar a iniciativa. Em janeiro de 2026, o empresário apresenta uma proposta de recompra do controle, com aporte inicial de US$ 25 milhões e a entrada de novos investidores para fechar a conta. O plano depende de aval da Ares e de rearranjos complexos na Eagle Bidco.

O movimento ocorre em meio à pior fase de confiança em relação ao projeto. A SAF opera com atenção redobrada ao fluxo de caixa, e qualquer decisão de médio prazo exige saber quem assina o cheque. O impasse trava parte do planejamento esportivo, de contratações a renovação de contratos, e alimenta a desconfiança de investidores e torcida.

Dentro do clube, a leitura é que a disputa se desenha menos como um conflito entre SAF e Botafogo Social e mais como um embate direto entre SAF e Ares. A direção associativa, porém, aproveita o vácuo de poder para se reaproximar e cobra participação na construção de uma saída. A ideia é montar uma frente conjunta que envolva futebol e social para defender interesses do Botafogo em qualquer negociação futura.

Dirigentes descrevem o processo como “complexo” e de alto risco. A indefinição sobre o futuro da SAF ameaça a estabilidade administrativa, pressiona o caixa e pode respingar no desempenho em campo. A possibilidade de novos processos judiciais, no Brasil e no exterior, não está descartada, especialmente se o clube entender que outras decisões da holding prejudicam diretamente sua operação.

O cenário coloca o Botafogo no radar de investidores e da imprensa internacional, especialmente por causa da ligação com o Lyon e do histórico recente de Textor no mercado. A exposição aumenta a cobrança por transparência e decisões rápidas. Enquanto Ares, Textor e Botafogo Social negociam em mesas paralelas, o torcedor assiste a uma disputa que acontece longe das arquibancadas, mas que define o rumo do clube pelos próximos anos.

Os próximos meses tendem a ser decisivos. Um acordo pode redefinir o controle da SAF, desenhar um calendário de pagamento da dívida de R$ 745 milhões e esclarecer o papel da Eagle Bidco na governança. Se a solução não vier, o Botafogo corre o risco de entrar em campo com um problema maior que qualquer adversário: a incerteza sobre quem, afinal, conduz seu futuro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *