Ultimas

EUA e Irã encerram rodada em Islamabad a um passo de acordo

Estados Unidos e Irã encerram, na madrugada de domingo (14), mais de 20 horas de conversas diretas em Islamabad sem acordo final, mas com cerca de 80% dos pontos centrais alinhados. A negociação, a mais alta entre os dois países em décadas, mantém vivo o esforço para conter o programa nuclear iraniano e reabrir o estreito de Ormuz.

Primeiro encontro direto em mais de uma década

No luxuoso Serena Hotel, no centro da capital paquistanesa, delegações dos dois países passam praticamente uma noite inteira em reuniões divididas por alas. De um lado, a equipe norte-americana liderada pelo vice-presidente JD Vance. De outro, o bloco iraniano chefiado por Mohammad Baqer Qalibaf, presidente do Parlamento, e pelo chanceler Abbas Araqchi. No meio, uma área neutra para encontros trilaterais, onde mediadores do Paquistão tentam costurar pontes entre dois adversários que não se falavam cara a cara havia mais de dez anos.

As conversas ocorrem quatro dias depois do anúncio de um cessar-fogo, na terça-feira (7), que interrompe seis semanas de ataques e contra-ataques na região. O objetivo em Islamabad é mais ambicioso do que apenas consolidar a trégua: buscar um entendimento de longo prazo que reduza o risco de guerra aberta, alivie sanções e devolva previsibilidade ao fluxo global de energia. Fontes envolvidas nas negociações descrevem um encontro raro em que, apesar da desconfiança mútua, as duas partes aceitam colocar quase tudo sobre a mesa.

Celulares ficam proibidos na sala principal, uma tentativa de blindar o ambiente de vazamentos em tempo real. Vance e Qalibaf precisam sair nos intervalos para falar com Washington e Teerã. A rotina reforça a sensação de cerco e cansaço. “Havia uma grande esperança no meio das negociações de que haveria um avanço e os dois lados chegariam a um acordo. No entanto, as coisas mudaram em pouco tempo”, relata uma fonte do governo paquistanês que acompanha cada deslocamento entre as salas.

Ao longo de mais de 20 horas, a atmosfera oscila entre hostilidade aberta e otimismo cauteloso. Duas fontes iranianas descrevem um clima “pesado e hostil” no início, com pouca disposição de ceder. No começo da manhã de domingo, a temperatura baixa alguns graus. Paquistaneses sugerem estender as conversas por mais um dia, e os negociadores começam a sondar fórmulas de compromisso. Um interlocutor direto fala em acordo “80% pronto” antes de a discussão travar em decisões que ninguém se arrisca a tomar ali.

Ormuz, urânio e sanções travam o avanço

No centro da mesa está o estreito de Ormuz, por onde circula quase um quinto do petróleo mundial que chega ao mercado. O Irã, que efetivamente bloqueia a passagem desde o início da crise, usa o gargalo como instrumento de pressão. Os Estados Unidos prometem reabrir a rota e buscam garantias de livre navegação, sem cobrança de pedágios ou inspeções unilaterais por parte de Teerã. Para aliados de Washington na região, como Arábia Saudita e Emirados Árabes, cada dia de incerteza em Ormuz se traduz em volatilidade de preços e risco de desabastecimento.

Ao mesmo tempo, o dossiê nuclear volta ao centro da disputa. Uma autoridade da Casa Branca afirma que a exigência norte-americana é clara: fim de todo o enriquecimento de urânio em solo iraniano, desmonte das principais instalações, entrega do estoque de urânio altamente enriquecido e um regime de inspeções mais intrusivo. Em troca, Washington acena com um acordo de paz mais amplo, uma nova arquitetura de segurança regional que inclua aliados e a possibilidade de alívio gradual de sanções.

Teerã reage com sua própria lista. Segundo fontes iranianas, o país pede cessar-fogo permanente com garantias formais de não agressão dos Estados Unidos e de seus parceiros regionais, suspensão das sanções primárias e secundárias, descongelamento total de ativos bloqueados no exterior e reconhecimento do direito iraniano de enriquecer urânio para fins civis. O controle continuado sobre o estreito de Ormuz é tratado como questão de soberania. A distância entre as posições fica evidente quando os dois lados tentam definir o escopo do entendimento. Washington quer um acordo focado no nuclear e em Ormuz. Teerã insiste em um pacote mais abrangente, que abranja também aliados armados na região e futuras operações militares.

O choque se intensifica quando o debate chega às garantias de não agressão e de alívio de sanções. O tom de Araqchi, normalmente contido, sobe. Duas fontes iranianas o citam ao questionar a memória recente de Washington: “Como podemos confiar em vocês quando, na última reunião em Genebra, vocês disseram que os EUA não atacariam enquanto a diplomacia estivesse em andamento?” Poucos dias depois daquela rodada, um ataque conjunto de EUA e Israel atinge alvos no Irã, alimentando uma desconfiança que Islamabad ainda não consegue dissipar.

Os Estados Unidos também mantêm reservas. Uma autoridade americana afirma que a equipe de Vance chega ao encontro pronta para concluir um acordo, mas resiste a negociações prolongadas. Em Washington, cresce a percepção de que o Irã domina a arte de ganhar tempo sem ceder em pontos estruturais. A poucos meses das eleições legislativas, a Casa Branca equilibra pressões internas contra qualquer gesto visto como concessão excessiva a Teerã e o temor de que o estrangulamento do fornecimento de energia derrube a economia global e alimente a inflação nos EUA.

Mercados, guerra e o peso do relógio

O impasse tem efeitos imediatos fora das salas em Islamabad. O bloqueio de Ormuz já encarece fretes, aperta contratos de seguro e ameaça reajustar o valor do barril em patamares que lembram choques anteriores de petróleo. Para países dependentes de importações, qualquer alta sustentada pressiona a inflação e limita a margem de manobra de bancos centrais. Órgãos internacionais alertam que interrupções prolongadas no fluxo de energia podem se converter em crise alimentar, sobretudo em nações mais pobres que dependem de fertilizantes produzidos com derivados de petróleo e gás.

No Irã, a guerra e as sanções aprofundam uma crise econômica prolongada e fragilizam o regime pouco tempo depois de grandes protestos internos reprimidos com violência. Em Washington, ataques militares considerados impopulares elevam custos políticos sem a garantia de mudança de regime em Teerã. Ambos chegam a Islamabad com incentivos fortes para reduzir a escalada. Fontes ouvidas descrevem momentos em que um acordo-quadro parece ao alcance da caneta, antes de emperrar no tamanho do alívio de sanções e no volume de ativos que o Irã quer ver descongelado de imediato.

O Paquistão aproveita o vácuo diplomático para se afirmar como mediador regional. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif fala em “esforço total” para manter o diálogo vivo. O chefe do Exército, Asim Munir, e o chanceler Ishaq Dar passam a noite circulando entre as salas, controlando ânimos, propondo pausas estratégicas para chá e tentando evitar rupturas definitivas. Um diplomata baseado no Oriente Médio diz que as conversas continuam mesmo depois da partida de Vance, com Islamabad carregando mensagens entre Washington e Teerã.

Em Washington, o presidente Donald Trump afirma que o Irã “ligou esta manhã” e que “gostaria de fechar um acordo”, declaração que a agência Reuters não consegue confirmar de forma independente. A Casa Branca, pela porta-voz Olivia Wales, insiste que a posição americana não muda em Islamabad: “O Irã nunca poderá ter uma arma nuclear, e a equipe de negociação do presidente Trump manteve essa linha vermelha e muitas outras. O engajamento continua em direção a um acordo”.

Próxima rodada e riscos em aberto

Quando aparece diante dos repórteres para anunciar o fim da rodada em Islamabad, Vance evita o tom de derrota. Diz que os Estados Unidos deixam a capital paquistanesa com uma “proposta muito simples”, que descreve como “nossa melhor e final oferta”. “Veremos se os iranianos a aceitam”, declara. Do lado iraniano, autoridades mantêm silêncio público. Não há resposta imediata de Teerã aos pedidos de comentário sobre os bastidores da reunião.

Diplomatas envolvidos no processo afirmam que o cessar-fogo mediado pelo Paquistão continua de pé e funciona como ponte para uma nova rodada de contatos, ainda sem data definida. Os cenários possíveis vão de um acordo parcial, que trate apenas de Ormuz e de limites imediatos ao programa nuclear, até um grande pacote que combine garantias de segurança, descongelamento de ativos e suspensão escalonada de sanções. O risco espelhado, caso a diplomacia fracasse, é uma volta rápida à escalada militar, com impacto direto sobre preços de energia, cadeias globais de abastecimento e estabilidade política em uma região que concentra crises desde a Revolução Islâmica de 1979. Enquanto Washington e Teerã calculam ganhos e perdas de cada concessão, o relógio segue correndo para mercados, governos e cidadãos que dependem, sem direito a veto, de um estreito de Ormuz mais previsível.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *