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Clássico entre Corinthians e Palmeiras termina em caos, polícia e Jecrim

O empate sem gols entre Corinthians e Palmeiras, neste domingo (12), na Neoquímica Arena, termina em expulsões, agressões e denúncias no Juizado Especial Criminal. O dérbi mais tenso dos últimos anos expõe um ambiente de guerra dentro e fora de campo e transforma um 0 a 0 em caso de polícia.

Jogo vira campo de batalha e expõe clima de guerra

O relógio marca 31 minutos do primeiro tempo quando o dérbi muda de figura. André, meio-campista do Corinthians, perde a cabeça após uma entrada dura de Andreas Pereira e repete o gesto obsceno de Allan, visto 11 dias antes, ao pegar a própria genitália para provocar o rival. O árbitro Flávio Rodrigues de Souza é chamado pelo VAR, revê o lance e expulsa o corintiano. A partir daí, o que já era tenso se transforma em um jogo à beira do colapso emocional.

O Corinthians passa a concentrar suas energias em simulações, quedas teatrais e reclamações em massa, em busca de uma expulsão do lado palmeirense. O próprio treinador Fernando Diniz, depois do apito final, admite o desvio de conduta, mas tenta minimizar. “Foi desvio de um comportamento que não é padrão, acredito que não vai mais acontecer”, diz, ao comentar o gesto de André e a atitude de Matheuzinho. O discurso, no entanto, contrasta com a realidade do gramado.

O Palmeiras, líder do Brasileiro e com um jogador a mais por 14 minutos ainda na primeira etapa, não consegue transformar a vantagem numérica em futebol. Com Abel Ferreira suspenso por oito jogos, o time é comandado à beira do campo por João Martins, que cumpre a promessa de não dar entrevistas em protesto contra a punição da CBF. Sem Arias, suspenso, e sem Vitor Roque, lesionado, a equipe aposta em Allan para furar a retranca, mas esbarra na própria falta de criatividade.

O segundo tempo devolve a mesma temperatura alta e pouca inspiração. O Palmeiras empurra o Corinthians para trás, ronda a área, mas produz pouco. Aos 16 minutos, um lance muda o humor alviverde. Gabriel Paulista tenta afastar a bola e acerta a perna de Sosa dentro da área. O contato é claro, o pênalti parece evidente, mas a arbitragem manda seguir e o VAR não interfere. A reclamação é imediata e alimenta a sensação de injustiça entre palmeirenses.

O clima surreal ganha um novo capítulo aos 21 minutos. Um drone invade o espaço aéreo do estádio e solta um balão com um porco rosa de pelúcia, em alusão ao mascote palmeirense. A imagem corre as redes sociais. O capitão Gustavo Gómez recolhe o brinquedo e entrega ao árbitro, sob vaias e risos nervosos da arquibancada. O futebol parece cada vez mais acessório diante do espetáculo paralelo de provocações e excesso.

Expulsões, chance perdida e correria na delegacia

A tensão transborda definitivamente aos 23 minutos do segundo tempo. Na área corintiana, Matheuzinho acerta dois socos, ainda que leves, em Flaco López. O movimento é suficiente para nova intervenção do VAR e mais um cartão vermelho para o Corinthians. No mesmo lance, Gabriel Paulista empurra com força o rosto de Giay, que cai no gramado. O zagueiro, porém, recebe só o cartão amarelo e permanece em campo, decisão que irrita os palmeirenses.

Com dois jogadores a menos, o Corinthians se fecha de vez. Fernando Diniz reorganiza o time em duas linhas compactas e aposta em um contragolpe isolado para sobreviver. Do outro lado, o Palmeiras se lança ao ataque sem coordenação. O time cruza bolas sem precisão, se afoba e oferece o cenário perfeito para um contra-ataque fatal. Aos 29 minutos, quase paga caro: Yuri Alberto dispara em velocidade, aproveita erro de Felipe Anderson, sai cara a cara com Carlos Miguel e para na defesa do goleiro palmeirense, que evita a derrota em Itaquera.

Os números escancaram o contraste. O Corinthians, na 17ª colocação, a um ponto da zona de rebaixamento, joga mais de uma hora com 10 e depois com 9 atletas. O Palmeiras, líder com seis pontos de vantagem sobre o Flamengo, tem dois jogadores a mais por mais de 20 minutos e não consegue marcar. O 0 a 0 interessa mais ao time de Diniz, que deixa o campo exaltando a entrega do elenco. “O que eu nunca abri mão na minha vida é a capacidade de lutar. Isso eu me assemelho muito ao Corinthians. Jogadores foram heroicos hoje”, afirma.

A guerra não termina com o apito final. No túnel de acesso aos vestiários, jogadores e seguranças das duas equipes partem para empurrões, xingamentos e ameaças. O clima é de caos. Luighi, do Palmeiras, relata ter sido agredido por um funcionário corintiano. Do outro lado, Bidon e Gabriel Paulista acusam seguranças palmeirenses de agressões semelhantes. O caso sai da esfera esportiva e desemboca no Jecrim, o Juizado Especial Criminal instalado na própria Neoquímica Arena.

Palmeiras e Corinthians deixam o estádio em rotas distintas, mas ambos passam pela mesma porta: a da Justiça. Primeiro, representantes palmeirenses registram ocorrência contra o funcionário acusado de agredir Luighi. Em seguida, dirigentes corintianos levam Bidon e Gabriel Paulista para denunciar dois seguranças do rival. As delegações apresentam testemunhas e prometem não recuar. O dérbi, que deveria reforçar a grandeza da rivalidade, termina na fila do juizado.

Violência em alta, imagem arranhada e pressão por respostas

O clássico deste 12 de abril entra para a história menos pelo placar e mais pela escalada de violência. Expulsões por gesto obsceno, socos em campo, omissão em um pênalti claro, invasão de drone e briga de bastidores desenham um retrato preocupante do futebol paulista. A rivalidade entre Corinthians e Palmeiras, construída ao longo de mais de cem anos, sempre transita no limite da tensão, mas há tempos não alcança um nível tão bélico.

As declarações de Diniz, exaltando a “capacidade imensa de lutar” e o “espírito de guerra o tempo todo”, ajudam a compor o cenário. O discurso encontra eco em parte da torcida, que celebra a entrega, mas abre espaço para a normalização de excessos. Do outro lado, o silêncio de Abel Ferreira e de João Martins, adotado como protesto contra a CBF, deixa sem contraponto uma noite em que o Palmeiras também participa do ambiente hostil, ainda que com menos jogadores punidos em campo.

O impacto ultrapassa o vestiário. A repercussão nas redes sociais é imediata, com vídeos dos lances polêmicos viralizando em poucos minutos. As imagens de André repetindo o gesto obsceno de Allan, de Matheuzinho distribuindo socos e do drone lançando o porco de pelúcia se somam ao registro de atletas na delegacia. A soma desses episódios alimenta a percepção de um futebol que convive mal com a ideia de limite, dentro e fora do gramado.

A CBF e o STJD entram no foco das cobranças. A tendência é de novas suspensões para André e Matheuzinho, que se somam à punição já pesada de Abel Ferreira. Os processos no Jecrim podem avançar para multas, acordos ou mesmo ações penais, a depender da conclusão dos relatos e das provas apresentadas. Os clubes correm o risco de ver atletas e funcionários respondendo em duas frentes: a esportiva e a criminal.

Próximos capítulos: punições, debate e responsabilidade

O dérbi de Itaquera não se encerra na tabela do Brasileirão. Palmeiras segue líder, com seis pontos de vantagem, mas deixa o campo pressionado pelo futebol pobre diante de um rival com dois a menos. Corinthians, ainda colado na zona de rebaixamento, comemora o ponto como triunfo de resistência e reforça o discurso da luta acima de tudo. Os dois caminhos se cruzam novamente nos tribunais.

As próximas semanas devem trazer decisões sobre suspensões, multas e eventuais acordos judiciais. A Federação Paulista, a CBF e os próprios clubes são chamados a responder como pretendem conter a escalada de violência em clássicos que mobilizam milhões de torcedores. O dérbi de 12 de abril deixa uma pergunta que não cabe só aos dirigentes: até onde o futebol brasileiro está disposto a ir em nome da rivalidade?

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