Ricardo Couto assume governo do RJ interinamente por ao menos 6 meses
Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio, assume interinamente o governo do Estado a partir de abril de 2026. A previsão é de pelo menos seis meses de comando, em meio à ausência do governador titular e à expectativa de uma ampla reformulação administrativa.
Um governo em modo transição prolongada
A chegada de Couto ao Palácio Guanabara inaugura um período de transição que, na prática, se aproxima de um novo ciclo de governo. A interinidade de, no mínimo, meio ano dá ao chefe do Judiciário fluminense tempo suficiente para mexer em estruturas sensíveis da máquina pública e testar rumos diferentes para o Estado.
O movimento ocorre em um momento de desgaste político e pressão por resultados concretos em áreas como segurança, saúde e equilíbrio fiscal. O Rio encerra 2025 com déficit bilionário estimado em R$ 8 bilhões e enfrenta índices de violência que seguem entre os mais altos do país. Nesse cenário, a presença de um magistrado à frente do Executivo alimenta a expectativa de uma gestão mais focada em disciplina administrativa e combate a irregularidades.
Expectativa de “faxina” e redesenho da máquina
Nos bastidores do governo, auxiliares falam em um período de “faxina fina” em cargos comissionados e contratos estratégicos. A projeção é de revisão de ao menos uma parte dos cerca de 20 mil cargos de confiança distribuídos hoje pelo Estado, com troca de nomes em secretarias-chave. A reavaliação deve atingir especialmente áreas de infraestrutura, saúde e fazenda, onde há contratos de alto valor e impacto direto no dia a dia da população.
Interlocutores de Couto afirmam que ele pretende usar os seis primeiros meses para organizar um diagnóstico detalhado de contratos, convênios e programas que consomem a maior fatia do orçamento anual, superior a R$ 100 bilhões. “Não se trata de caça a ninguém, mas de colocar números na mesa e cobrar eficiência”, resume um aliado próximo, em conversa reservada. A mensagem que circula entre quadros médios da administração é de que a permanência em cargos dependerá de entregas mensuráveis em prazos definidos.
Impacto político e disputa por espaço
A interinidade de Couto não se limita ao campo administrativo. O movimento rearranja forças na cena política fluminense, com reflexos diretos na sucessão estadual. Com seis meses de visibilidade, o presidente do TJ passa a ser observado como potencial fiador, ou mesmo protagonista, de projetos eleitorais a partir de 2026. Lideranças de partidos de centro e centro-direita já veem na sua gestão uma espécie de laboratório para novas alianças.
O reposicionamento atinge também o Legislativo. Deputados estaduais temem perder influência na indicação de cargos regionais, tradicional moeda de troca política. “Se o critério passar a ser exclusivamente técnico, muita gente vai ter de reaprender a fazer política”, admite um parlamentar experiente, em condição de anonimato. A eventual redução de espaços pode elevar a tensão na Assembleia Legislativa, que segue com poder sobre orçamentos e autorizações de crédito para o Executivo.
Desafios de gestão em meio à interinidade
Couto assume o comando do Estado em um contexto de desconfiança do eleitorado diante de promessas não cumpridas e de sucessivas crises de credibilidade. Em pouco mais de duas décadas, o Rio viu três ex-governadores condenados ou afastados em meio a escândalos de corrupção, o que reforça o peso simbólico de um magistrado assumir o Executivo. A expectativa é de que a nova gestão estabeleça protocolos mais rígidos de transparência, com divulgação regular de contratos, metas e cronogramas.
Especialistas em administração pública avaliam que a interinidade prolongada pode favorecer medidas impopulares, mas consideradas necessárias para ajustar contas e cortar privilégios. Entre as hipóteses discutidas nos corredores do governo estão a revisão de benefícios fiscais concedidos a setores específicos da economia, a renegociação de contratos de serviços continuados e uma nova rodada de ajustes no gasto com pessoal, hoje responsável por mais de 60% da despesa corrente.
Janela para reformas e incertezas no horizonte
O período de pelo menos seis meses abre espaço para mudanças estruturais que governos em fim de mandato costumam adiar. Técnicos falam em aproveitar essa “janela” para redesenhar secretarias, extinguir autarquias pouco ativas e integrar sistemas de controle interno. A ideia é reduzir sobreposições, encurtar fluxos de decisão e acelerar respostas em áreas sensíveis, como liberação de obras e aquisição de insumos hospitalares.
Ainda não está claro até que ponto Couto pretende imprimir uma marca pessoal ou apenas estabilizar o terreno para a volta do titular ou para um novo ciclo político. A forma como ele equilibra o discurso de rigor administrativo com a necessidade de diálogo com deputados, prefeitos e Brasília tende a definir o tom da vida pública fluminense nos próximos anos. A interinidade, que nasce com data de início e prazo mínimo definido, pode terminar como um capítulo de transição ou como ponto de partida para uma nova configuração de poder no Rio de Janeiro.
