Prefeitura mantém show de Amado Batista nos 300 anos de Fortaleza
A Prefeitura de Fortaleza mantém para este domingo, 12 de abril de 2026, o show de Amado Batista nas celebrações dos 300 anos da cidade, apesar de pedidos formais de exclusão. O cantor integra a “lista suja” do Ministério do Trabalho por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão em propriedades rurais em Goiás.
Pressão da Câmara e silêncio do Paço Municipal
A polêmica se acirra a poucas horas da apresentação no palco montado no Jangurussu, na periferia da Capital. A Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara Municipal cobra, desde sexta-feira, 10, a retirada do artista da programação oficial de aniversário. O ofício enviado à Secretaria Municipal do Turismo, responsável pela agenda, não recebe resposta até a manhã deste domingo.
Presidente da comissão, a vereadora Adriana Gerônimo (Psol) transforma o caso em embate público com o Executivo. Nas redes sociais, ela critica a decisão de manter o show de um artista incluído em cadastro que reúne empregadores responsabilizados por manter trabalhadores em situação degradante. “É gente, a prefeitura vai manter o show de um cantor que estava mantendo 14 pessoas em trabalho análogo à escravidão, estavam sem salário, sem banheiro, trabalhando 18 horas por dia e sem folga”, afirma.
A parlamentar também reage à forma como a gestão divulga o evento. Segundo Adriana, a página oficial da Prefeitura publica um meme com música de Amado Batista para promover a festa. “Fortaleza terra da Luz terá no palco dos seus 300 anos um violador dos direitos humanos”, conclui, ao apontar deboche na comunicação institucional.
Procurados por telefone e mensagens, nem o prefeito Evandro Leitão (PT) nem a Secretaria do Turismo se manifestam até o fechamento desta reportagem. A Prefeitura não esclarece valores de cachê, critérios de contratação ou se cogita rever a programação diante da repercussão negativa. Líderes do governo na Câmara também são contatados e não respondem.
Lista suja, TAC e disputa de narrativas
Amado Batista, um dos nomes mais populares da música romântica desde os anos 1980, acumula hoje também a condição de empregador listado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A inclusão na “lista suja” decorre de duas fiscalizações realizadas em 2024, em Goianápolis (GO), em propriedades ligadas ao cantor e ao seu negócio no agronegócio.
As ações envolvem 14 trabalhadores, dez no Sítio Esperança e quatro no Sítio Recanto da Mata. Relatórios de auditores descrevem alojamentos precários, falta de banheiros adequados, ausência de registro formal e jornadas exaustivas que chegam a 18 horas diárias, sem folga. As condutas se enquadram no conceito de trabalho análogo à escravidão previsto na legislação brasileira, que inclui não apenas cárcere, mas também degradância extrema e exploração abusiva.
Casos desse tipo só entram no cadastro federal após conclusão de processos administrativos, com direito à ampla defesa. A permanência na lista é de dois anos, período em que o empregador enfrenta restrições de crédito e monitoramento reforçado. A presença do nome de Amado no documento, atualizado recentemente pelo governo federal, alimenta questionamentos sobre o uso de dinheiro público em sua contratação por prefeituras e governos estaduais.
À época das autuações, a equipe do cantor informa ter firmado um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério do Trabalho. Pelo acordo, segundo a assessoria, “todas as obrigações com os colaboradores foram integralmente pagas e quitadas”. A defesa sustenta ainda que parte dos trabalhadores é contratada por empresa terceirizada que presta serviços em fazenda arrendada para cultivo de milho, e que as irregularidades são corrigidas.
O reconhecimento de que houve pendências trabalhistas, mesmo com posterior regularização, não impede a inclusão no cadastro federal. Para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, a assinatura do TAC não encerra o debate ético sobre a escolha de Amado para um palco financiado por recursos municipais e apresentado como símbolo dos 300 anos da cidade.
Em ofício à Secretaria de Turismo, o colegiado afirma que a manutenção do show “naturaliza a violência” e “desmerece a ocorrência de uma violação dessa monta”, ao canalizar dinheiro público para a carreira de um empresário com “economias milionárias” construídas, em parte, sobre um “sistema desumano de trabalho análogo à escravidão”. Segundo o texto, a promoção institucional de uma figura “atrelada a essas violações” fere o dever do poder público de proteger direitos humanos.
Impactos políticos e disputa sobre uso de recursos públicos
A decisão de manter o show transforma uma apresentação musical em teste político para a gestão Evandro Leitão. A controvérsia se insere em um momento em que Fortaleza fortalece políticas de memória da escravidão e discute desigualdade racial e social em audiências públicas. Entidades de direitos humanos veem contradição entre o discurso institucional e a escolha do artista.
O episódio também reforça o debate sobre critérios para contratação de atrações em grandes festejos populares, que consomem milhões de reais por ano em dinheiro público no País. Embora a Prefeitura não divulgue o valor do cachê de Amado Batista para a festa dos 300 anos, a presença de um artista listado por trabalho análogo à escravidão pressiona a gestão a detalhar contratos, fontes de recursos e filtros éticos usados nas escolhas.
Especialistas em transparência e controle de gastos públicos defendem que editais e chamamentos culturais incluam cláusulas de integridade social, e não apenas fiscal. Na prática, isso significaria considerar, na definição das atrações, histórico de violações de direitos humanos e ambientais, assim como condenações por racismo, assédio ou violência contra a mulher.
No Legislativo, vereadores de oposição preparam requerimentos para cobrar explicações formais da Prefeitura na próxima semana. A Comissão de Direitos Humanos pretende convocar representantes da Secretaria de Turismo e da controladoria municipal para detalhar contratos e procedimentos internos. Organizações da sociedade civil discutem novas ações, como recomendações ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas do Município.
O que vem depois da festa dos 300 anos
Com o palco montado e a estrutura pronta no Jangurussu, a Prefeitura aposta que o público manterá a adesão às celebrações e busca, ao menos por ora, esvaziar o debate. A ausência de posicionamento oficial, porém, tende a prolongar a controvérsia para além desta noite e a marcar o balanço político das comemorações.
Passado o evento, a Câmara deve medir forças com o Executivo em torno de novos parâmetros para contratações artísticas e patrocínios culturais. A pressão por transparência e critérios éticos mais claros na seleção de artistas deve se repetir em outros contratos da cidade, do Carnaval ao Réveillon. Resta saber se a gestão municipal transformará o desgaste em correção de rota ou se insistirá em tratar a escolha de atrações apenas como assunto de agenda cultural, sem considerar o peso político e simbólico de quem sobe ao palco pago com dinheiro público.
