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Laudo projeta Botafogo fora da Libertadores até 2035

Um laudo econômico sobre a SAF do Botafogo projeta o clube fora da Copa Libertadores até 2035. O estudo, divulgado neste domingo (12), também prevê campanhas modestas em Brasileirão, Copa do Brasil e Copa Sul-Americana.

Projeções esportivas limitadas e pressão imediata

O relatório, elaborado pela Meden Consultoria com base em dados recentes da gestão societária do futebol alvinegro, traça um cenário esportivo pouco animador para os próximos anos. As simulações indicam que o Botafogo oscila entre a sétima e a 12ª colocação no Campeonato Brasileiro e não passa das quartas de final em Copa do Brasil e Copa Sul-Americana até 2035.

A ausência da Libertadores por pelo menos nove temporadas seguidas reduz a exposição internacional do clube e limita o acesso às premiações mais altas do continente. Em um mercado em que a competição sul-americana se tornou fonte relevante de receita, a perspectiva de ficar fora do principal torneio até 2035 funciona como um freio às ambições esportivas e financeiras do Botafogo.

Dívida bilionária e valor econômico negativo

O laudo aponta que a SAF do Botafogo carrega hoje uma dívida de R$ 2,7 bilhões, dos quais R$ 1,6 bilhão vence no curto prazo. A Meden calcula ainda que o valor econômico da empresa é negativo em R$ 489,1 milhões, ou seja, mesmo com os avanços de gestão, o negócio vale menos do que o conjunto de suas obrigações.

Na avaliação dos consultores, o desempenho em campo e o caixa caminham juntos. “As receitas de um clube ou empresa que tem como atividade principal a prática de atividades desportivas, em especial o futebol, estão fortemente associadas ao desempenho esportivo”, registra o documento. As projeções de renda consideram o histórico recente da SAF entre 2023 e 2025, as expectativas atualizadas da administração e dados do mercado de futebol.

O texto descreve um quadro ainda frágil. “Apesar dos avanços operacionais e do crescimento das receitas, observa-se que a SAF Botafogo ainda enfrenta um quadro de desequilíbrio econômico-financeiro, caracterizado pela recorrência de prejuízos, elevada necessidade de capital e dependência de fontes externas de financiamento para sustentação de suas atividades”, diz o laudo.

A fotografia é de um clube que tenta modernizar processos, aumentar a arrecadação e reorganizar a dívida, mas ainda não consegue romper o ciclo de resultados negativos. Sem uma melhora significativa das contas, a tendência é manter elencos mais modestos, menos competitivos na briga por títulos nacionais e continentais.

Libertadores distante e efeito em torcedores e mercado

O peso de ficar fora da Libertadores até 2035 vai além do campo esportivo. A competição garante premiações em dólar, exposição global e impulsiona patrocínios. Ao projetar o Botafogo fora do torneio por tanto tempo, o estudo sinaliza que o clube terá menos margem para disputar jogadores caros, investir em estrutura e disputar espaço com rivais que frequentam a elite continental com mais regularidade.

Torcedores, patrocinadores e parceiros institucionais sentem o impacto. A torcida convive com a frustração de ver o clube distante dos principais palcos, enquanto marcas tendem a ser mais cautelosas ao negociar contratos de alto valor com um projeto que, no papel, não entrega presença constante em grandes competições. A própria autoestima esportiva do Botafogo, que já viveu fases de protagonismo nacional e revelou ídolos históricos, entra em conflito com a realidade desenhada nas planilhas.

O diagnóstico também pesa no vestiário. Técnicos e jogadores sabem que campanhas projetadas entre sétimo e 12º lugar no Brasileirão e quedas antecipadas em mata-matas significam menor bônus esportivo, menos vitrine para transferências e pressão maior por resultados que contrariem o laudo. Em um ambiente desse tipo, qualquer sequência ruim tende a amplificar cobranças internas e externas.

Aporte de Textor e disputa política interna

Controlador da SAF, John Textor tenta alterar esse quadro com um aporte de US$ 25 milhões, por meio de emissão de ações. O executivo convocou uma Assembleia Geral Extraordinária para 20 de abril para discutir a capitalização e buscar apoio formal aos novos recursos. A injeção de dinheiro é vista como crucial para dar fôlego ao caixa, honrar compromissos imediatos e manter o clube funcional enquanto a reestruturação se desenrola.

O movimento, porém, enfrenta resistência no clube social, que não se manifesta oficialmente, mas rejeita o modelo proposto pelo investidor. A divergência expõe uma fratura política entre a associação e a SAF em um momento em que o Botafogo precisa de coordenação para negociar dívidas, atrair parceiros e executar um planejamento de longo prazo.

A discussão ocorre em meio a um contexto mais amplo do futebol brasileiro, em que outras SAFs tentam encurtar o caminho entre saneamento financeiro e resultados em campo. A experiência mostra que o ajuste costuma ser lento e turbulento, especialmente quando o passivo é bilionário e a torcida cobra conquistas imediatas.

Futuro em disputa e incertezas até 2035

O laudo da Meden não funciona como uma sentença definitiva, mas como um alerta. As projeções partem de premissas conservadoras e refletem o que pode acontecer se nada estrutural mudar na gestão, na política interna e na capacidade de investimento do Botafogo ao longo da próxima década.

Os próximos capítulos passam pela Assembleia de 20 de abril, pela capacidade da SAF de atrair novos recursos e pela construção de um plano crível de redução de dívidas. Sem isso, o cenário desenhado para até 2035 tende a se confirmar, com o clube distante da Libertadores e limitado a campanhas intermediárias no país. A pergunta que fica para dirigentes, investidores e torcedores é se o Botafogo consegue transformar um laudo preocupante em ponto de virada ou se viverá mais uma longa travessia à margem do protagonismo esportivo.

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