Ultimas

Keiko promete expulsar imigrantes irregulares e se alinhar a Trump

Keiko Fujimori promete expulsar imigrantes irregulares e aproximar o Peru dos Estados Unidos e de Donald Trump, em entrevista às vésperas da eleição de domingo. Favorita nas pesquisas, a candidata de direita aposta em uma agenda de segurança dura e reposicionamento geopolítico para tentar chegar pela primeira vez ao Palácio de Governo em 2026.

Ordem em 100 dias e aceno a Washington

Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, morto em 2024, Keiko entra pela quarta vez na disputa presidencial com a promessa de “recuperar a ordem” nos primeiros 100 dias de governo. Em um comitê de campanha em Lima, ela afirma que pretende usar mão pesada contra o crime, a imigração irregular e o que chama de avanço da esquerda na região.

Aos 50 anos, a candidata lidera com leve vantagem, com cerca de 15% das intenções de voto nas pesquisas divulgadas no último domingo, as últimas autorizadas antes do pleito. O índice é suficiente para levá-la a um provável segundo turno em junho, em uma corrida fragmentada com 35 nomes, entre eles um comediante, um magnata da mídia, um político de centro de 80 anos e o herdeiro político do ex-presidente de esquerda Pedro Castillo.

Keiko mira o eixo Washington-Trump como âncora de seu projeto econômico e político. “Meu papel, caso eu seja eleita presidente, será motivar os Estados Unidos a voltarem a participar mais ativamente na economia peruana”, diz, em entrevista à agência AFP. A mensagem tenta reposicionar o país em meio à disputa entre EUA e China pela influência na América Latina.

O Peru é hoje o segundo maior receptor de investimentos chineses na região, atrás apenas do Brasil. Entre 2005 e 2025, ao menos US$ 29 bilhões chegam ao país em projetos ligados a mineração, energia e infraestrutura, segundo o China Global Investment Tracker. Keiko se apresenta como a líder capaz de inverter essa curva e reabrir as portas para o capital americano, em sintonia com Trump, que busca novos aliados para conter Pequim.

Mão dura contra imigrantes e crime organizado

A promessa de expulsar imigrantes irregulares é o eixo mais sensível do programa de segurança de Keiko. “Expulsaremos os cidadãos sem documentos e esperamos que seja possível fazer um corredor humanitário para que os que foram forçados a sair de seu país possam retornar”, afirma. A declaração atinge diretamente a comunidade venezuelana, hoje a maior população estrangeira no Peru.

O país abriga cerca de 1,6 milhão de venezuelanos, dos quais 14% vivem sem residência autorizada, segundo dados oficiais. A candidata associa o avanço da criminalidade ao fluxo migratório e tenta capitalizar o sentimento de insegurança nas grandes cidades. “É meu compromisso recuperar a ordem no Peru”, repete, ao defender um pacote que inclui expulsões aceleradas, reforço policial e presença militar nos presídios.

Keiko anuncia que pedirá ao Congresso autorização para enviar tropas às prisões e reinstalar tribunais com “juízes sem rosto” para julgar criminosos. O modelo, usado no governo de seu pai entre 1990 e 2000, permite que magistrados atuem de forma anônima em casos de terrorismo e crime organizado, sob o argumento de protegê-los de ameaças. Organizações de direitos humanos criticam a proposta por eliminar garantias básicas de defesa e transparência.

A figura de Alberto Fujimori continua a dividir o país. Para parte da população, ele é o presidente que derrotou a guerrilha Sendero Luminoso e estabilizou a economia após a hiperinflação. Para outra parcela, é o autocrata condenado a 25 anos de prisão por violações de direitos humanos e corrupção, libertado em 2023 por decisão do Tribunal Constitucional, em choque com a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Keiko se apoia nesse legado, mas promete ir além. “Meu pai trouxe ordem, crescimento econômico e trabalhou com os setores mais populares. Tenho o sarrafo lá no alto e espero superá-lo”, afirma. “O tempo está colocando as coisas em seu lugar e, hoje, quando o Peru sangra pelos delinquentes e os extorsionistas, o que pedem é um Fujimori, aqui estou.”

Direita em ascensão e futuro incerto

Keiko se coloca como peça-chave da nova onda conservadora na região. Ela cita líderes como Javier Milei, na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Daniel Noboa, no Equador, e Rodrigo Paz, na Bolívia, como parte de uma mesma guinada. “A América Latina está girando para uma corrente na qual se prioriza a liberdade, os investimentos e recuperar o controle e a segurança”, diz. “Faltam Colômbia e Peru.”

O discurso encontra eco em um país marcado por uma década de instabilidade. O Peru tem oito presidentes em dez anos, quatro deles destituídos pelo Parlamento, onde o fujimorismo atua como força decisiva, e outros dois pressionados a renunciar. A candidata tenta agora se apresentar como moderadora, e não como fator de confronto. “Também cometi erros, ao ter momentos de muita confrontação. E com isso aprendemos a priorizar o diálogo e a fomentar consensos”, afirma.

A agenda migratória e de segurança, porém, tende a acirrar tensões internas e externas. Organizações de direitos civis já veem com preocupação a volta dos “juízes sem rosto” e o uso de militares em funções típicas de polícia. A comunidade venezuelana teme uma onda de deportações sumárias, enquanto governos vizinhos acompanham o risco de um efeito dominó em suas próprias fronteiras.

O alinhamento explícito com Trump e com Washington pode redesenhar o mapa de alianças do Peru. Um eventual governo Keiko tende a revisar contratos e prioridades de investimento, sobretudo em setores estratégicos dominados por empresas chinesas. O movimento promete agradar parte do empresariado doméstico e investidores americanos, mas pode provocar retaliações comerciais e abrir novas frentes de polarização política.

Mais de 27 milhões de peruanos vão às urnas neste domingo para escolher presidente e, pela primeira vez desde 1990, deputados e senadores, em substituição ao atual Congresso unicameral. Keiko chega à votação pressionada por adversários como o comediante Carlos Álvarez, o ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga, o empresário de mídia Ricardo Belmont e o esquerdista Roberto Sánchez.

O resultado deve definir se o país avança para um segundo turno marcado pela disputa em torno de migração, segurança e alinhamento internacional. As promessas de expulsões em massa, tribunais secretos e reaproximação com Trump colocam o Peru diante de uma escolha clara entre modelos opostos de Estado. Resta saber até que ponto o eleitorado está disposto a trocar o temor do crime pela incerteza sobre direitos e liberdades.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *