Brasileiro propõe rota a Marte que encurta viagem para até 153 dias
Um físico brasileiro publica neste sábado (11) um estudo que promete redesenhar o caminho até Marte. O trabalho mostra que viagens hoje estimadas em até três anos podem ser reduzidas para algo entre 153 e 226 dias.
Rota rápida nasce de asteroides e inteligência artificial
O autor da proposta é Marcelo de Oliveira Souza, professor de física da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), em Campos dos Goytacazes (RJ). O artigo, aceito pela revista Acta Astronautica, da Academia Internacional de Astronáutica, sai na plataforma Science Direct e descreve uma nova rota entre a Terra e Marte baseada em trajetórias de asteroides.
O estudo, iniciado em 2015, parte de uma pergunta simples: se alguns asteroides conseguem, de forma natural, orbitar em trajetórias que cruzam as vizinhanças da Terra e de Marte, por que não aproveitar esses mesmos caminhos para missões tripuladas e robóticas? Para responder, Marcelo usa dados orbitais iniciais desses corpos celestes e aplica técnicas de inteligência artificial para identificar o que chama de “corredores geométricos” no Sistema Solar.
Esses corredores funcionam como faixas preferenciais de tráfego espacial, em que a combinação entre posição dos planetas e velocidade da nave permite percursos mais curtos. Em vez de seguir a rota clássica, calculada para economizar combustível e que pode levar de dois a três anos, a nave passaria a explorar atalhos inspirados na dinâmica real dos asteroides. O resultado, segundo as simulações, é uma redução de tempo que chega a cerca de 80%.
Marcelo testa dois cenários. Em um deles, assume uma tecnologia de propulsão mais avançada, com velocidades ainda fora do alcance atual. É nesse caso que surge o tempo mínimo de 153 dias até Marte. No outro, trabalha com parâmetros compatíveis com foguetes e sistemas disponíveis hoje, o que leva a uma viagem de ida, permanência em Marte e retorno à Terra totalizando 226 dias, pouco mais de sete meses.
“Claro que para efetivar uma viagem, é preciso ter todo o ajuste da velocidade do foguete, para saber se alcança o que eu propus, tem a questão do que pode ser levado, a carga útil… fiz a proposta teórica”, explica o pesquisador. “Simulei dois modelos, uma com a tecnologia que a gente não tem hoje, que é uma velocidade muito mais rápida, e outra, mais viável dentro da tecnologia que temos.”
Brasil entra no mapa das rotas interplanetárias
O trabalho aparece em um momento em que a exploração de Marte deixa de ser apenas um projeto distante. A Nasa, a agência espacial europeia (ESA), empresas privadas e países como China e Índia disputam espaço na próxima década de missões ao planeta vermelho. O Brasil é signatário do programa Artemis, que prevê o retorno de astronautas à Lua como passo para missões mais longas no espaço profundo.
A nova rota descrita por Marcelo oferece uma ferramenta adicional para esse tabuleiro. Uma viagem mais curta reduz o tempo em que astronautas permanecem expostos à radiação cósmica e ao confinamento, dois dos maiores riscos médicos de missões interplanetárias. Encorta também a janela em que qualquer falha técnica pode se transformar em emergência, o que tem impacto direto no planejamento de redundâncias, estoques de comida, água e combustível.
No campo econômico, trajetórias mais eficientes tendem a diminuir custos totais de missão, mesmo que exijam sistemas de propulsão mais sofisticados. Menos dias no espaço significam menos massa dedicada a suprimentos e mais espaço para instrumentos científicos ou cargas comerciais. Para um setor que calcula cada quilograma lançado em dezenas de milhares de dólares, essa diferença pode redefinir orçamentos.
O estudo também projeta a inteligência artificial como parceira central da astronomia e da engenharia espacial. Marcelo usa algoritmos para vasculhar grandes bancos de dados orbitais em busca de padrões que, à primeira vista, passam despercebidos. “Os resultados mostram que dados iniciais podem revelar corredores geométricos para missões interplanetárias muito mais rápidas”, afirma. A mesma lógica, avalia, pode ser aplicada a outras rotas, como viagens a asteroides de interesse econômico ou científico.
A publicação em uma revista de circulação internacional aumenta a visibilidade da ciência feita no país. A trajetória pessoal de Marcelo ajuda a explicar esse caminho. Graduado em Física, com doutorado em Cosmologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele dá aulas na UENF desde 1994 e se dedica à divulgação científica. “Meu pai era químico e minha mãe professora. Desde novo sempre tive interesse pelas ciências exatas. Decidi ser físico por influência do Einstein”, conta.
Entre o céu escuro do interior fluminense e o futuro de Marte
O professor constrói essa pesquisa sem se afastar da militância pelo céu noturno. Em 1996, ajuda a fundar o Clube de Astronomia Louis Cruls, em Campos dos Goytacazes, que hoje completa 30 anos. O grupo representa no estado do Rio de Janeiro iniciativas internacionais como Astrônomos sem Fronteiras e o Charlie Bates Solar Astronomy Project, e coordena o DarkSky Rio de Janeiro, único núcleo oficial da DarkSky no país.
Marcelo é o primeiro brasileiro a receber um prêmio da DarkSky International, organização que lidera a preservação do céu escuro no mundo. A instituição destaca seu papel na criação do Parque Estadual do Desengano como International Dark Sky Park, o primeiro local da América Latina com certificação oficial de céu escuro. O título reconhece áreas com baixa poluição luminosa, fundamentais tanto para a astronomia quanto para a preservação ambiental.
O trabalho de bastidor inclui ainda ações de educação científica. Pelo Clube Louis Cruls, Marcelo traz ao Brasil o astronauta Buzz Aldrin, segundo homem a pisar na Lua, para sua primeira palestra no país, em Campos dos Goytacazes. Ele também coordena o projeto Jovens Astros do Amanhã, apoiado e financiado pelo Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, que aproxima estudantes da astronomia com observações do céu e atividades em escolas públicas.
O artigo agora publicado projeta esse percurso local para uma escala interplanetária. Ao conectar asteroides que cruzam a órbita terrestre e marciana, inteligência artificial e planejamento de missões, a pesquisa oferece um novo ponto de partida para agências espaciais. Cabe às equipes de engenharia testar, ajustar e, eventualmente, transformar a proposta em plano de voo.
Os próximos anos devem mostrar se a rota brasileira até Marte sairá do papel. Novos estudos precisarão avaliar consumo real de combustível, limites de carga útil e compatibilidade com janelas de lançamento, que dependem da posição relativa entre Terra e Marte. O debate já começa em um momento em que a humanidade volta a olhar para a Lua com a missão Artemis II e ensaia seus primeiros passos rumo a viagens regulares ao planeta vizinho. A questão que fica é quando, e com qual tecnologia, essa estrada mais curta para Marte estará aberta de fato.
