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STJD mantém suspensão, e Abel Ferreira perde Dérbi contra o Corinthians

O técnico Abel Ferreira está fora do Dérbi entre Corinthians e Palmeiras após ter o pedido de efeito suspensivo negado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). A decisão, tomada em abril de 2026, mantém a suspensão de oito jogos imposta ao treinador por duas expulsões recentes. O clube alviverde contesta a punição e vê prejuízo direto na preparação para um dos clássicos mais importantes da temporada.

Tribunal barra retorno e mira mudança de postura

O Palmeiras tenta, desde a divulgação da pena, levar Abel ao clássico como sinal de força num momento em que o Brasileirão ainda engatinha. O clube recorre ao pleno do STJD, busca o efeito suspensivo e argumenta que a punição é desproporcional, mas esbarra em um entendimento mais rígido do tribunal em relação a condutas reiteradas à beira do campo.

O caso chega à relatora Mariana Barros Barreiras, que analisa o recurso palmeirense e o pedido de liminar para liberar o treinador já no Dérbi. Ela reconhece que o técnico já cumpre dois jogos por suspensão automática, mas considera insuficientes os argumentos para interromper a execução da pena de oito partidas. Para o STJD, não há espaço para uma reversão tão ampla na segunda instância que reduza a punição a ponto de torná-la próxima do mínimo previsto.

Abel recebe duas punições em julgamentos distintos, ambos por expulsões em partidas do Campeonato Brasileiro. Em um dos processos, o treinador leva seis jogos de gancho; no outro, mais dois, totalizando oito. O Palmeiras pede que, ao menos até o julgamento do recurso, o técnico fique liberado. O tribunal concorda em suspender a continuidade do cumprimento da pena apenas depois de dois jogos, justamente o período já alcançado pelas suspensões automáticas que ocorrem sempre após o cartão vermelho.

Pelo Código Brasileiro de Justiça Desportiva, o efeito suspensivo só se aplica quando o julgador enxerga uma chance real de mudança relevante da decisão original. A lógica é evitar que um atleta ou treinador cumpra uma punição que, lá na frente, pode cair ou ser sensivelmente reduzida. No caso de Abel, a relatora entende que o histórico recente de expulsões e a repetição de conduta reprovável tornam improvável uma reviravolta desse tamanho.

“Não há perigo de dano ao treinador, porque não se vislumbra uma redução da pena que torne desnecessário o cumprimento já iniciado”, aponta Mariana Barreiras na fundamentação, em linha com a nova diretriz do tribunal de restringir liminares que esvaziem punições aplicadas em primeira instância.

Endurecimento do STJD muda jogo fora das quatro linhas

A negativa ao pedido do Palmeiras não acontece isoladamente. Nos bastidores do STJD, dirigentes e auditores discutem há meses a percepção de que condenados em primeira instância raramente cumprem de fato as penas completas. O tribunal passa a adotar, de forma mais explícita, dois movimentos combinados: reduzir a concessão de efeitos suspensivos e acelerar o calendário de julgamentos, sobretudo nos casos da Série A.

A nova orientação indica que liminares serão exceção, reservadas a situações em que haja chance concreta de absolvição ou de queda drástica da pena. No processo de Abel, o entendimento é que, mesmo com recurso, dificilmente o treinador escapa sem uma punição robusta. O próprio agendamento do caso reforça essa leitura: o pleno do STJD marca o julgamento da segunda instância já para a quarta-feira seguinte, menos de duas semanas depois dos episódios em campo.

Essa mudança busca atacar um problema crônico do futebol brasileiro: decisões sobre lances da primeira rodada sendo apreciadas só no meio do campeonato, quando o contexto esportivo é outro. Na prática, isso dilui o efeito pedagógico das punições e alimenta o discurso de impunidade. Ao decidir o futuro de Abel antes da rodada seguinte, o tribunal tenta aproximar a sanção do fato gerador, tanto no tempo quanto no impacto para o clube.

No Palmeiras, o tom é de inconformismo. Em nota, o clube afirma que a pena “foi desproporcional” e critica o indeferimento da liminar às vésperas do clássico. “Causa ainda maior estranheza a resposta negativa dada neste sábado (11) pelo STJD ao pedido de efeito suspensivo protocolado pelo clube ainda na quinta-feira (9)”, registra o texto divulgado pela diretoria, que vê tratamento mais duro ao seu técnico em comparação a decisões recentes envolvendo outros clubes e treinadores.

A ausência de Abel no banco mexe com a rotina alviverde. O auxiliar assume o comando à beira do gramado, passa a dar orientações diretas e concentra a comunicação com a arbitragem e com o elenco. O treinador português acompanha o jogo das tribunas e mantém contato com a comissão por rádio e mensagens, dentro dos limites previstos pelo regulamento da competição. Na preparação do elenco, porém, a figura do técnico segue central, com treinos, reuniões de vídeo e definição da estratégia conduzidos normalmente durante a semana.

Clássico sob pressão e teste para nova jurisprudência

O Dérbi se transforma em um laboratório imediato da guinada do STJD. A decisão de manter Abel suspenso envia um recado ao mercado do futebol: reclamações inflamadas, gestos exagerados e confrontos repetidos com a arbitragem tendem a custar caro. Com oito jogos de suspensão na mesa, o técnico corre o risco de perder mais de 20% do Campeonato Brasileiro, caso a pena seja mantida integralmente.

Para o Palmeiras, o impacto vai além de uma partida. O clube se vê obrigado a elaborar um plano de médio prazo para lidar com a ausência do treinador em até oito rodadas. Isso afeta o dia a dia no vestiário, a relação com a torcida e até a gestão de elenco, já que decisões sensíveis sobre mudanças táticas e uso de jovens costumam ganhar peso em momentos de pressão.

O movimento do STJD também tende a influenciar a postura de outros técnicos. A perspectiva de respostas mais rápidas e punições mantidas em segunda instância aumenta o custo dos excessos à beira do campo. A partir do novo calendário proposto pelo tribunal, casos relevantes da Série A devem ter julgamento em primeira instância na semana seguinte ao jogo e análise do pleno na semana posterior. Esse encurtamento de prazos pode redefinir o cálculo de risco de treinadores e dirigentes na hora de contestar a arbitragem.

O recurso do Palmeiras será julgado em breve e pode, no limite, reduzir o tamanho do gancho aplicado a Abel. A própria diretoria encara essa etapa como oportunidade de reabrir o debate sobre a proporcionalidade da pena e o tratamento dado a condutas similares em outros clubes. Ainda assim, o técnico já entra para a lista recente de personagens afetados por um STJD mais disposto a fazer valer, em tempo real, as punições que aplica.

O clássico contra o Corinthians acontece sem o comandante alviverde à beira do gramado, mas sob o peso de uma discussão que extrapola o placar. A forma como o tribunal lida com o caso Abel deve orientar decisões futuras e testar, na prática, se o futebol brasileiro está disposto a conviver com um ambiente disciplinar mais rígido. O resultado do julgamento na próxima quarta-feira dirá se a nova linha do STJD veio para ficar ou se ainda haverá espaço para recuos diante da pressão dos clubes.

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