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Novo sistema de fronteiras da UE causa caos e filas no aeroporto de Lisboa

O novo sistema europeu de controle de fronteiras transforma o Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, em um gargalo para passageiros internacionais desde sexta-feira (10). Filas que avançam até a área de lojas, atrasos de até três horas e perda de voos atingem principalmente brasileiros e outros viajantes de fora da União Europeia.

Filas que avançam pelas lojas e voos perdidos

Na manhã deste sábado (11), a cena se repete no principal aeroporto português. A fila da imigração ocupa corredores, contorna vitrines e chega à zona de restaurantes. Passageiros relatam esperas de até duas horas apenas para passar malas no raio-x e mais três horas no controle de passaporte. Chegar com três horas de antecedência, como recomendam as companhias aéreas, já não basta.

O brasileiro João Quintino de Almeida, 28 anos, está em Lisboa desde as 6h. Ele tenta embarcar em um voo para Brasília, com escala em São Paulo, operado pela Latam. “Estou no aeroporto de Lisboa desde as 6h, e tem uma fila enorme, de mais ou menos duas horas, para passar as malas no raio x. Depois para embarcar tem outra fila, que está demorando três horas”, relata. A fila começa antes mesmo da área vip. “Provavelmente vou perder meu voo”, admite.

O cenário não é isolado. Cerca de 55 passageiros do voo JJ 8147, da Latam, com destino a Guarulhos, teriam perdido o embarque por causa da lentidão no processo de controle. Entre eles há brasileiros, canadenses e viajantes de outros países que não integram o espaço Schengen, o bloco de livre circulação dentro da União Europeia.

João diz ouvir reclamações em diferentes línguas. “Tem vários canadenses reclamando também que nunca viram uma coisa dessa para sair do país. Mas falam que é pela ‘nossa segurança’, mas acho que é por incompetência”, critica. Para ele, a recomendação oficial de chegar três horas antes ao aeroporto está ultrapassada. “Se alguém for viajar, sair ou entrar em Portugal, chegue 14 horas antes”, ironiza. “Quatro horas antes do voo ainda é pouco”.

A diferença de tratamento entre passageiros com e sem passaporte europeu acentua a frustração. “Os funcionários até têm passado com frequência na fila para dizer que quem tem passaporte europeu é para sair da fila, que assim faz essa andar mais rápido”, afirma. Brasileiros e demais estrangeiros seguem presos no gargalo do novo sistema.

Novo sistema biométrico expõe falhas de gestão

O ponto de ruptura surge com a entrada em plena atividade do sistema europeu de entrada e saída, conhecido pela sigla em inglês EES. O mecanismo, que registra dados biométricos e informações detalhadas de entrada e saída de cidadãos de países terceiros, começa a operar na sexta-feira (10) em Lisboa. A promessa oficial é reforçar a segurança nas fronteiras externas do bloco. Na prática, o efeito imediato é um aumento drástico no tempo de processamento de cada passageiro.

A ANA Portugal, concessionária que administra o aeroporto, admite o problema. Em nota, a assessoria afirma que “o novo sistema de fronteira com registro biométrico, que começou ontem, está a causar tempos de espera elevados”. O comunicado não apresenta números oficiais de atendimento por hora nem previsão de normalização. A Latam informa que apura os casos de clientes que perderam voos e evita, por ora, falar em compensações específicas.

Empresários que utilizam com frequência o aeroporto de Lisboa veem na crise mais do que um ajuste de tecnologia. Para um executivo que prefere não se identificar, a situação se torna insustentável. “O cenário no Aeroporto de Lisboa já é claramente caótico e vai além de uma simples limitação de infraestrutura”, afirma. Segundo ele, há “um problema estrutural de capacidade, agravado pela insuficiência de efetivo no controle migratório e pela implementação do novo sistema europeu de fronteiras, que aumentou significativamente o tempo de processamento dos passageiros fora do espaço Schengen”.

O mesmo empresário aponta diferenças em relação a outros hubs europeus. “O mais preocupante é que essa realidade não se repete com a mesma intensidade em outros aeroportos europeus, o que evidencia uma falha específica de gestão operacional”, diz. Na visão dele, a conta não é apenas de conforto dos passageiros. “O impacto econômico é direto: perda de competitividade do destino, risco ao fluxo turístico e um movimento crescente de passageiros optando por entrar ou sair pela Espanha para evitar o desgaste”.

Simão Callado, diretor da Ibero Partners e residente em Aveiro, reforça o diagnóstico em uma rede social. “A questão não é apenas um tema de capacidade da infraestrutura, a questão é hoje claramente um problema de gestão operacional. Não é aceitável que, em pleno 2026, um aeroporto europeu como o de Lisboa não consiga garantir um fluxo previsível com antecedência”, critica.

Callado discorda da ideia de que a construção de um novo aeroporto em Lisboa, o chamado NAL, resolva o problema de imediato. “Estamos a falar de previsibilidade básica de gestão de equipes, filas e priorização. Não se vai resolver isto com um novo aeroporto, resolve-se com disciplina”, afirma. Para ele, a capacidade física é um fator, mas não explica o caos atual. “Capacidade é um tema, mas o de hoje é falha na execução. E enquanto não se analisar por este viés não muda”.

Pressão sobre autoridades e incerteza para passageiros

A implantação do EES ocorre em um momento de alta na demanda por viagens entre Brasil e Europa. Em 2025, o fluxo de brasileiros para Portugal cresce em ritmo de dois dígitos, impulsionado pelo turismo, intercâmbios e viagens de negócios. O aeroporto de Lisboa consolida-se como porta de entrada natural de quem vem do Brasil não apenas para Portugal, mas para outros países europeus. O novo sistema, pensado para harmonizar e agilizar controles em todo o bloco, expõe, no caso português, um descompasso entre tecnologia, pessoal disponível e capacidade de atendimento.

Na prática, quem chega ou sai de Lisboa sem passaporte europeu enfrenta hoje um risco real de perder conexões, reuniões e reservas já pagas. Hotéis, operadoras de turismo e companhias aéreas ainda medem o impacto financeiro, mas admitem, em privado, o aumento de reclamações e pedidos de reacomodação. A possibilidade de que parte desses passageiros redirecione suas rotas para Madri, Paris ou Frankfurt preocupa o setor, que conta com o hub lisboeta para manter tarifas competitivas e voos diretos para o Brasil.

Especialistas em gestão aeroportuária ouvidos por consultorias independentes defendem ações imediatas. As sugestões incluem reforço de efetivo nas cabines de controle de fronteira, ampliação da sinalização em vários idiomas e criação de filas específicas para conexões iminentes. O objetivo é reduzir, nas próximas semanas, o tempo médio de atendimento para algo próximo de 30 minutos, muito abaixo das atuais duas a três horas relatadas por passageiros.

Autoridades portuguesas e europeias são pressionadas a ajustar o sistema sem abrir mão dos critérios de segurança que motivam o EES. O desafio é conciliar a coleta de dados biométricos e o cruzamento de informações com a experiência mínima aceitável para quem viaja. A crise em Lisboa funciona como teste de estresse para o modelo e pode antecipar mudanças na forma de implantação em outros aeroportos da União Europeia.

Enquanto as soluções não chegam, viajantes de fora do espaço Schengen recalculam rotas e horários. Chegar com cinco ou até seis horas de antecedência ao Aeroporto Humberto Delgado torna-se uma espécie de seguro improvisado contra filas imprevisíveis. A extensão do problema nas próximas semanas dirá se o caos atual é uma etapa de adaptação ou o sinal de que a fronteira digital europeia nasce com um erro de projeto difícil de corrigir.

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