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Flávio Bolsonaro volta a fazer dancinha em ato de Zucco no RS

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) volta a fazer a dancinha que já exibiu em eventos do partido durante o lançamento da pré-candidatura de Tenente-Coronel Zucco, no Rio Grande do Sul. O gesto, que ocorre em meio à tentativa de suavizar a imagem pública da família Bolsonaro, expõe a aposta em cenas de descontração como ativo de campanha.

Performance repetida vira estratégia de imagem

Flávio entra no palco ao lado de Zucco, em um centro de eventos lotado, e repete os passos que já viralizaram em encontros do PL desde 2022. O movimento é ensaiado, dura poucos segundos, mas concentra a atenção de quem acompanha o ato, gravado em celulares erguidos a poucos metros do senador.

A cena ocorre em um momento em que o bolsonarismo tenta reorganizar sua base no Sul, região em que Jair Bolsonaro chegou a superar 60% dos votos válidos em cidades-chave nas eleições de 2022. Zucco, que mira a próxima disputa municipal e projeta voo mais alto em 2026, apresenta Flávio não apenas como articulador político em Brasília, mas como rosto mais “palatável” da família, disposto a rir de si mesmo.

O senador sabe que cada gesto vira conteúdo. A repetição da dancinha, vista antes em encontros partidários no Rio e em Brasília, não é improviso. Integra um roteiro que busca deslocar o foco das investigações, da pressão judicial e da rejeição consolidada em parte do eleitorado para cenas leves, compartilháveis em vídeos curtos de 15 a 30 segundos nas redes sociais.

A campanha de Zucco, segundo aliados, identifica rejeição à família Bolsonaro em segmentos urbanos de renda média no Rio Grande do Sul. A aposta é que a imagem de um Flávio sorridente, dançando e interagindo com simpatizantes, ajude a reduzir esse índice em alguns pontos percentuais em bairros decisivos. Não há pesquisa divulgada com números recentes, mas dirigentes falam, em privado, em pelo menos 30% de eleitores que ainda associam o sobrenome Bolsonaro a radicalismo.

Bolsonarismo testa figura mais “humanizada” no Sul

O uso de performances descontraídas não é novidade em campanhas brasileiras, mas ganha outro peso no entorno bolsonarista. Desde 2019, a família alterna aparições duras, com discursos sobre segurança e moralidade, com momentos de dança, imitação e brincadeiras em motociatas, lives e palanques. A repetição da dancinha por Flávio marca uma ênfase nessa segunda face, menos combativa.

No palco, Zucco explora essa imagem. Apresenta o senador como “amigo” e “parceiro” e o convida a animar o público, em tom de show, mais próximo de uma festa de clube do que de um comício tradicional. O ambiente tem bandeiras, camisetas e trilha sonora que alterna jingle de campanha com hits facilmente reconhecíveis. O recado é claro: o bolsonarismo quer se mostrar acessível, sobretudo para os mais jovens.

A estratégia tenta responder a um cenário em que, nas últimas eleições, a resistência a figuras associadas diretamente a Jair Bolsonaro cresce em capitais e grandes regiões metropolitanas. Em 2022, candidatos alinhados ao ex-presidente sofrem derrotas em disputas locais importantes, mesmo com desempenho robusto em cidades menores. No Sul, o PL não quer repetir o desgaste em 2024 e 2026.

Analistas políticos ouvidos em bastidores avaliam que movimentos como o de Flávio funcionam como teste de percepção. Se o vídeo da dancinha viraliza positivamente, a tendência é que o partido replique a cena em outros estados, com eventos em série ao longo de 2024 e 2025. Se a repercussão for negativa, o conteúdo tende a ser substituído por falas mais duras, focadas em economia, segurança e críticas ao governo federal.

Imagem em disputa e próximos passos na campanha

A aposta na leveza carrega riscos. A oposição já explora nas redes a imagem de um senador dançando enquanto o país enfrenta inflação alta em itens básicos, como alimentos, e desemprego que ainda atinge milhões. Críticos classificam a cena como “encenação superficial” e apontam que a coreografia não altera as posições da família em temas como armas, costumes e relação com as instituições.

Dentro do PL, a avaliação é pragmática. Se a dancinha ajuda a reduzir, mesmo que em 2 ou 3 pontos percentuais, a rejeição à marca Bolsonaro em colégios eleitorais relevantes, a estratégia se mantém. O cálculo leva em conta que, em disputas locais definidas em margem apertada, essa oscilação pode significar a diferença entre ir ou não ao segundo turno.

Zucco aparece no ato como beneficiário direto desse ensaio de rebranding político. Ao lado de Flávio, tenta se apresentar como continuidade do bolsonarismo, mas com tom moderado, mais próximo de um gestor municipal ou estadual do que de um militante de confronto permanente. A coreografia, nesse contexto, funciona como símbolo de uma tentativa de normalização, de trazer a família Bolsonaro para um convívio mais cotidiano com o eleitor.

Os próximos meses indicam se essa fórmula se sustenta. A depender da repercussão nas redes sociais e em pesquisas qualitativas encomendadas por partidos, o eleitor do Rio Grande do Sul pode ver Flávio em outras aparições semelhantes, com trilha sonora alta, microfone na mão e novos passos ensaiados. A dúvida permanece sobre até que ponto uma dancinha no palco é capaz de redefinir percepções construídas ao longo de anos de polarização intensa.

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