Netanyahu diz ter alcançado “resultados históricos” contra o Irã
Benjamin Netanyahu afirma neste sábado (11) que Israel alcança “resultados históricos” na guerra contra o Irã e anuncia negociações diretas de paz com o Líbano para a próxima semana, em Washington. Em discurso de 13 minutos na TV, o premiê diz que a campanha militar ainda não termina, mas sustenta que Teerã está “profundamente enfraquecido” e implora por um cessar-fogo.
Discurso busca consolidar narrativa de vitória
Netanyahu fala ao país em rede nacional em um momento em que a guerra contra o Irã completa meses de escalada e desgaste interno. O premiê tenta transformar operações militares espalhadas por fronteiras e pelo Golfo em um enredo de triunfo estratégico. “A campanha ainda não terminou, mas já pode ser dito claramente: alcançamos resultados históricos”, afirma, em tom de balanço.
Em seguida, ele enumera o que descreve como principais vitórias. Cita a eliminação do líder supremo do Irã, apresentada como uma “decapitação” do centro de poder em Teerã, e diz que Israel destrói as capacidades nucleares e de mísseis do país inimigo. Segundo Netanyahu, o estoque de urânio altamente enriquecido iraniano será removido “por um acordo ou por outros meios”, frase que deixa aberta a possibilidade de novas ações militares ou operações clandestinas.
O discurso mira sobretudo o público interno, que acompanha o conflito desde os primeiros ataques iranianos a alvos israelenses e americanos e as sucessivas respostas de Israel. Na última semana, ao menos três pesquisas nacionais mostram que a maioria dos israelenses não acredita que os EUA e Israel já tenham vencido a guerra. A fala do premiê tenta rebater essa percepção ao insistir na ideia de que o “regime de terror” em Teerã luta agora pela própria sobrevivência.
“O Irã está implorando por um cessar-fogo”, afirma Netanyahu. “O regime de terror está profundamente enfraquecido. Eles estão lutando pela sua própria sobrevivência.” A narrativa contrasta com a cautela de diplomatas em Washington e capitais europeias, que evitam falar em vitória definitiva enquanto o risco de retaliações assimétricas continua alto na região.
Equilíbrio de poder no Oriente Médio entra em nova fase
As declarações de Netanyahu tocam o núcleo da disputa de poder no Oriente Médio. A eliminação do líder supremo iraniano, ainda cercada de dúvidas e versões conflitantes no cenário internacional, representa um abalo sem precedentes em um regime que se ancora há mais de quatro décadas na figura de um guia religioso absoluto. A alegada destruição da infraestrutura nuclear e de mísseis de Teerã, se confirmada, muda o cálculo de dissuasão na região, reduz a margem de chantagem estratégica do Irã e abre espaço para rearranjos em alianças militares.
Enquanto o premiê fala a seu eleitorado, negociadores americanos e iranianos se reúnem no Paquistão para tentar conter a escalada e redesenhar limites de atuação no Golfo Pérsico. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no mundo, segue como principal ponto de atrito nas conversas. Petroleiros continuam a cruzar a faixa estreita cercados por escoltas navais e seguros mais caros, reflexo direto da incerteza sobre novos ataques.
O conflito já pressiona mercados globais de energia e aumenta o custo de vida em países dependentes de importações, inclusive na Europa e na Ásia. Para Israel, o quadro é ambíguo: por um lado, Netanyahu apresenta a campanha como êxito histórico; por outro, a sociedade encara meses de mobilização militar, interrupções na economia, queda de confiança em instituições e o temor permanente de foguetes e drones lançados por grupos aliados ao Irã.
A menção ao desarmamento do Hezbollah, milícia apoiada por Teerã e central na estratégia iraniana no Levante, sinaliza o que está em disputa na chamada frente norte de Israel. Um acordo que de fato retire mísseis e arsenais do grupo xiita do sul do Líbano poderia reconfigurar a segurança na fronteira, reduzir deslocamentos de população civil e aliviar a pressão sobre comunidades israelenses que vivem há anos sob ameaça de sirenes e abrigos.
Negociações com o Líbano e incertezas sobre o dia seguinte
Netanyahu anuncia que ordena negociações diretas com o Líbano, com início previsto para a próxima semana em Washington. Ele condiciona qualquer entendimento ao desarmamento do Hezbollah e a um “verdadeiro acordo de paz que durará por gerações”. A escolha da capital americana, tradicional mediadora de conflitos na região, reforça o papel dos Estados Unidos como fiador de um eventual arranjo fronteiriço que envolva Israel, Líbano e, indiretamente, o próprio Irã.
As conversas tendem a avançar em paralelo às tratativas entre Washington e Teerã, que entram, segundo diplomatas, em uma “fase de nível de especialistas”, mais técnica e discreta. Na prática, isso significa detalhar como seria a retirada do urânio enriquecido, quais inspeções internacionais poderiam ser aceitas e que garantias seriam dadas a Israel e aliados do Golfo. Cada ponto toca interesses sensíveis de regimes sob pressão interna e externa.
A opinião pública israelense permanece cética. Pesquisas divulgadas nos últimos sete dias indicam que a maioria da população duvida de uma vitória clara e teme que o Irã, mesmo enfraquecido, mantenha capacidade de ação via milícias e ataques cibernéticos. A distância entre o discurso de “resultados históricos” e a percepção nas ruas será determinante para o capital político de Netanyahu, que enfrenta críticas sobre a condução do conflito e sobre a exposição do país a riscos prolongados.
O desfecho das negociações em Washington, tanto com o Líbano quanto nos canais indiretos com Teerã, deve definir o desenho de segurança na região pelos próximos anos. Um cessar-fogo robusto, com mecanismos de verificação e redução gradual de arsenais, poderia consolidar o cenário de enfraquecimento iraniano descrito por Netanyahu. Um impasse prolongado ou um acordo frágil manteria o Oriente Médio preso ao ciclo de escaladas e trégua que marca a história recente. Entre a promessa de “paz por gerações” e o risco de uma nova rodada de violência, a região atravessa mais uma semana decisiva.
