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Eleições no Peru testam limite entre caos político e fôlego econômico

Os peruanos vão às urnas neste domingo (12) para escolher novo presidente e Congresso em meio a uma economia ainda estável nos números, mas frágil na base política. A disputa, liderada por Rafael López Aliaga e Keiko Fujimori, ocorre após anos de sucessivas crises e oito presidentes em menos de uma década. O resultado pode definir se o país mantém o rótulo de “milagre macroeconômico” ou mergulha de vez na paralisia.

País cresce menos e convive com economia em “modo zumbi”

O Peru entra no dia da votação com um contraste que intriga vizinhos latino-americanos. De um lado, mantém uma das moedas mais estáveis da região, o sol, contas públicas sob controle e inflação relativamente baixa. De outro, convive com uma política em permanente curto-circuito, marcada por escândalos de corrupção, quedas sucessivas de presidentes e protestos que paralisam estradas e investimentos.

A narrativa de sucesso começa no início dos anos 2000, quando reformas duras ajudaram o país a sair de uma crise profunda e pavimentaram duas décadas de expansão. Entre 2000 e 2019, o Produto Interno Bruto (PIB) cresce em torno de 4% ao ano, com picos acima de 10% em alguns exercícios. Esse desempenho reforça a ideia, repetida em reuniões de investidores e fóruns internacionais, de que a economia peruana funciona em “piloto automático”, imune às convulsões políticas.

A fórmula combina abertura comercial, estabilidade de regras básicas para o capital externo e um Banco Central de Reserva do Peru (BCRP) blindado por lei das pressões do governo de turno. Graças à autonomia prevista na Constituição, a diretoria do banco atua com critérios técnicos e se mantém distante das brigas partidárias. O economista Diego Macera, diretor do Instituto Peruano de Economia e membro do próprio BCRP, resume essa percepção ao dizer que a instituição é um dos “fatores fundamentais da estabilidade macroeconômica”.

Esse escudo, porém, mostra rachaduras. O crescimento perde fôlego a partir de 2018, ano da renúncia de Pedro Pablo Kuczynski, o PPK, e início de uma sequência de mandatos encurtados. Se excluídos os anos mais agudos da pandemia de covid-19, o PIB avança em média 2,3% desde 2022, bem abaixo do potencial estimado por analistas. “A economia peruana continua crescendo, mas existe um custo de oportunidades perdidas”, avalia o economista Armando Mendoza, do Centro Peruano de Estudos Sociais. “Se tivéssemos políticas sustentadas, não estaríamos crescendo em 3%. Provavelmente, estaríamos em 5 ou 6%.”

Macera faz conta semelhante ao olhar para o boom recente de ouro e cobre, dois pilares da pauta de exportações do país. Com preços internacionais em alta e a macroestabilidade acumulada, ele sustenta que não há justificativa econômica para um crescimento abaixo de 4,5% ao ano, a não ser a imprevisibilidade política. “Se nossos governos tivessem sido razoavelmente previsíveis e competentes”, afirma, o Peru teria capturado melhor essa janela.

Desigualdade, corrupção e insegurança travam potencial

A desaceleração cobra um preço visível nas ruas. Em 2019, 20% dos peruanos vivem em situação de pobreza. Em 2024, o percentual salta para 27,6%, segundo números oficiais. A renda real dos trabalhadores formais ainda não volta ao patamar pré-pandemia. O país, que por anos exibe dados elogiados por organismos internacionais, enfrenta o drama de crescer menos que o necessário para recuperar empregos e reduzir desigualdades.

O ano de 2023 se converte em símbolo desse esgotamento. A tentativa de golpe do então presidente Pedro Castillo, sua destituição e prisão e a onda de protestos que se espalha pelo território interrompem atividades produtivas e paralisam obras. A economia encolhe 0,55% naquele ano. “Foi um ano em que ficou muito claro que o desajuste político afetou o andamento da economia”, diz Mendoza. Para ele, o país vive hoje com uma “economia em piloto automático, em modo zumbi”, sustentada por instituições técnicas, mas incapaz de responder com vigor às demandas sociais.

A sucessão de presidentes ilustra a instabilidade. Desde 2018, o Peru vê oito ocupantes diferentes na chefia do Executivo. O atual mandatário, José María Balcázar, chega ao posto em fevereiro de 2026, eleito pelo Congresso para substituir José Jerí, derrubado após pouco mais de quatro meses. “Os presidentes, em média, não chegaram a ficar dois anos no cargo”, recorda Macera. A rotatividade se repete no coração da política econômica. “Um ministro da Economia dura hoje, em média, sete ou oito meses”, aponta.

Essa volatilidade torna quase impossível planejar políticas de longo prazo. Grandes projetos de infraestrutura e mineração, que exigem bilhões de dólares e anos de maturação, esbarram na dúvida básica de quem estará à frente dos ministérios ao longo do ciclo do investimento. “Como você pode fazer um planejamento se os ministros e suas equipes mudam a cada poucos meses?”, questiona Macera. Empresas adiam decisões, aguardam sinais mais claros ou deslocam recursos para outros mercados.

No plano político, a percepção de que o Estado é capturado por redes ilícitas agrava o desalento. Pesquisas recentes mostram a corrupção entre as principais preocupações dos eleitores. Mendoza fala em “segmentos significativos do Estado capturados e depredados pelas máfias” e alerta que o fenômeno já ultrapassa a corrupção clássica para se misturar ao crime organizado. O impacto econômico aparece em números como os da mineração ilegal de ouro. Segundo estimativas citadas por Macera, o país registra em 2025 cerca de US$ 11,5 bilhões em exportações ilegais do metal, valor comparável a toda a exportação da agroindústria peruana em 2014.

Nesse ambiente, quem mais perde é a população de baixa renda, que depende de serviços públicos frágeis e de empregos formais escassos. A combinação de crescimento medíocre, informalidade elevada e insegurança alimenta a desconfiança com políticos tradicionais e abre espaço para outsiders e discursos radicais, tanto à esquerda quanto à direita.

Urnas definem rumo do Banco Central e do “piloto automático”

O ciclo eleitoral de 2026 concentra várias decisões estruturais ao mesmo tempo. Além da escolha do presidente entre nomes como o empresário conservador Rafael López Aliaga, ex-prefeito de Lima, e Keiko Fujimori, herdeira de um legado político marcado por violações de direitos humanos, os peruanos renovam o Congresso e autoridades locais e regionais. Prefeitos e governadores também vão a voto, num país onde a rejeição a governantes se acumula pesquisa após pesquisa.

O Banco Central projeta para este ano crescimento de 2,9% do PIB. Se o dado se confirmar, o Peru deve figurar novamente entre as economias que mais avançam na América Latina. O número, porém, vem com asterisco. Boa parte desse desempenho depende de fatores externos, como o preço de minerais e o desfecho da guerra no Oriente Médio, que já pressiona o petróleo e pode arrastar o mundo para uma nova recessão se se prolongar. Internamente, a capacidade do próximo governo de oferecer previsibilidade mínima será determinante para destravar investimentos represados.

Outro ponto sensível em 2026 é a renovação da diretoria do Banco Central. A instituição mantém ampla independência operacional, mas a escolha de seus membros passa pelo novo presidente e pelo novo Congresso. Investidores e economistas se perguntam se haverá acordo político para reconduzir Julio Velarde, no comando há duas décadas e visto como fiador da estabilidade. “O Banco tem grande independência nas suas operações, mas a escolha dos membros da diretoria dependerá do novo presidente e do novo Congresso”, lembra Macera.

A continuidade de Velarde interessa a quem defende manter o “piloto automático” funcionando enquanto a política não se reorganiza. Para outros, o próprio conceito se esgota diante do avanço da pobreza, da insegurança e da deterioração institucional. Um novo governo, qualquer que seja o vencedor, terá de decidir se rompe a lógica de improviso permanente e constrói políticas de Estado capazes de elevar o crescimento e reduzir desigualdades, sem sacrificar a estabilidade conquistada a duras penas.

O Peru chega a este domingo eleitoral com as contas em ordem, reservas robustas e uma moeda respeitada, mas com a paciência social no limite. As urnas dirão se o país consegue transformar a economia “zumbi” em motor de coesão social ou se seguirá apostando que um Banco Central forte basta para segurar um sistema político em frangalhos. A resposta, como quase tudo neste ano decisivo, ainda está em aberto.

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