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Jantar com rival no Amapá irrita Alcolumbre e complica Messias

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, se irrita com Jorge Messias após o indicado de Lula ao STF participar, na quarta-feira, 8, de um jantar com um rival político no Amapá. O encontro ocorre às vésperas da sabatina que pode confirmar o advogado na cadeira de ministro da Corte.

Jantar no Amapá acende alerta no comando do Senado

Jorge Messias desembarca em Macapá para cumprir agendas políticas e jurídicas em meio à contagem regressiva para a sabatina no Senado. À noite, aceita o convite para um jantar organizado por Lucas Barreto, adversário local de Davi Alcolumbre. A escolha do anfitrião, em um momento tão sensível, transforma uma reunião regional em foco de crise em Brasília.

Desde a madrugada de quinta-feira, aliados de Alcolumbre relatam o mesmo clima: irritação aberta com o gesto de Messias. O presidente do Senado, que concentra nas mãos o cronograma da sabatina e o ritmo da indicação, vê o movimento como uma afronta política e uma quebra de delicadeza num processo que depende de costura fina com diferentes grupos partidários.

Um senador resume nos bastidores a dimensão do incômodo. “É como se Renan Calheiros fosse presidente do Senado e, na véspera da confirmação da sabatina, Messias fosse jantar na casa de Arthur Lira”, diz à reportagem. A comparação traduz o recado: em um ambiente de alta sensibilidade institucional, qualquer gesto lido como alinhamento ao lado oposto pesa mais do que um encontro de rotina.

O episódio ocorre a poucos dias de Messias se sentar diante da Comissão de Constituição e Justiça, controlada politicamente por Alcolumbre, para responder a perguntas sobre sua trajetória, decisões e posições públicas. No Senado, a memória recente é de sabatinas tensas e votações apertadas, em que dois ou três votos fazem a diferença entre confirmação confortável e constrangimento público.

Erro político às vésperas da sabatina

Interlocutores próximos ao presidente do Senado atuam ainda na quinta-feira para levar o recado a Messias. O advogado ouve, diretamente, que cometeu um “erro grave” ao aparecer no evento de Lucas Barreto neste momento. O diagnóstico é simples: a foto do convidado de Lula ao Supremo ao lado de um rival de Alcolumbre, na mesma semana em que precisa de votos, fragiliza a confiança construída nos bastidores.

No Senado, o presidente da Casa não é apenas anfitrião protocolar da indicação. É quem pauta a sabatina, define se ela acontecerá em um dia de plenário esvaziado ou cheio, influencia o tempo de exposição do indicado e, sobretudo, atua na contagem de votos. Em processos recentes, como nomeações para cargos de agências reguladoras e tribunais superiores, o aval ou a frieza do comando do Senado altera em poucas horas o humor do plenário.

A irritação de Alcolumbre chega em um momento em que o governo Lula tenta, há meses, estabilizar sua relação com o Congresso. Desde o início de 2023, o Planalto enfrenta derrotas simbólicas na Câmara e vitórias mais apertadas no Senado, com margens de 3 a 5 votos em temas econômicos e de costumes. A confirmação de um ministro do STF, que exige maioria absoluta dos 81 senadores, integra esse tabuleiro em que cada gesto de confiança é contabilizado.

Líderes governistas relatam preocupação com o efeito dominó do episódio. Senadores próximos a Alcolumbre podem aproveitar a irritação do presidente da Casa para elevar o preço do apoio, ampliar a lista de exigências ao Planalto ou simplesmente endurecer o tom na sabatina. Em um ambiente em que a exposição pública é grande e as redes sociais amplificam falas de parlamentares, qualquer ruído na sala da Comissão tem impacto direto na opinião de colegas indecisos.

O jantar no Amapá também reabre uma discussão recorrente sobre a fronteira entre diplomacia política e imprudência. Indicados ao Supremo costumam calibrar ao milímetro suas agendas públicas nos 30 dias que antecedem a sabatina. Evitam encontros ruidosos, fotos que possam ser usadas por adversários e discursos inflamados. A presença de Messias em um evento de um rival declarado do presidente do Senado, a menos de uma semana da sabatina, contraria esse manual não escrito.

Sabotagem da própria indicação e próximos passos

A avaliação entre senadores experientes é que Messias, ao aceitar o convite, arrisca sabotar a própria indicação. A irritação de Alcolumbre não significa, por enquanto, um movimento aberto para barrar o nome. Mas já produz um efeito concreto: aumenta a margem para cobrança política e reduz o espaço para erros na sabatina. Um deslize na resposta sobre temas sensíveis, como decisões do Supremo na Lava Jato ou a relação do tribunal com o governo, ganha mais peso quando parte do plenário está em clima de desconfiança.

No curto prazo, aliados do Planalto tentam esfriar a crise com gestos concretos. A expectativa é de uma agenda discreta em Brasília, encontros reservados com líderes de partidos independentes e uma ofensiva de bastidor para reconstruir a ponte com Alcolumbre. A confirmação da data exata da sabatina, prevista para este mês, se torna agora um termômetro do humor do presidente do Senado: se ele quiser sinalizar distanciamento, pode postergar em alguns dias a votação.

O governo também monitora o impacto público do episódio. Em um cenário de redes sociais polarizadas, a imagem de um indicado ao STF próximo a um grupo político específico costuma gerar campanhas organizadas, tanto de apoio quanto de rejeição. Em indicações anteriores, mobilizações digitais conseguiram pressionar senadores indecisos e forçar o Planalto a reforçar a articulação, inclusive com novos cargos e verbas liberadas em poucos dias.

Nos bastidores, a leitura é que pouco muda para quem já é contrário à indicação de Messias por razões ideológicas ou jurídicas. O jantar com Lucas Barreto, porém, oferece um novo argumento para quem prefere se manter em silêncio e negociar em troca de contrapartidas. Em vez de uma contestação aberta ao currículo do indicado, cresce a narrativa de que falta a ele sensibilidade política para um cargo vitalício no Supremo, com mandato que pode ultrapassar 20 anos.

A crise revela, mais uma vez, como o processo de indicação ao STF se apoia menos em currículos formais e mais em redes de confiança política. A sabatina de Messias acontece em um ambiente em que 41 votos favoráveis garantem sua cadeira, mas 1 jantar mal calculado é suficiente para embaralhar a conta. Nas próximas semanas, a pergunta central em Brasília será se o Planalto consegue transformar o “erro grave” apontado por aliados de Alcolumbre em um episódio isolado ou se o jantar no Amapá se tornará símbolo de uma indicação politicamente enfraquecida.

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