Esportes

Ancelotti reabre disputa e vê Neymar com tempo para ir à Copa

Davide Ancelotti volta a colocar Neymar no centro do debate sobre a seleção brasileira às vésperas da Copa de 2026. Em entrevista ao jornal francês L’Équipe, o técnico afirma que o atacante ainda tem dois meses para provar que pode disputar o Mundial.

Neymar volta ao radar às vésperas do Mundial

As palavras de Ancelotti reacendem a discussão sobre o papel de Neymar na seleção menos de dois meses antes do início da Copa, marcada para 11 de junho, na América do Norte e no México. O italiano elogia o talento do camisa 10, destaca a recuperação após a grave lesão no joelho em outubro de 2023 e admite que o atacante continua nos planos para a lista final.

“Ele é um grande talento, e é normal que as pessoas pensem que pode nos ajudar a vencer a próxima Copa do Mundo”, diz o treinador ao diário francês. A frase contrasta com a ausência recente de Neymar das convocações, inclusive nos amistosos contra França e Croácia, no mês passado, quando o atacante ainda tentava engatar uma sequência de jogos pelo Santos.

O comandante deixa claro que o retorno não é garantido, mas insiste que o tempo ainda joga a favor do jogador de 34 anos. “Ele está sendo avaliado pela Confederação Brasileira de Futebol, por mim, e ainda tem dois meses para mostrar que tem qualidade para disputar a Copa. Após a lesão, fez um bom retorno, está marcando gols. Precisa seguir assim e melhorar a condição física. Está no caminho certo”, afirma.

Neymar não veste a camisa da seleção desde aquele 17 de outubro de 2023, quando rompe o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo e sofre lesões no menisco em partida contra o Uruguai, em Montevidéu, pelas Eliminatórias. O drama interrompe a trajetória do maior artilheiro da história da equipe nacional, com 79 gols, e abre uma longa pausa em sua participação em grandes jogos pelo Brasil.

A volta ao Santos, concretizada em 2025, não devolve de imediato o ritmo que o atacante exibe nos tempos de Barcelona e Paris Saint-Germain. Entre tratamentos, minutos controlados e algumas ausências, Neymar alterna boas atuações com partidas discretas na Vila Belmiro. Mesmo assim, segue como principal referência técnica do elenco alvinegro, agora observado de perto por Ancelotti e sua comissão.

Pressão em campo, pressão nas arquibancadas

O debate sobre a presença de Neymar na Copa ganha força em março, quando a seleção perde por 2 a 1 para a França, em Boston. Nas arquibancadas, torcedores brasileiros entoam o nome do atacante, ausente da lista. Naquela noite, Ancelotti prefere baixar a temperatura. Pede foco nos convocados e evita alimentar o coro por um retorno imediato.

A entrevista ao L’Équipe revela um movimento diferente. Ao reconhecer publicamente que Neymar “está no caminho certo” e tem prazo definido para convencer a comissão, o treinador transforma em disputa aberta o que até então parecia uma porta semi-fechada. Cada gol pelo Santos, cada arrancada sem dor e cada atuação convincente passam a ter peso direto na decisão final.

O cenário também mexe com o vestiário da seleção. Ancelotti trabalha desde o fim de 2023 para montar um ataque menos dependente de um único protagonista, com jovens em ascensão na Europa e no próprio futebol brasileiro. A possível volta de Neymar reconfigura hierarquias, muda combinações ofensivas e obriga a comissão a testar variações táticas em pouco tempo até a estreia, marcada para 13 de junho, contra o Haiti, no New Jersey Stadium, pelo Grupo C, que ainda tem Marrocos e Escócia.

O próprio Santos sente o efeito desse novo foco. O confronto na Vila Belmiro contra o Atlético-MG, que briga pelo G4 do Campeonato Brasileiro, vira termômetro para a evolução física e técnica do camisa 10. A cada rodada, a performance de Neymar deixa de ser apenas assunto de torcedores santistas e volta a pautar o noticiário da seleção.

A pressão recai também sobre o departamento médico e físico do clube, responsável por calibrar a carga de treinos e jogos. Um desgaste mal administrado pode comprometer tanto a reta final do Brasileiro quanto o sonho do jogador de disputar a sexta grande competição por pontos corridos em nível mundial, somando Copas e Olimpíadas.

Risco calculado e expectativa até a convocação final

A declaração de Ancelotti tem efeito prático imediato: reabre a disputa por uma vaga que muitos consideravam perdida. O treinador sinaliza que não pretende levar um Neymar pela metade, sustentado apenas pela força do nome ou por pressão popular, mas admite correr um risco calculado se o atacante comprovar que aguenta a sequência intensa de até sete partidas em pouco mais de um mês.

O histórico recente pesa. Desde a Copa de 2014, no Brasil, Neymar convive com lesões em momentos decisivos. Fica fora do 7 a 1 contra a Alemanha após sofrer fratura na coluna diante da Colômbia, em Fortaleza. Em 2018, chega à Rússia ainda em recuperação de uma cirurgia no pé direito e não consegue repetir o protagonismo esperado. Em 2022, no Catar, torce o tornozelo na estreia contra a Sérvia, perde jogos da fase de grupos e retorna sem a plenitude física que exibiu no ciclo anterior.

Dessa vez, a comissão técnica tenta blindar o planejamento. A avaliação da CBF inclui relatórios detalhados de desempenho, exames periódicos e conversas constantes com o Santos. A ordem é simples: só há vaga se a combinação entre números, olhos da comissão e resposta em campo for convincente. O prazo de dois meses para uma decisão deixa claro que não haverá teste de última hora.

Enquanto a convocação final não sai, prevista para o fim de maio, a seleção segue ajustando o elenco com quem já está em atividade regular. Ancelotti insiste em entrevistas que nomes e currículos não bastam e que o critério principal será o estado atual de cada jogador. A menção elogiosa a Neymar funciona como estímulo, mas também como recado: a porta está aberta, porém o caminho exige desempenho.

O desfecho dessa história passa pela Vila Belmiro, pelos gramados do Brasileiro e pelo limite físico de um jogador que redefine a seleção brasileira na última década. Se Neymar conseguir atravessar os próximos dois meses sem nova lesão e com atuações consistentes, Ancelotti terá diante de si a decisão mais simbólica de sua gestão. Se não conseguir, a Copa de 2026 marcará o primeiro grande torneio mundial da era pós-Neymar, e a pergunta sobre o que a seleção é sem seu maior artilheiro voltará ao centro do debate.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *