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Assalto amador a banco em Guidoval expõe ação de quadrilha local

Um grupo criminoso local assalta uma agência bancária em Guidoval, na Zona da Mata mineira, na madrugada desta sexta-feira (10/4). A ação, marcada por explosões e tiros, revela amadorismo e reacende o debate sobre a criminalidade na região, apesar da queda histórica em ataques a bancos em Minas.

Quadrilha conhecida age de forma desastrada

O relógio marca pouco depois das 3h quando moradores de Guidoval acordam com o estrondo de explosões no centro da cidade de pouco mais de 7 mil habitantes. A cena lembra ataques de grandes facções, mas, segundo a Polícia Militar, o que se vê nas imagens de câmeras de segurança é outra coisa: uma quadrilha local, sem preparo técnico, tentando arrombar uma agência bancária com explosivos e armamento leve.

Os criminosos usam revólveres e pistolas, disparam para o alto e espalham o medo, mas não fazem reféns nem atiram contra civis. Ninguém fica ferido. Na avaliação inicial da PM, apresentada em coletiva na manhã desta sexta-feira, a própria dinâmica do crime indica improviso. “Percebemos, nesse primeiro momento, que se trata de um grupo local, com certo amadorismo na execução do delito”, afirma o porta-voz da corporação, capitão Rafael Veríssimo.

As imagens analisadas pela polícia mostram integrantes do grupo muito próximos ao ponto da detonação, correndo em meio a estilhaços de vidro e fragmentos de concreto. Alguns são atingidos por restos da explosão. “Há imagens que mostram criminosos muito próximos à detonação, inclusive sendo atingidos por estilhaços, o que demonstra falta de preparo técnico”, relata Veríssimo.

A quadrilha, segundo a PM, já é conhecida na Zona da Mata. Os suspeitos aparecem em registros anteriores de roubo, tráfico de drogas e homicídio em municípios vizinhos. “São indivíduos de alta periculosidade, já conhecidos no meio policial, com registros por crimes graves como roubo, tráfico de drogas e homicídio”, afirma o capitão. A suspeita é de que o ataque em Guidoval seja mais um capítulo de uma trajetória de crimes na região.

Sem padrão de facções, mas com impacto local

Os investigadores destacam que o ataque não segue o padrão do chamado “novo cangaço”, expressão usada para definir quadrilhas que atacam cidades pequenas com armamento pesado, fuzis e reféns em massa. “Foram utilizados armamentos de porte pequeno, como revólveres e pistolas. Não identificamos, até o momento, o uso de fuzis ou armamento de alto poder bélico”, explica Veríssimo. Não há, até agora, indícios de ligação com facções de outros estados ou de uma coordenação interestadual.

A ausência de reféns e de feridos, ainda que alivie o saldo imediato, não anula o impacto sobre uma cidade pequena, onde a agência bancária cumpre papel central na rotina econômica. Comerciantes relatam apreensão com a possibilidade de interrupção de serviços, como saques e pagamentos, e com os danos estruturais causados pelas explosões. A quantia levada pelo grupo ainda não é divulgada, e a instituição financeira avalia os prejuízos em conjunto com a perícia.

O episódio também se insere em um cenário mais amplo da segurança pública em Minas Gerais. Ataques a bancos já chegam a cerca de 300 casos anuais no início da década passada, em 2012 e 2013, segundo a PM. Desde 2018, esse número cai para menos de cinco ocorrências por ano. Em 2025, o estado registra apenas dois ataques. “A Polícia Militar vem se preparando ao longo dos anos, com investimento em tecnologia, treinamento e atuação preventiva, inclusive com prisões ainda na fase de planejamento dos crimes”, sustenta Veríssimo.

Mesmo com a redução, cada novo ataque desperta memórias de episódios mais violentos em outras regiões do país, com cidades sitiadas, agências destruídas e moradores usados como escudos humanos. Em Guidoval, o contraste é nítido: uma quadrilha menos estruturada, que se arrisca com explosivos sem domínio da técnica, mas ainda assim ameaça a sensação de segurança de uma população acostumada à rotina pacata.

Resposta policial, investigações e o que está em jogo

Logo após o início do ataque, a malha de proteção descrita pela PM é acionada. Unidades especializadas, aeronaves e equipes de inteligência são mobilizadas para a região da Zona da Mata. A operação envolve policiamento ostensivo nas rodovias de acesso e apoio a municípios vizinhos, numa tentativa de bloquear rotas de fuga e localizar o grupo. “Quando esses ataques ocorrem, a resposta é imediata”, reforça o porta-voz.

As investigações detalhadas ficam a cargo da Polícia Civil, responsável pela perícia na agência e pela identificação de todos os envolvidos. Os peritos trabalham para definir o tipo de explosivo utilizado, o valor exato roubado e a rota da quadrilha antes e depois da ação. A cooperação de moradores é tratada como peça central desse quebra-cabeça. A polícia pede que qualquer movimentação suspeita, desde carros desconhecidos até compras atípicas de combustível ou ferramentas, seja comunicada.

O caso reacende discussões sobre a fragilidade de pequenas cidades diante de grupos locais que conhecem o território, rotas rurais e pontos cegos da fiscalização. Ao mesmo tempo, expõe a própria vulnerabilidade dessas quadrilhas, que se arriscam em ações mal planejadas, com alto potencial de dar errado para os próprios criminosos. O equilíbrio entre presença policial ostensiva, inteligência e proximidade com a comunidade volta ao centro do debate.

A tendência de queda expressiva nos ataques a bancos em Minas é apresentada pelo governo como resultado de uma política de longo prazo, baseada em tecnologia e integração entre forças de segurança. O episódio em Guidoval, porém, lembra que números baixos não significam risco zero, especialmente em regiões onde grupos locais mantêm histórico de violência. A agência bancária será reconstruída, o fluxo financeiro vai se reorganizar, mas a resposta efetiva ao crime dependerá da capacidade do Estado de transformar estatísticas em segurança percebida nas ruas.

Enquanto a Polícia Civil avança na identificação da quadrilha e a PM mantém reforço na Zona da Mata, moradores esperam por um desfecho que vá além das prisões pontuais. A pergunta que fica em Guidoval, nesta sexta-feira, é se a queda nos índices de ataques a bancos será suficiente para conter grupos que insistem em testar os limites do sistema de segurança no interior de Minas.

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