Ciencia e Tecnologia

Chips de medula óssea viajam na Orion para prever saúde de astronautas

Quatro minúsculos chips de medula óssea humana viajam a bordo da Orion com a missão Artemis II, prevista para abril de 2026. Eles funcionam como “avatares” biológicos dos astronautas Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen, simulando em tempo real como o corpo de cada um reage ao espaço profundo.

Avatares em órbita para antecipar doenças

Dentro de um pequeno recipiente triangular preso ao interior da cápsula, quatro dispositivos do tamanho de um pendrive abrigam tecido de medula óssea incubado. São os chamados chips de órgãos, base do experimento AVATAR, sigla em inglês para Resposta Análoga de Tecido de Astronauta Virtual, desenhado para acompanhar como a imunidade dos tripulantes se comporta fora da órbita terrestre baixa.

Cada chip carrega células doadas pelos próprios astronautas da Artemis II, três da NASA e um da Agência Espacial Canadense. Na prática, a Orion leva não apenas quatro humanos, mas também quatro versões miniaturizadas de partes vitais de seus corpos. Os pesquisadores monitoram como esses tecidos reagem à radiação intensa e à microgravidade durante os cerca de dez dias da missão, algo que até agora nunca foi feito em voos para o espaço profundo.

Lisa Carnell, diretora da Divisão de Ciências Biológicas e Físicas da NASA, descreve a mudança de escala na forma de estudar os astronautas. “O método oferece uma visão mais detalhada de onde e quando as mudanças no corpo começam, em comparação com os exames médicos tradicionais”, afirma. “Nunca fizemos isso antes.”

A escolha da medula óssea não é casual. É ali que nascem células de defesa que protegem o organismo contra infecções e câncer. A exposição prolongada à radiação pode desregular esse sistema, aumentar o risco de doenças e comprometer a capacidade de recuperação do corpo. Entender esse processo minuto a minuto, e não só na volta para casa, é o que torna o AVATAR peça central do programa Artemis.

Do laboratório à mala de bordo da Orion

O experimento embarca em um momento em que a exploração espacial deixa de ser visita rápida para virar projeto de moradia. A missão Apollo mantinha astronautas poucos dias na superfície lunar. A NASA agora fala em estadias de 30 dias ou mais e, na década seguinte, em viagens a Marte que podem durar mais de dois anos, contando ida, permanência e retorno.

Carnell resume a filosofia por trás da nova estratégia com um lema interno da agência. “Gostamos de dizer: ‘Saiba antes de ir’. É simples assim”, diz. A ideia é, em um futuro próximo, enviar avatares de astronautas selecionados antes da própria tripulação. Se o chip mostrar sinais precoces de dano ou vulnerabilidade, a equipe em terra adapta o plano de voo, reforça medicamentos ou, em último caso, reavalia quem está apto a enfrentar o espaço profundo.

O objetivo é chegar a kits médicos desenhados sob medida. “Quando enviarmos esses equipamentos junto com Christina, Victor, Reid e Jeremy, cada um deles poderá reagir de forma diferente ao ambiente de radiação do espaço profundo”, explica Carnell. “Alguém pode ser resistente à radiação e aprender algo novo, enquanto outro pode ser extremamente suscetível. Agora podemos personalizar kits médicos para que eles possam viver suas vidas em uma jornada.”

Esses avanços se somam a um arsenal de pesquisas já em curso na Orion. O cientista-chefe de pesquisa humana do Centro Espacial Johnson, Steven Platts, lembra que o espaço representa um conjunto simultâneo de riscos, resumidos no acrônimo RIDGE: radiação, isolamento, distância da Terra, gravidade quase ausente e ambiente hostil, dentro e fora da nave. Em uma cápsula semelhante a uma van de camping, a equipe come, dorme, trabalha e se exercita lado a lado, o que facilita a coleta de dados, mas também amplia o estresse cotidiano.

Para mapear esse impacto, os quatro astronautas usam monitores de pulso que registram sono e atividade física em tempo real. Responden questionários sobre humor em diferentes fases do voo e coletam saliva antes, durante e depois da missão, absorvida em papel especial por falta de refrigeração a bordo. As amostras revelam como a radiação mexe com o sistema imunológico e se vírus dormentes, como o da catapora e do herpes-zóster, voltam à ativa no espaço, algo já observado em longas estadias na Estação Espacial Internacional.

Impacto na medicina espacial e aqui na Terra

A Artemis II é o primeiro voo além da órbita terrestre a integrar o estudo Spaceflight Standard Measures, programa que desde 2018 acompanha a saúde de astronautas em diferentes missões. A tripulação de Wiseman, Glover, Koch e Hansen começa a entregar dados seis meses antes do lançamento, com exames de sangue, urina e saliva, testes de equilíbrio, avaliações musculares, análise de microbioma, visão e saúde cerebral. No espaço, registra desde enjoos até alterações finas de cognição. Na volta, enfrenta uma “pista de obstáculos” com degraus, pesos e manobras para medir como o corpo reencontra a gravidade.

Os resultados alimentam diretamente o planejamento das próximas missões. Se a equipe demora quatro ou cinco dias para recuperar o equilíbrio após a reentrada, por exemplo, engenheiros precisam imaginar como será esse mesmo grupo em uma descida autônoma na Lua, sem navios de resgate por perto. “O ouvido interno é algo complexo, e sabemos que ele é afetado por voos espaciais”, lembra Platts. “Durante esses primeiros dias na superfície lunar, precisamos saber exatamente como eles irão reagir.”

A Orion leva seis sensores fixos de radiação e um monitor portátil para cada astronauta. Os aparelhos disparam alertas caso o Sol libere erupções fortes o bastante para elevar a dose a níveis perigosos. No futuro, chips de órgãos podem funcionar como um complemento biológico desses alarmes: em vez de medir só a radiação ambiente, mostrariam como o tecido de cada astronauta está de fato absorvendo esse impacto.

O conhecimento gerado não fica restrito ao espaço. O comportamento da medula óssea sob radiação e estresse extremo interessa também a oncologistas que tratam pacientes com quimioterapia e radioterapia intensivas, e a imunologistas que estudam falhas do sistema de defesa. A possibilidade de desenvolver medicamentos personalizados para grupos pequenos, como uma tripulação de quatro pessoas, abre caminho para terapias sob medida em doenças raras na Terra.

Lakiesha Hawkins, administradora associada adjunta interina da Diretoria de Missões de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração da NASA, ressalta que esse tipo de dado não existia na época de Apollo. “As experiências sobre saúde humana nos fornecerão dados necessários para que possamos viver na Lua por mais tempo, à medida que desenvolvemos a base lunar, e para que possamos nos preparar para viagens como a ida a Marte”, afirma.

Próximo passo: testar o corpo antes da viagem

A ambição da agência é incorporar avatares biológicos ao roteiro padrão de missões de longa duração. Em vez de apostar apenas em médias estatísticas de voos passados, cada astronauta teria um gêmeo de laboratório enviado com antecedência para a mesma rota, recebendo a mesma carga de radiação, a mesma variação de gravidade e a mesma sequência de dias de confinamento. Se o chip “adoecer” no experimento, os médicos em solo ajustam a estratégia para reduzir o risco no voo real.

O avanço depende de algo mais prosaico: dinheiro, tempo de laboratório e continuidade política em Washington. Os próximos anos vão mostrar se o experimento AVATAR se consolida como ferramenta de rotina ou permanece como demonstração de tecnologia. Enquanto isso, os quatro chips de medula óssea a bordo da Orion inauguram uma nova forma de presença humana no espaço: microscópica, silenciosa, mas decisiva para saber quem poderá ir mais longe — e com que segurança.

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