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Xi Jinping diz que China não tolerará independência de Taiwan

Xi Jinping afirma nesta sexta-feira (10) que a China “absolutamente não tolerará” a independência de Taiwan e acusa a ilha de minar a paz no Estreito. A declaração ocorre em encontro com a líder da oposição taiwanesa, Cheng Li-wun, em Pequim.

Pequim usa encontro político para reforçar linha dura

No Grande Salão do Povo, no coração de Pequim, o presidente chinês recebe a dirigente do Kuomintang (KMT) em clima calculado de cordialidade e pressão. A reunião, apresentada por Cheng como uma “missão de paz”, vira palco para o recado mais direto de Xi desde a posse do presidente taiwanês Lai Ching-te, em maio de 2024, considerado “separatista” por Pequim.

Xi insiste que não há zona cinzenta na disputa. “Os compatriotas de ambos os lados do estreito são todos chineses — pessoas de uma só família que desejam paz, desenvolvimento, intercâmbio e cooperação”, diz, em discurso transmitido por emissoras de Taiwan. Em seguida, endurece o tom. “A independência de Taiwan é a principal culpada por minar a paz no estreito de Taiwan — não vamos tolerar nem compactuar com isso de forma alguma.”

O encontro ocorre em 10 de abril de 2026, em meio a exercícios militares quase diários da China ao redor da ilha e à presença constante de navios de guerra no Estreito de Taiwan, por onde passa cerca de 40% do comércio marítimo global de contêineres. O gesto de receber a líder da oposição taiwanesa, e não o governo eleito em Taipé, expõe a estratégia de Pequim de tentar isolar politicamente o presidente Lai e falar diretamente com forças mais favoráveis a um diálogo sob o rótulo de “uma só China”.

Cheng, que chefia o maior partido de oposição de Taiwan, busca se apresentar como ponte em um momento de tensão crescente. Ela insiste, antes de viajar, que seu objetivo é “reduzir riscos de conflito” e mostrar que ainda existe espaço para conversas bilaterais. Ao sentar diante de Xi no salão monumental, porém, encontra um líder interessado em paz apenas nos termos definidos por Pequim.

Reunificação em foco aumenta pressão sobre Taipé

Xi volta a colocar a “reunificação da pátria” no centro da agenda. Ele afirma que ambos os lados do Estreito pertencem a “uma só China” e exalta a imagem da família harmoniosa. “Quando a família é harmoniosa, todas as coisas prosperam”, declara, repetindo um ditado tradicional para embalar um projeto político que inclui o uso explícito da força, se necessário.

Na mesma fala, o presidente chama o Kuomintang e o Partido Comunista Chinês a “dar as mãos para criar um futuro brilhante de reunificação da pátria e rejuvenescimento nacional”. O convite atinge diretamente a política interna de Taiwan, onde o KMT tenta se diferenciar do governista Partido Progressista Democrático (PPD), mais crítico à China, sem parecer submisso a Pequim diante de um eleitorado majoritariamente desconfiado do regime chinês.

O governo em Taipé reage rápido. Horas após o encontro, o principal responsável pelas relações com a China, Chiu Chui-cheng, fala a jornalistas na capital taiwanesa. Ele afirma que “somente o povo de Taiwan pode decidir seu futuro” e cobra que Pequim dialogue com o governo “democraticamente eleito e legítimo” da ilha, e não apenas com a oposição. A mensagem reforça a linha adotada desde a eleição de Lai: abertura a conversas, mas sem aceitar o princípio de que Taiwan é parte da China continental.

O impasse tem efeitos concretos. Cada declaração dura de Xi costuma ser seguida por novas incursões de aviões militares chineses na zona de identificação de defesa aérea de Taiwan e por manobras navais próximas às águas territoriais da ilha. Nos últimos anos, o número de aeronaves chinesas que cruzam a linha mediana do Estreito aumenta de forma constante, elevando o risco de acidentes e de escaladas não planejadas.

Potências regionais acompanham de perto. Japão, Coreia do Sul e Austrália alinham posições com os Estados Unidos, que mantêm desde 1979 uma política de “ambiguidade estratégica”. Washington não reconhece formalmente Taiwan como país independente, mas fornece armas e apoio político para que a ilha mantenha capacidade de defesa. Uma mudança brusca no status de Taiwan, seja por declaração formal de independência, seja por ação militar da China, teria impacto imediato em cadeias globais de tecnologia e transporte marítimo.

Risco de escalada e disputa de narrativas

O discurso de Xi, ao culpar a “independência de Taiwan” por toda a tensão, tenta deslocar o foco da ampliação do poderio militar chinês na região. Para Pequim, o problema não está nos navios de guerra e caças que cercam a ilha, mas no governo de Taipé, visto como alinhado a um projeto de separação definitiva. A narrativa contrasta com a posição taiwanesa, que destaca a necessidade de manter o atual status de fato, sem declaração formal de independência, mas com instituições democráticas e controle próprio sobre fronteiras, moeda e forças armadas.

Analistas veem na cena desta sexta-feira um duplo movimento. Ao abrir as portas do Grande Salão do Povo para a principal líder da oposição taiwanesa, Xi tenta mostrar que a China não fecha todos os canais de diálogo. Ao mesmo tempo, deixa claro que qualquer conversa deve partir da aceitação prévia do conceito de “uma só China”, ponto que a maior parte da sociedade em Taiwan rejeita, segundo pesquisas recentes, que apontam mais de 60% dos habitantes favoráveis à manutenção do status atual, sem reunificação nem independência formal.

O encontro também lança um sinal para fora da região. Em meio à disputa estratégica com os Estados Unidos e aliados, a China testa até onde pode ir no discurso duro sem provocar uma reação imediata. Governos europeus e asiáticos, atentos à dependência de semicondutores produzidos em Taiwan e às rotas marítimas que cruzam o estreito, veem na escalada de palavras um possível prenúncio de nova rodada de exercícios militares de larga escala, como os realizados em 2022 e 2023 após visitas de autoridades estrangeiras à ilha.

Nos próximos meses, a atenção se volta a dois eixos. Em Taipé, o governo de Lai precisa administrar a pressão interna e externa sem dar pretexto a Pequim para ampliar a campanha militar e diplomática. Em Pequim, Xi mede o custo de manter o tom de confronto num cenário de crescimento econômico mais fraco e de competição tecnológica com o Ocidente.

A frase central desta sexta-feira — “não vamos tolerar a independência de Taiwan” — permanece como linha vermelha clara. A dúvida, para a região e para o mundo, é até onde a China está disposta a ir para tentar impor, na prática, a “reunificação pacífica” que o presidente diz buscar.

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