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Apoio de MDB, PSD e oposição pavimenta ida de Jorge Messias ao STF

Com a sabatina marcada para abril de 2026, o advogado-geral da União, Jorge Messias, chega ao Senado com uma base robusta de apoio para o Supremo Tribunal Federal. MDB, PSD e Republicanos sinalizam votos favoráveis, enquanto lideranças da oposição reduzem resistências e reforçam a expectativa de aprovação.

Bastidores de uma indicação cercada por apoios cruzados

No corredor que leva à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a disputa não é mais pelo resultado, mas pela margem de conforto. Aliados de Messias trabalham para transformar a sabatina em rito de confirmação, não de teste. O cálculo é simples: são necessários 41 votos no plenário para que a indicação de Lula seja chancelada. O mapeamento interno indica que esse número já está ao alcance, e a articulação agora mira um placar que deixe pouca dúvida sobre a força política do novo ministro.

A virada acontece quando três grandes bancadas da Casa – MDB, PSD e Republicanos – sinalizam de forma coordenada que votarão a favor do advogado-geral da União. Juntas, essas siglas reúnem dezenas de senadores e costumam ocupar o centro real do poder no Congresso, alternando apoio e pressão sobre qualquer governo. O aceno funciona como uma espécie de certificado de viabilidade, que desencoraja movimentos de obstrução e esvazia resistências difusas.

O movimento ganha peso extra porque não se limita à base do Planalto. Em um cenário marcado pela polarização desde 2018, o apoio público de figuras ligadas ao bolsonarismo redesenha o enquadramento político da indicação. Em vez de um confronto direto entre governo e oposição, o Senado passa a discutir o perfil do indicado e o impacto de sua chegada ao Supremo, numa chave mais institucional do que ideológica.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, simboliza essa inflexão. Ele declara abertamente que votará a favor de Messias, mesmo lamentando que a indicação não tenha partido do ex-presidente. “Eu gostaria que quem estivesse fazendo essa indicação fosse o presidente Bolsonaro, mas o povo escolheu que fosse o presidente Lula, fez a indicação, nós temos que respeitar. É uma decisão pessoal de cada senador. Eu mesmo apoio, porque eu conheço sua história”, afirma, ao vincular o apoio à trajetória do advogado e à sua ligação com o Piauí.

Outro gesto vem de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, partido que abriga a principal oposição ao governo Lula. Ele reconhece que parte da bancada resiste ao nome, mas projeta um desfecho sem sobressaltos. “Eles têm maioria. Aprova. Pode escrever. Aprova. Eles não têm o que falar do Messias”, diz, ao classificá-lo como “camarada de bem”. Na prática, Valdemar indica que, mesmo num clima de tensão permanente entre Planalto e bolsonarismo, a indicação ao STF encontra um corredor de entendimento.

No próprio Supremo, a movimentação também é observada. O ministro André Mendonça, indicado por Bolsonaro em 2021, envia um recado público durante evento na Assembleia Legislativa de São Paulo. Em tom amistoso, deseja que Messias deixe a chefia da Advocacia-Geral da União por “um bom motivo”. “Eu faço votos de que em breve você possa deixar a AGU por um bom motivo de estar comigo no STF”, afirma, ao antecipar, em voz alta, um cenário que o Senado ainda precisa confirmar.

Reforço à base de Lula e impacto na correlação de forças do STF

A eventual aprovação de Jorge Messias consolida mais um nome alinhado ao campo político de Lula na Corte. Desde o início do terceiro mandato, o presidente aproveita aposentadorias e vagas abertas para redesenhar, pouco a pouco, o perfil do tribunal. A chegada de um novo ministro em 2026 ocorre num momento em que o STF acumula decisões de grande impacto social e econômico, que vão de questões fiscais a direitos fundamentais.

O governo vê a indicação como uma forma de reforçar sua segurança jurídica em temas sensíveis, que incluem políticas de combate à desigualdade, programas sociais e disputas federativas com estados e municípios. Um ministro próximo ao Planalto não garante vitórias automáticas, mas tende a reduzir incertezas e a oferecer maior previsibilidade às teses defendidas pela União em ações de grande porte.

No outro lado, setores da oposição e do mercado jurídico observam com atenção o efeito prático dessa composição. Um STF mais permeado por indicados de Lula pode ser interpretado como desequilíbrio político, sobretudo após anos em que a Corte assume protagonismo em embates com o Executivo e o Congresso. Em votações apertadas, um voto pode alterar o entendimento sobre temas como financiamento de campanhas, regras fiscais ou o alcance de operações de combate à corrupção.

O desfecho da sabatina também mexe com a dinâmica interna do Senado. Ao apoiar Messias, MDB, PSD e Republicanos reforçam a posição de fiadores da governabilidade, papel que historicamente ocupam em troca de espaço político e influência em decisões estratégicas. A aprovação com margem folgada tende a ser lida como uma vitória da articulação do Planalto, mas também como uma demonstração de que o centro do Senado ainda comanda o fluxo das grandes votações.

No campo jurídico, a trajetória de Messias – que passa pela Advocacia-Geral da União e por funções técnicas no governo – alimenta o discurso de que sua indicação se ancora em experiência institucional, não apenas em proximidade política. Esse argumento é repetido por apoiadores para rebater críticas sobre possível alinhamento automático ao governo. A aposta é que, uma vez na Corte, o novo ministro atue com margem de independência suficiente para preservar a imagem do tribunal.

Reta final da articulação e as perguntas em aberto

Até a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, marcada para abril de 2026 em data ainda a ser definida no calendário oficial, o foco da articulação é aparar arestas pontuais e evitar surpresas. Aliados trabalham para garantir quórum elevado, reduzir ausências estratégicas e impedir que a indicação vire palco de disputas paralelas, como vinganças internas ou recados a outros poderes. A expectativa é de votação no mesmo dia, primeiro na comissão e depois no plenário.

Nos bastidores, emissários do governo intensificam conversas com senadores independentes e com alas mais resistentes do PL e do PP. A avaliação é que, mesmo com os votos já contabilizados para a aprovação, um placar apertado fragilizaria o início da trajetória de Messias no STF e alimentaria narrativas de questionamento político à sua presença na Corte. Uma diferença confortável de votos, por outro lado, funcionaria como uma espécie de blindagem inicial.

O cenário que se desenha, com apoios expressivos de MDB, PSD, Republicanos e lideranças de oposição, tende a fortalecer a base de Lula no Supremo e a influenciar decisões futuras em áreas-chave da vida nacional. O tribunal seguirá sob pressão, cobrado a arbitrar conflitos em temas como orçamento, meio ambiente, segurança pública e processos ligados à Lava Jato e ao bolsonarismo.

Quando Messias sentar na cadeira de ministro, se o Senado confirmar a indicação, o equilíbrio interno do STF mudará mais uma vez. A dúvida que permanece é em que medida a construção política que pavimenta sua chegada se refletirá em sua atuação na Corte: o apoio amplo que hoje facilita a aprovação também cobrará, no futuro, demonstrações práticas de independência.

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