Assalto com explosão em banco de Guidoval expõe ação de grupo local
Um grupo criminoso local explode uma agência bancária em Guidoval, na Zona da Mata de Minas, na madrugada desta sexta (10). A ação, marcada por amadorismo e uso de armas leves, fere os próprios assaltantes com estilhaços e acende o alerta para a atuação de bandos regionais.
Explosão na madrugada e bando já conhecido na região
O assalto acontece por volta das 3h, no centro de Guidoval, município de pouco mais de 7 mil habitantes. Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que os criminosos se aproximam da agência, instalam os explosivos e permanecem próximos demais da área de detonação. Quando a carga é acionada, pedaços de metal e concreto atingem integrantes do próprio grupo.
A Polícia Militar de Minas Gerais identifica rapidamente um padrão distinto dos ataques conhecidos como “novo cangaço”, que costumam envolver fuzis, carros blindados e reféns. Segundo o porta-voz da corporação, capitão Rafael Veríssimo, a quadrilha age com pouca técnica e estrutura limitada. “Percebemos, nesse primeiro momento, que se trata de um grupo local, com certo amadorismo na execução do delito”, afirma.
Os assaltantes utilizam apenas revólveres e pistolas. Não há registro de fuzis ou explosivos de grande alcance, comuns em ataques cinematográficos a bancos no interior do país. “Foram utilizados armamentos de porte pequeno, como revólveres e pistolas. Não identificamos, até o momento, o uso de fuzis ou armamento de alto poder bélico”, explica Veríssimo.
A própria forma como a explosão é conduzida reforça a avaliação da polícia. “Há imagens que mostram criminosos muito próximos à detonação, inclusive sendo atingidos por estilhaços, o que demonstra falta de preparo técnico”, diz o capitão. Mesmo com o erro grosseiro, nenhum morador é ferido e não há uso de reféns, um dado que, para a PM, diferencia o episódio de ataques mais violentos registrados em outros estados.
Quadrilha de alta periculosidade, mas sem facção interestadual
A investigação aponta para um grupo já conhecido das forças de segurança da Zona da Mata. Os suspeitos têm histórico de crimes graves na região, como roubos em áreas rurais, tráfico de drogas e homicídios. A motivação financeira é considerada a principal hipótese, em uma atuação restrita ao entorno de Guidoval e municípios vizinhos.
Apesar da gravidade, a PM descarta, até agora, qualquer vínculo com facções de outros estados. “As informações iniciais não apontam qualquer articulação interestadual ou ordem de facção. Trata-se de indivíduos que já atuavam na região”, afirma Veríssimo. A ausência de uma estrutura sofisticada, de logística complexa e de armamento pesado reforça essa leitura interna.
A corporação destaca que o cenário atual em Minas é bem diferente do registrado há pouco mais de uma década. Entre 2012 e 2013, o estado soma cerca de 300 ataques a instituições financeiras por ano. A partir de 2018, o número cai para menos de cinco ocorrências anuais. Em 2025, apenas dois casos são registrados, segundo dados apresentados pelo porta-voz.
Veríssimo credita a queda à combinação de inteligência policial, integração entre forças de segurança e treinamento específico da tropa para esse tipo de crime. “A Polícia Militar vem se preparando ao longo dos anos, com investimento em tecnologia, treinamento e atuação preventiva, inclusive com prisões ainda na fase de planejamento dos crimes”, afirma.
Quando ataques conseguem ser executados, a reação é quase automática. “A instituição ativa sua malha protetora, mobilizando unidades especializadas, aeronaves, inteligência e policiamento ostensivo para garantir uma resposta rápida e eficiente”, diz o capitão, ao comentar a operação montada após o ataque em Guidoval.
Impacto na segurança local e pressão sobre grupos regionais
O episódio expõe um tipo de ameaça que persiste mesmo em um cenário de queda geral nos ataques a bancos. Grupos locais, sem conexão formal com facções interestaduais, seguem dispostos a arriscar explosões e confrontos em troca de dinheiro rápido. A diferença é que, em casos como o de Guidoval, a falta de preparo técnico aumenta o risco para os próprios criminosos e, potencialmente, para moradores que venham a cruzar o caminho dessas ações.
Ainda não há confirmação sobre o valor levado da agência ou mesmo se os assaltantes conseguem acessar o cofre principal após a explosão. Essa apuração cabe à Polícia Civil, que conduz a perícia no prédio e ouve testemunhas para reconstruir, minuto a minuto, o trajeto da quadrilha pela cidade. O banco deve detalhar, nos próximos dias, o alcance dos danos ao patrimônio e o impacto no atendimento à população.
Em cidades pequenas da Zona da Mata, a agência bancária muitas vezes concentra boa parte das operações financeiras do comércio local, do pagamento de aposentadorias e do fluxo de serviços públicos. Quando uma unidade é alvo de explosão, o prejuízo ultrapassa as paredes destruídas e atinge o dia a dia de moradores e pequenos empresários, dependentes de saques em espécie e de atendimento presencial.
A ação em Guidoval também recoloca no centro do debate a necessidade de proteção constante em agências do interior, mesmo em um cenário de queda estatística. O risco é que, na ausência de grandes organizações criminosas, grupos amadores tentem ocupar esse espaço com ataques menos sofisticados, porém ainda perigosos. A avaliação de investigadores ouvidos reservadamente é que esses bandos locais testam, na prática, os limites da resposta policial.
Investigações em curso e desafio de manter a curva de queda
As investigações ficam sob responsabilidade da Polícia Civil, que analisa imagens de câmeras públicas e privadas, rastreia veículos usados na fuga e cruza dados com ocorrências anteriores na região. A expectativa é que parte dos envolvidos seja identificada a partir de registros criminais já existentes, uma vez que a PM descreve o grupo como “conhecido no meio policial”.
Os próximos dias devem trazer respostas sobre o valor eventualmente subtraído, o destino dos criminosos feridos na explosão e possíveis conexões com outros roubos recentes na Zona da Mata. A pressão institucional recai agora sobre a capacidade de desarticular o bando antes que ele tente novas investidas, seja contra bancos, seja contra propriedades rurais, onde já há histórico de violência.
Minas Gerais chega a 2026 com uma trajetória de redução forte nos ataques a instituições financeiras, mas episódios como o de Guidoval mostram que o problema não está resolvido. A eficácia da estratégia baseada em inteligência e resposta rápida será testada pela capacidade de antecipar, mapear e prender grupos regionais que operam longe dos grandes centros. Resta saber se a queda no número de casos se manterá diante de criminosos dispostos a arriscar tudo, mesmo sem a estrutura de uma facção nacional.
