Xi diz que China não tolerará independência de Taiwan
O presidente Xi Jinping afirma nesta sexta-feira (10) que a China não tolerará a independência de Taiwan e responsabiliza a ilha por ameaçar a paz regional. A declaração ocorre em reunião em Pequim com Cheng Li-wun, líder da oposição taiwanesa, e reforça a estratégia chinesa de pressionar Taipé enquanto ignora o governo eleito da ilha.
Pequim endurece o discurso e aposta na oposição taiwanesa
No Grande Salão do Povo, em Pequim, Xi recebe Cheng Li-wun, presidente do Kuomintang (KMT), maior partido de oposição de Taiwan, em uma visita descrita por ela como “missão de paz”. A viagem acontece em meio à intensificação das manobras militares chinesas em torno da ilha, com exercícios navais e sobrevoos de caças que se tornam quase diários ao longo de 2025 e se mantêm em 2026. O encontro desta sexta-feira, 10 de abril de 2026, projeta essa pressão para o campo político e tenta criar a imagem de que o diálogo é possível, desde que ocorra nos termos de Pequim.
Xi fala diretamente ao público dos dois lados do estreito ao afirmar que “os compatriotas de ambos os lados do estreito são todos chineses — pessoas de uma só família que desejam paz, desenvolvimento, intercâmbio e cooperação”. As declarações são transmitidas por televisões de Taiwan em tempo quase real, o que amplia o peso simbólico da cena: o líder chinês sentado com a chefe da oposição, e não com o presidente eleito da ilha, Lai Ching-te, empossado em 2024. Ao insistir que “ambos os lados do estreito pertencem a uma só China”, Xi retoma o eixo central da política chinesa para Taiwan desde a década de 1970, mas em um contexto de desconfiança crescente e de apoio externo maior a Taipé, sobretudo dos Estados Unidos e de aliados asiáticos.
Disputa de narrativas em meio à pressão militar
Ao longo da reunião, Xi descreve a busca pela independência formal da ilha como o principal fator de risco para a estabilidade regional. “A independência de Taiwan é a principal culpada por minar a paz no estreito de Taiwan — não vamos tolerar nem compactuar com isso de forma alguma”, afirma. O recado mira tanto partidos pró-independência em Taipé quanto governos estrangeiros que reforçam laços militares e econômicos com a ilha de 23 milhões de habitantes, responsável por mais de 60% da produção global de chips avançados usados em celulares, carros e equipamentos militares.
Xi também coloca a “reunificação” no centro de sua visão de longo prazo para o país. O presidente diz que o Partido Comunista da China e o KMT precisam “dar as mãos para criar um futuro brilhante de reunificação da pátria e rejuvenescimento nacional”. O discurso repete o conceito de “rejuvenescimento” que Xi vincula a metas estratégicas para 2035 e 2049, centenário da fundação da República Popular. Na prática, ele reforça que não abandona o objetivo de incorporar Taiwan, ainda que evite falar em prazo ou em uso direto da força.
Em Taipé, a resposta oficial segue outra linha. Chiu Chui-cheng, principal formulador de políticas de Taiwan para a China, fala à imprensa na noite desta sexta-feira e afirma que “somente o povo de Taiwan pode decidir seu futuro”. Ele cobra que Pequim se disponha a falar com o governo “democraticamente eleito e legítimo” de Lai Ching-te, que a China classifica como “separatista”. O contraste entre as duas falas expõe a disputa central: de um lado, a China insiste na narrativa de família dividida e na ideia de “uma só China”; do outro, o governo taiwanês se apresenta como Estado soberano, com Constituição própria e sistema democrático consolidado desde o fim da lei marcial, em 1987.
Impacto regional e risco de novo foco de crise
A fala de Xi ocorre em um momento em que o estreito de Taiwan se firma como um dos pontos mais sensíveis do tabuleiro geopolítico do Indo-Pacífico. Os Estados Unidos mantêm um compromisso de fato com a defesa da ilha desde 1979, por meio da Lei de Relações com Taiwan, que prevê a venda de armas e a manutenção da capacidade defensiva de Taipé. Navios de guerra americanos e aliados cruzam o estreito com frequência para sinalizar que consideram a rota um corredor internacional. Pequim reage com exercícios militares, anúncios de sanções e novas zonas de restrição aérea, em uma escalada lenta, mas constante.
A reafirmação, nesta sexta, de que a China “absolutamente não tolerará” a independência tende a acender alertas em capitais de toda a região. Países do Sudeste Asiático já lidam com disputas territoriais com a China no Mar do Sul. O Japão, a menos de 200 km de Taiwan em alguns pontos, reforça gastos militares e prevê elevação gradual do orçamento de defesa para 2% do PIB até 2027, em parte para lidar com um eventual conflito no estreito. Para investidores globais, cada frase de endurecimento sobre Taiwan funciona como lembrete do risco de ruptura em uma rota por onde passam, segundo estimativas de analistas, mais de US$ 3 trilhões em comércio por ano.
Dentro de Taiwan, o movimento de Pequim de privilegiar a interlocução com a oposição tem efeito político imediato. O KMT tenta se apresentar como ponte capaz de reduzir tensões e preservar os laços econômicos com o continente, que responde por cerca de 30% das exportações taiwanesas em alguns anos. O governo Lai, por sua vez, explora o encontro como prova de que Pequim tenta contornar as instituições democráticas da ilha e interferir na política interna. O resultado provável é a ampliação da polarização entre eleitores que apostam em uma aproximação pragmática com a China e aqueles que defendem o distanciamento gradual, mesmo com custos econômicos.
Próximos movimentos e incertezas no estreito de Taiwan
Pequim deve usar as imagens do encontro no Grande Salão do Povo como argumento de que está aberta ao diálogo, desde que Taipei aceite o chamado princípio de “uma só China”. Em paralelo, autoridades chinesas tendem a manter ou ampliar as patrulhas militares em torno da ilha, um padrão que ganha força após visitas de alto nível dos EUA a Taipé nos últimos anos. No campo diplomático, a China segue pressionando os poucos países que ainda reconhecem formalmente Taiwan — hoje pouco mais de uma dezena, contra mais de 20 no início dos anos 2000 — a trocar de lado.
Em Taipé, a prioridade de curto prazo é conter a percepção de isolamento e reforçar a mensagem de que qualquer acordo sobre o futuro da ilha depende da vontade de seus 23 milhões de habitantes. O governo tenta diversificar mercados, atrair novos investimentos em tecnologia e estreitar laços de defesa com Washington, Tóquio e parceiros europeus. Resta em aberto até que ponto a retórica de Xi se traduz em mudanças concretas na postura militar chinesa, e se a pressão crescente levará a uma negociação política ou a uma nova crise no estreito mais vigiado do mundo.
