Argentina isola-se em cúpula do Zopacas ao rejeitar texto sobre racismo
A Argentina se afasta da maioria dos países do Atlântico Sul ao rejeitar, em 9 de abril de 2026, um trecho da declaração final da 9ª Reunião Ministerial do Zopacas sobre combate ao racismo e consequências da escravidão. O governo de Javier Milei registra a discordância em uma nota de rodapé, enquanto Brasil e outros membros endossam o compromisso. O gesto reforça a guinada da diplomacia argentina contra agendas multilaterais de direitos humanos.
Milei isola Buenos Aires em fórum do Atlântico Sul
No encontro realizado no Rio de Janeiro, o Zopacas aprova por ampla maioria um texto que reconhece o peso histórico da rota transatlântica no tráfico de pessoas escravizadas e convoca os países a ampliar esforços contra o racismo. A Argentina apoia o restante da declaração, mas se recusa a acompanhar a formulação sobre as consequências da escravidão, um dos trechos politicamente mais simbólicos do documento. A dissociação vem em forma de nota de rodapé, estratégia cada vez mais frequente na atuação externa do governo Milei.
O parágrafo rejeitado cita iniciativas multilaterais, entre elas a resolução da Assembleia Geral da ONU que classifica a escravidão como o mais grave crime contra a humanidade. Na votação que aprovou esse texto em Nova York, no fim de março, 123 países votam a favor, 52 se abstêm e apenas 3 rejeitam o documento: Estados Unidos, Israel e Argentina. O alinhamento com Washington e Tel Aviv, em um tema sensível como o legado da escravidão, reforça a identidade ideológica do atual governo argentino e cria constrangimentos entre pares latino-americanos e africanos.
Zopacas volta à cena em meio à tensão diplomática
O episódio ocorre no momento em que o Brasil tenta revitalizar o Zopacas como vitrine de sua política para o Atlântico Sul. Criado em 1986, o fórum reúne países sul-americanos banhados pelo Atlântico e nações da costa oeste africana, como Nigéria, Angola e África do Sul. A primeira reunião ministerial acontece no Rio, em 1988, mas o grupo entra em hibernação por quase dez anos, até ser reativado em 2023, já sob o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. O governo brasileiro aposta no mecanismo para reforçar a cooperação militar, o combate à pirataria e a defesa de uma região livre de guerra.
Dentro desse esforço, a dimensão histórica e racial ganha centralidade. O texto final da 9ª reunião afirma que os países se comprometem a “cooperar na tarefa essencial de enfrentar as persistentes mazelas decorrentes da escravidão” e a “ampliar os esforços de combate ao racismo e de promoção da igualdade racial”. Para chanceleres africanos, a inclusão explícita do legado do tráfico transatlântico é um passo simbólico na direção de reparações históricas e de políticas de inclusão. A decisão de Buenos Aires de se afastar justamente desse trecho gera desconforto em delegações que veem a Argentina como parte da mesma história atlântica marcada pela escravidão.
Na nota de rodapé, o governo Milei tenta delimitar o alcance da discordância. “A República Argentina reafirma seu compromisso com a luta contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e intolerâncias correlatas, assim como com a promoção da igualdade e da dignidade humana de todos os seres humanos”, registra o texto. Em seguida, porém, o país afirma que “dissocia-se das referências a certas iniciativas e documentos mencionados no parágrafo 22, que não refletem necessariamente entendimentos atuais ou compromissos universalmente assumidos”. O alvo são justamente as resoluções multilaterais que o governo considera expressão de uma agenda “ideológica”.
Diplomacia da nota de rodapé e impacto na imagem argentina
A recusa não é um caso isolado. Em janeiro de 2025, na cúpula da Celac, a Argentina já provoca ruído ao contestar a declaração final, que exige consenso dos 33 países-membros. O documento condena medidas restritivas ao comércio internacional, referência direta ao tarifaço do ex-presidente americano Donald Trump, aliado político de Milei, e aponta a igualdade de gênero como prioridade da presidência pro tempore da Colômbia. O texto só sai com a ressalva de que foi “contestado” por Argentina, Nicarágua e Paraguai, cada um por motivos próprios.
Meses antes, em 2024, a posição dura de Buenos Aires trava a negociação da declaração final do Mercosul com Estados associados. A chancelaria argentina veta menções à Agenda 2030 da ONU, que estabelece metas globais de desenvolvimento sustentável, e a compromissos amplos em temas de gênero. Sem acordo, o comunicado conjunto deixa de ser publicado, algo raro em uma organização regional que historicamente busca mostrar unidade, mesmo em meio a divergências. No G20 de novembro de 2024, a Argentina volta a resistir a um trecho que reafirma o compromisso de “acabar com a violência de gênero” e de “combater a misoginia online e offline”. Depois de pressão dos parceiros, o governo recua e endossa a declaração.
O padrão consolidado desde 2023 é o de uma diplomacia que aceita discutir comércio e finanças, mas rejeita referências consideradas extensas a direitos humanos, igualdade de gênero, meio ambiente ou combate ao racismo. No caso do Zopacas, essa estratégia tem custo específico. O fórum constrói sua legitimidade justamente sobre a memória comum do tráfico de pessoas escravizadas entre África e Américas e sobre a promessa de evitar novas formas de exploração. Ao se dissociar do parágrafo que trata das “mazelas decorrentes da escravidão”, a Argentina se coloca à margem de um consenso que inclui parceiros estratégicos da região e, ao mesmo tempo, se aproxima de uma minoria global cética em relação a esses compromissos.
Risco de isolamento e dúvidas sobre o papel do Zopacas
Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que o movimento argentino pode complicar futuras negociações em fóruns onde o país precisa de apoio para temas econômicos, como renegociação de dívidas e atração de investimentos. Em uma região marcada por desigualdades raciais profundas, sinalizar distância de agendas de igualdade pode pesar na percepção pública e entre governos africanos, para quem o combate ao racismo e a discussão sobre reparações permanecem prioridades. A insistência em registrar notas de rodapé também reforça a imagem de um ator que participa das mesas, mas evita compromissos substantivos em direitos humanos.
Para o Zopacas, o episódio funciona como teste de maturidade. O grupo busca se afirmar como espaço de cooperação em segurança marítima, defesa e desenvolvimento, mas agora precisa mostrar se consegue acomodar divergências ideológicas sem esvaziar o conteúdo político de suas declarações. A declaração final aprovada no Rio de Janeiro reafirma a vontade de manter o Atlântico Sul livre de armas nucleares, combater a pirataria e intensificar o intercâmbio militar, pontos nos quais a Argentina não apresenta objeções. A fratura aparece justamente onde o fórum tenta avançar para além da agenda tradicional de segurança, aproximando-se de debates sobre memória histórica e justiça racial.
As próximas reuniões ministeriais e eventuais cúpulas de chefes de Estado vão indicar se o gesto argentino permanece um ponto fora da curva ou se inaugura uma etapa de impasses recorrentes em temas sociais. O governo Milei dá sinais de que não pretende recuar facilmente de sua linha ultraliberal e de seu ceticismo em relação a organismos multilaterais. O desafio, para os demais países do Atlântico Sul e da África ocidental, é medir quanto estão dispostos a flexibilizar formulações em direitos humanos para manter todos à mesa e até que ponto vale pagar esse preço para preservar um fórum que nasceu, em 1986, justamente sob a promessa de enfrentar heranças do passado comum.
