Eleição na Hungria testa força da ultradireita e preocupa Planalto
O governo Luiz Inácio Lula da Silva acompanha com atenção a eleição parlamentar na Hungria, neste domingo (12/4), que pode tirar Viktor Orbán do poder após 16 anos. Em Brasília, o pleito é tratado como um termômetro da extrema-direita global e um ensaio da capacidade de influência dos Estados Unidos em disputas estrangeiras, às vésperas da eleição presidencial brasileira de outubro de 2026.
Budapeste em disputa, Brasília em alerta
Orbán governa a Hungria desde 2010 e se torna referência para a direita nacionalista na Europa e fora dela. Ele coleciona apoios de peso: é elogiado publicamente pelo presidente americano Donald Trump e é chamado de “irmão” por Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão e hoje em regime de prisão domiciliar temporária.
Pesquisas recentes indicam, porém, um cenário inédito de fragilidade. O partido de oposição Tisza e seu líder, Peter Magyar, aparecem com cerca de 58% das intenções de voto, contra 35% do Fidesz, legenda de Orbán. Uma derrota do primeiro-ministro, antes considerado quase imbatível, teria efeito imediato no tabuleiro da extrema-direita europeia e nas conexões que ela mantém com aliados na América Latina.
No Planalto, auxiliares de Lula descrevem a eleição como um “teste triplo”. A avaliação envolve a resistência da extrema-direita europeia após 16 anos de domínio de Orbán, o grau de articulação de uma “internacional” ultradireitista que conecta Budapeste, Washington, Brasília e Moscou, e o alcance da interferência americana em pleitos externos sob Trump. Um assessor resume, em caráter reservado, a expectativa: o que ocorrer em Budapeste pode dar pistas sobre os limites de Washington nas urnas brasileiras.
A presença do vice-presidente dos EUA, JD Vance, em Budapeste nesta semana cristaliza essa leitura em Brasília. Ele participa de um comício em apoio a Orbán, num gesto raro de engajamento direto. Em ligação telefônica transmitida ao público, Trump reforça a aposta: “Eu amo a Hungria e amo Viktor. Eu digo a vocês que ele é um homem fantástico. Sou um grande fã de Viktor e estou com ele até o fim”. Para um auxiliar de Lula, a ida de Vance está longe de ser “ato protocolar” e revela a preocupação da Casa Branca com a sobrevivência de um aliado central na Europa.
Orbán constrói sua imagem como adversário declarado da União Europeia e defensor de uma soberania rígida, marcada por políticas duras contra a imigração, reformas no Judiciário e discursos contra o que chama de “interferência de Bruxelas”. Em 2025, a Human Rights Watch acusa seu governo de promover um “ataque” às instituições democráticas, incluindo a imprensa, e critica o uso recorrente de decretos para contornar decisões judiciais e restringir o direito de greve de professores. O premiê reage dizendo atuar como “guerreiro da liberdade” em defesa de seu povo.
Ecos em Bolsonaro, ultradireita e eleições de 2026
A cena húngara repercute diretamente no Brasil. Em gabinetes do governo, uma eventual derrota de Orbán é lida como revés simbólico para Jair Bolsonaro, que ainda é visto como a principal liderança da direita brasileira, mesmo após a condenação por tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito. O ex-presidente mantém influência sobre o eleitorado conservador e serve de referência para o pré-candidato da direita, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A proximidade entre Bolsonaro e Orbán vai além de afinidades ideológicas. Em 2022, o então presidente brasileiro visita Budapeste, troca elogios com o premiê e o chama de “irmão”. Em 2024, em meio ao cerco da Polícia Federal, Bolsonaro passa duas noites na Embaixada da Hungria em Brasília. A revelação, feita pelo jornal The New York Times, é depois citada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, como indício de possível tentativa de buscar asilo para fugir de uma eventual ordem de prisão.
A defesa de Bolsonaro nega qualquer plano de fuga. Em documento enviado ao Supremo, afirma que não há “razões mínimas” para supor tentativa de asilo ou intenção de se evadir das autoridades. A controvérsia, porém, reforça a percepção de laços políticos e pessoais sólidos entre o ex-presidente e o governo húngaro. Em 2025, já às vésperas do julgamento de Bolsonaro pelo STF, Orbán volta à carga e sai em sua defesa nas redes sociais: “Continue lutando, @jairbolsonaro! Ordens de mordaça, proibições em redes sociais e julgamentos motivados politicamente são ferramentas do medo, não da justiça”.
Ao observar Budapeste, o Planalto olha também para Brasília. Um auxiliar de Lula afirma que o governo não descarta completamente o risco de interferência externa na eleição de outubro. Segundo ele, setores da administração Trump tentam, nos últimos anos, influenciar processos políticos na região, inclusive no Brasil, e mostram disposição em se alinhar a figuras próximas à família Bolsonaro. A aproximação recente entre Lula e Trump, avalia esse interlocutor, teria ajudado a conter as alas mais alinhadas ao bolsonarismo dentro do governo americano.
Flávio Bolsonaro reforça o fio que liga os dois tabuleiros. Em evento nos Estados Unidos, no fim de março, o senador pede “pressão diplomática” sobre o Brasil. “Em vez de a administração Biden interferir em nossas eleições para instalar um socialista que odeia a América, aplicar pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem americana — essa é uma boa mudança de política externa para a região, não é?”, diz o pré-candidato, num recado que ecoa entre diplomatas em Brasília.
Interferência externa, soberania e o que vem pela frente
Nos cálculos do governo Lula, a eleição húngara se encaixa num histórico recente de movimentos americanos em disputas latino-americanas. Em 2025, Trump apoia o candidato de direita Nasry Asfura em Honduras e chega a ameaçar a suspensão de ajuda financeira se ele não vencer a eleição contra a então presidente Xiomara Castro. No ano passado, a Casa Branca dá aval a um empréstimo de US$ 20 bilhões à Argentina na reta final da campanha parlamentar que consolida o poder do presidente Javier Milei. Esses episódios alimentam, no Brasil, a desconfiança de que o governo americano usa instrumentos econômicos e políticos para moldar cenários eleitorais na região.
O núcleo político do Planalto tenta reagir com avisos públicos. Nesta semana, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias, coordenador político da campanha de Lula, afirma que o Brasil “não vai tolerar interferência de ninguém” nas eleições de 2026. Ele ressalta que o país evita se envolver em disputas eleitorais alheias e exige o mesmo respeito: “Podemos até ter simpatia por este ou aquele candidato, mas não nos metemos. O Brasil exige respeito dos outros países porque isso é soberania”.
Uma eventual derrota de Orbán, apontam auxiliares do governo, enfraquece o eixo simbólico que conecta a extrema-direita da Europa Central ao bolsonarismo. Reduz também o prestígio internacional de uma figura que se coloca como referência de resistência às instituições multilaterais e serve de modelo de comunicação e estratégia para líderes alinhados, inclusive no Brasil. Uma vitória, por outro lado, seria lida como fôlego renovado para projetos que desafiam organismos supranacionais e defendem maior intervenção do Executivo sobre Judiciário, mídia e sociedade civil.
O resultado em Budapeste não altera apenas a política europeia. Ele ajuda a redesenhar o mapa de apoios e influências que atravessam o Atlântico e chegam ao Brasil num ano eleitoral decisivo. No Planalto, a contagem de votos na Hungria entra na agenda de monitoramento internacional e serve como barômetro para medir até onde a coordenação entre Trump, Orbán e o entorno bolsonarista pode ir. A pergunta que circula em reservado nos corredores do poder em Brasília é direta: se a Hungria mudar de rumo, quem ficará mais isolado quando chegar a hora de o eleitor brasileiro decidir o futuro do país?
