Seif e Nikolas expõem racha no PL em disputa por veto da dosimetria
O senador Jorge Seif (PL-SC) e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) travam, neste 10 de abril de 2026, um confronto público sobre a articulação do veto à dosimetria. A troca de ataques escancara divergências sobre protagonismo e métodos dentro do PL, em plena negociação no Congresso.
Embate sai do bastidor e vai para as redes
O atrito começa com uma postagem de Seif na rede X, antigo Twitter. O senador afirma que a convocação da sessão do Congresso para analisar o veto ao projeto da dosimetria decorre de articulação silenciosa no Senado, não da pressão nas redes sociais. Na mensagem, ele diz que a mobilização digital “é ótima pra like e monetização”, mas “não é efetiva”.
O recado atinge em cheio Nikolas, hoje um dos principais símbolos da direita nas redes, com milhões de seguidores e forte presença em transmissões ao vivo. O deputado lê o texto como uma tentativa de desmerecer protestos recentes, inclusive a caminhada de cerca de 240 quilômetros entre Paracatu (MG) e Brasília, em janeiro, organizada por bolsonaristas. Na resposta, ele acusa o senador de oportunismo e reage com xingamentos: “Tem que ser muito vagabundo pra vir desmerecer o trabalho das pessoas”.
A discussão deixa as redes e invade grupos de WhatsApp da oposição no Congresso. Irritado com o ataque pessoal, Seif escreve no chat que nunca desrespeitou o colega e desafia o deputado para um confronto presencial. “Homem que é homem chama o outro de vagabundo olho no olho. Não é no grupão. Te aguardo. Pode vir”, registra o senador, em mensagem obtida pela reportagem.
Seif insiste que não busca protagonismo, mas reconhecimento de um trabalho que, segundo ele, se dá longe dos holofotes. “Não só colhi as assinaturas como convenci 32 senadores, um a um, até esquerdistas e centrão”, afirma, ao defender que a inclusão da análise do veto na pauta só ocorre após um acordo costurado com a oposição no Senado e o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP).
Disputa por método e protagonismo no PL
O projeto da dosimetria, vetado pelo governo e agora na mira do Congresso, é tratado como prioridade pela base bolsonarista. A proposta mira a forma de cálculo das penas e interessa diretamente aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, que depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. O veto concentra pressões desde o fim de 2025 e se torna símbolo da reação da direita às decisões do Supremo Tribunal Federal.
Nesse cenário, a divergência entre Seif e Nikolas expõe uma disputa mais ampla: de um lado, a política tradicional, baseada em reuniões reservadas, composição com partidos do centrão e negociações voto a voto; de outro, a política performática, ancorada em vídeos de impacto, transmissões diárias e campanhas de engajamento. “Política que funciona ainda é no bastidor, no diálogo e no compromisso”, escreve o senador em sua postagem.
Nikolas reage dizendo que não está interessado em carimbar autoria sobre a pauta. Alega que o mais importante é que a dosimetria entre na ordem do dia. “Estou me lixando para quem é o responsável por pautar a dosimetria. O importante é que foi pautado”, afirma, antes de acusar Seif de tentar se colocar como “o único responsável” pela vitória parcial. A crítica mira a linha fina entre comunicar uma articulação e capitalizar politicamente sobre ela.
Seif devolve em tom duro. Acusa o colega de vaidade e rejeita a ideia de que busque holofotes. “Aqui, todos sabem que egolatria e vaidade abundam de sua parte. Não da minha. Sou low profile. Tenho 1/2 dúzia de seguidores. Mas sequestrar meus esforços não vou permitir tampouco aceitar”, rebate. Em seguida, sugere que Nikolas consulte Alcolumbre para saber o que o “demoveu” a pautar o veto: “Se seus vídeos ou meu acordo com ele em concordância com a oposição do Senado”.
Racha interno e efeitos sobre o veto
A troca de acusações ocorre enquanto o PL tenta se consolidar como principal força de oposição ao governo Lula no Congresso. O partido elegeu a maior bancada da Câmara em 2022, com 99 deputados, e conta hoje com dezenas de senadores alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A imagem de divisão pública entre dois de seus nomes mais visíveis alimenta dúvidas sobre a capacidade da sigla de coordenar votações delicadas, como a derrubada de vetos presidenciais.
A sessão do Congresso que analisa o veto da dosimetria é decisiva para centenas de réus e familiares ligados ao 8 de Janeiro, que acompanham cada movimento em Brasília. Para esse grupo, a mobilização nas redes e nas ruas é vista como parte essencial da estratégia de pressão. Já parlamentares experientes lembram que, sem maioria aritmética, nenhum veto é derrubado, por maior que seja a campanha digital.
Ao citar o ministro Alexandre de Moraes, o ex-presidente Bolsonaro e o atual ministro do Supremo Flávio Dino, Seif tenta ilustrar o limite da política de rede. “Se funcionasse, Moraes não era mais ministro, Bolsonaro estaria solto, Flávio Dino teria sido reprovado e teríamos anistia hoje”, escreve. A frase atinge o coração de uma militância que, desde 2018, acostuma-se a medir força por visualizações, curtidas e doações on-line.
O embate também envia sinais a outros partidos da oposição. Aliados avaliam, em reservado, que a escalada verbal fragiliza a interlocução com siglas do centrão, sensíveis a disputas públicas e a gestos de descontrole. A cobrança para que um parlamentar “repita as ofensas olho no olho” é lida como imagem de uma direita ainda em adaptação ao ambiente institucional pós-Bolsonaro e às punições decorrentes de 8 de Janeiro.
Pressão cruzada sobre o Congresso
Enquanto Seif e Nikolas se enfrentam em público, a pauta da dosimetria continua a ser negociada voto a voto. A derrubada de um veto presidencial exige maioria absoluta de deputados e senadores, em sessão conjunta, o que significa ao menos 257 votos na Câmara e 41 no Senado. O governo trabalha para manter o veto, temendo abrir brechas jurídicas em outros julgamentos e reforçar o discurso de perseguição política da oposição.
A ala mais moderada do PL tenta conter o incêndio e recuperar o foco na votação. A família Bolsonaro, que mantém influência direta sobre ambos, já é cobrada a arbitrar a disputa. Senadores e deputados relatam preocupação com o desgaste junto ao eleitorado conservador, que acompanha em tempo real a briga entre dois de seus principais porta-vozes.
O episódio deixa uma pergunta incômoda no ar: quem comanda, hoje, a estratégia da oposição no Congresso — os articuladores de bastidor ou as estrelas das redes? A resposta deve aparecer nas próximas sessões, quando o placar sobre o veto à dosimetria mostrar, com números, qual método fala mais alto em Brasília.
