BH decreta emergência em saúde para ampliar leitos e vacinar mais
A Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte decreta, nesta sexta-feira (10/4), estado de emergência em saúde pública. A medida tenta antecipar o impacto da escalada de doenças respiratórias prevista para as próximas duas semanas.
Sinal amarelo antes do pico de casos
O decreto nasce de um dado concreto: o avanço rápido dos atendimentos por queixas respiratórias na rede pública da capital. Entre fevereiro e março, o número de pacientes em UPAs e centros de saúde salta de 26.533 para 49.574, alta de 86,7%. No acumulado até o fim de março, são 102.909 atendimentos, em uma temporada que, neste ano, chega mais cedo que o habitual.
O movimento acende o alerta no município e coloca Belo Horizonte entre as capitais em situação de atenção no boletim InfoGripe, divulgado nesta quinta-feira (9/4). O levantamento aponta nível de atividade de Síndrome Respiratória Aguda Grave em alerta, risco ou alto risco e indica tendência de crescimento nas últimas seis semanas. É esse cenário, ainda sob controle, mas em curva ascendente, que leva a pasta a agir antes da lotação das emergências.
À frente da secretaria, Miguel Paulo Duarte Neto admite a preocupação, mas insiste que o sistema ainda respira sem sobressaltos. “Os índices mostram que as próximas duas semanas terão uma sobrecarga no número de atendimentos. Estamos trabalhando para que não haja problemas nas entradas das emergências”, afirma. Segundo ele, a decisão se apoia em gráficos diários e modelos que projetam o comportamento das doenças respiratórias no período sazonal, que vai de março a junho.
O decreto, que a prefeitura publica ao longo do dia, funciona como uma espécie de atalho administrativo. Com o instrumento, a gestão municipal ganha margem para contratar serviços, remanejar equipes e abrir novos leitos com menos entraves burocráticos. “Com o decreto, a gente consegue ter maior agilidade na ampliação de leitos e instrumentos de saúde. O aumento da nossa demanda vem em uma crescente, que está ainda dentro do aceitável, mas projeta uma sobrecarga”, explica o secretário.
Rede em alerta e corrida pela vacinação
O foco imediato recai sobre as unidades de pronto-atendimento e os centros de saúde, porta de entrada da maioria dos pacientes com febre, tosse e falta de ar. A ordem é reforçar equipes, organizar fluxos internos e reservar espaço para internações rápidas, evitando que casos moderados evoluam para quadros graves de síndrome respiratória. A previsão da secretaria é que a pressão maior se concentre em crianças e idosos, grupos tradicionalmente mais vulneráveis ao vírus da gripe e a outros agentes respiratórios.
Apesar da subida das curvas, a prefeitura repete que não há, por ora, colapso no atendimento. Em nota, a Secretaria de Saúde informa que monitora diariamente a ocupação dos leitos e o volume de pacientes nas UPAs. O órgão ressalta que o aumento de casos já era esperado para o período de sazonalidade e que o decreto busca criar uma “faixa de segurança” para enfrentar o pico sem filas prolongadas nem pacientes à espera de vaga em hospital.
A aposta central, porém, não está apenas em novos leitos, e sim na prevenção. O secretário faz questão de ligar o estado de emergência à campanha de vacinação contra a gripe, que ainda não decola. “O foco para combater os vírus ainda é a vacinação, pois a cobertura está baixa na capital”, reforça. Nos últimos dois anos, Minas Gerais não consegue sair da casa dos 60% de cobertura vacinal, bem abaixo da meta mínima de 90% definida pelo Programa Nacional de Imunizações.
Neste sábado (11/4), 96% dos municípios mineiros, incluindo Belo Horizonte, organizam o Dia D de vacinação. A mobilização envolve 820 cidades, com doses disponíveis em unidades básicas de saúde para crianças de 6 meses a 5 anos, idosos, gestantes, mulheres no pós-parto, trabalhadores da saúde, pessoas com deficiência permanente e caminhoneiros. O objetivo é claro: reduzir quadros graves, internações e mortes antes que as filas cresçam nas portas das UPAs.
O que muda para o paciente e os próximos passos
Na prática, o morador de Belo Horizonte tende a perceber mudanças graduais nos próximos dias. Algumas unidades poderão estender horários, áreas internas serão reorganizadas para separar pacientes com sintomas respiratórios dos demais e equipes extras devem reforçar plantões em dias de maior movimento. Em caso de piora acentuada dos indicadores, a secretaria avalia abrir leitos temporários em hospitais de referência e, se necessário, firmar contratos emergenciais com a rede privada.
O estado de emergência também abre espaço para remanejamento de recursos públicos. Verbas previstas para outras ações podem ser direcionadas à compra de medicamentos, equipamentos de suporte respiratório e insumos básicos, como máscaras e testes rápidos. A decisão tem impacto direto sobre a rotina de profissionais de saúde, que entram em período de maior pressão, mas também sobre a população, chamada a colaborar com medidas simples: completar o esquema vacinal, evitar aglomerações em caso de sintomas e procurar atendimento precoce se o quadro piorar.
Do ponto de vista histórico, a reação antecipada tenta evitar cenas conhecidas de invernos recentes, quando a combinação de baixa vacinação e vírus agressivos levou à ocupação elevada de UTIs infantis em Minas e em outros estados. A diferença, agora, está na tentativa de agir duas semanas antes do pico estimado, e não durante a fase mais aguda da crise. O sucesso dessa estratégia depende, em boa medida, da adesão da população ao Dia D e às campanhas que virão depois dele.
As autoridades prometem atualizar boletins e ajustar o plano de ação conforme os dados das próximas semanas. Se a curva de casos desacelerar com o avanço da vacinação, o decreto pode se tornar um instrumento preventivo bem-sucedido. Se a adesão continuar baixa e a procura por UPAs disparar, a capital terá de testar até onde sua rede aguenta a pressão. A resposta, mais do que nos gabinetes, estará nas filas – ou na ausência delas – das unidades de saúde de Belo Horizonte.
