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Apoio no Senado deixa Jorge Messias perto de vaga no STF

Às vésperas da sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, Jorge Messias chega ao Senado com apoio declarado de grandes bancadas e líderes da oposição. A articulação política em torno do advogado-geral da União torna sua aprovação para o Supremo Tribunal Federal o desfecho mais provável.

Articulação acelera na véspera da sabatina

No prédio do Senado, em Brasília, o movimento se intensifica desde que o presidente Lula oficializa a indicação de Messias para o STF. A data da sabatina na CCJ marca o início visível de uma corrida que, nos bastidores, está praticamente concluída. O mapeamento de votos mostra cenário confortável para o indicado, que precisa de ao menos 41 apoios no plenário.

Aliados de Messias calculam que a virada ocorre quando três bancadas decisivas se posicionam a favor. MDB, PSD e Republicanos sinalizam apoio à indicação e oferecem uma base numérica capaz de garantir folga na votação. O gesto vem acompanhado de uma mensagem mais ampla: o nome do atual advogado-geral da União transborda a fronteira da base governista.

Em meio a conversas reservadas e telefonemas que atravessam a madrugada, líderes partidários ajustam o discurso. A prioridade é reduzir resistências e evitar surpresas na votação secreta. Senadores ouvidos reservadamente descrevem o clima como de “convergência pragmática”: ninguém quer comprar uma briga longa com o Planalto às portas das eleições municipais de 2024 e já de olho em 2026.

Enquanto o roteiro institucional se mantém rígido na CCJ, com exposição do currículo e questionamentos sobre decisões passadas, o jogo real acontece antes. O Planalto organiza encontros, distribui espaços em comissões e acena com futuras parcerias. Messias, por sua vez, circula pelos gabinetes, reforça vínculos regionais e apresenta o que aliados chamam de “perfil técnico com trânsito político”.

Oposição ajuda a pavimentar o caminho

O ponto de inflexão mais visível surge quando nomes identificados com o bolsonarismo passam a defender publicamente a aprovação. Ciro Nogueira, senador pelo PP do Piauí e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, diz que vota a favor do indicado. Ele sublinha que preferia ver Bolsonaro fazendo a indicação, mas usa outro argumento para justificar o apoio. “O povo escolheu que fosse o presidente Lula, fez a indicação, nós temos que respeitar. É uma decisão pessoal de cada senador. Eu mesmo apoio, porque eu conheço sua história”, afirma.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, dá um passo na mesma direção. Mesmo reconhecendo que parte da bancada pretende votar contra, ele admite que o cenário é amplamente favorável a Messias. “Eles têm maioria. Aprova. Pode escrever. Aprova. Eles não têm o que falar do Messias”, diz, ao classificá-lo como “camarada de bem”. Na leitura de interlocutores, o gesto de Valdemar funciona como uma espécie de autorização informal para que senadores do PL votem de acordo com seus próprios cálculos locais.

A sinalização extrapola o Legislativo e chega ao Judiciário. O ministro André Mendonça, indicado ao STF por Bolsonaro, envia recado público ao ainda advogado-geral da União durante evento na Assembleia Legislativa de São Paulo. “Eu faço votos de que em breve você possa deixar a AGU por um bom motivo de estar comigo no STF”, afirma, numa frase que circula rapidamente entre gabinetes em Brasília.

Esses apoios inesperados reduzem a temperatura política em torno da indicação e facilitam o discurso da base governista. Senadores alinhados ao Planalto repetem que Messias reúne trajetória técnica consistente, trânsito entre Poderes e perfil moderado em temas sensíveis. O governo tenta construir a imagem de um ministro capaz de dialogar com diferentes correntes, inclusive no interior do próprio STF.

No pano de fundo, o cálculo é mais amplo. Às portas das eleições de 2026, o governo Lula busca um Supremo estável e previsível em julgamentos que podem afetar diretamente o processo eleitoral. A lembrança das crises entre o tribunal e o bolsonarismo segue viva no Congresso. A indicação de Messias, vista como segura e pouco conflitiva, é entendida como uma aposta na redução de ruídos entre os Poderes.

Impacto no STF e na política até 2026

A eventual aprovação de Jorge Messias altera a composição do Supremo em um momento de tensão prolongada. A Corte carrega a responsabilidade de arbitrar conflitos que vão do calendário eleitoral à regulamentação de plataformas digitais, passando por casos de abuso de poder econômico. Cada voto tem peso concreto em processos que atingem partidos, líderes políticos e setores inteiros da economia.

Aliados de Lula veem na escolha um reforço à estratégia de conter aventuras institucionais e preservar a estabilidade até a eleição presidencial de 2026. Críticos, sobretudo na oposição, temem a consolidação de uma maioria mais simpática às agendas do governo em temas como políticas sociais, regulação ambiental e disputas federativas. A leitura dominante no Senado, porém, é que o STF continuará dividido em diferentes correntes, sem bloco único e monolítico.

O peso político da decisão do Senado também recai sobre a própria Casa. Ao chancelar um nome com apoio explícito de líderes da oposição, os senadores enviam sinal de que ainda preservam espaços de negociação acima da guerra eleitoral permanente. O gesto interessa a quem busca diminuir a percepção de paralisia do Congresso diante do avanço da extrema-direita em outros países e do ambiente internacional instável, marcado por conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia.

Dentro do STF, a chegada de Messias, se confirmada, tende a fortalecer a ala que prioriza a construção de consensos internos e evita decisões solitárias de grande impacto. A proximidade com a Advocacia-Geral da União e a trajetória em cargos jurídicos do Executivo alimentam a expectativa de um ministro atento a efeitos fiscais, orçamentários e administrativos das decisões da Corte.

Próximos passos e disputas que ficam no horizonte

O roteiro imediato está desenhado. Messias enfrenta a sabatina na CCJ, responde a perguntas sobre independência em relação ao governo que o indica e tenta afastar suspeitas de alinhamento automático ao Planalto. Se passar pela comissão, segue para o plenário, onde o voto secreto protege dissidências discretas tanto na base como na oposição.

A aprovação com margem larga modificará o patamar de força do governo nas próximas indicações para o Judiciário e para agências reguladoras. Uma vitória apertada, por outro lado, exporá fraturas hoje mascaradas pelos gestos públicos de apoio. Seja qual for o placar, o novo ministro participará de decisões que moldam o cenário político até 2026 e além. A pergunta que resta, nos corredores do Senado e do Supremo, é se essa composição conseguirá reduzir a temperatura institucional ou se apenas adiará o próximo conflito.

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