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Xi Jinping rejeita independência e pressiona por reunificação com Taiwan

O presidente chinês, Xi Jinping, afirma nesta sexta-feira (10) que a China “absolutamente não tolerará” a independência de Taiwan, em encontro com a líder da oposição taiwanesa, Cheng Li-wun, em Pequim. A declaração, feita no Grande Salão do Povo, reforça a aposta de Pequim na reunificação e eleva a temperatura política no estreito de Taiwan.

Encontro raro em meio a tensão no estreito

Xi recebe Cheng em 10 de abril de 2026, em um momento em que aviões e navios chineses cruzam com frequência a linha divisória não oficial que separa a ilha do continente. Cheng, presidente do Kuomintang (KMT), maior partido de oposição de Taiwan, define a viagem como uma “missão de paz”, mas o tom do anfitrião deixa pouco espaço para ambiguidades.

Sentado sob o emblema vermelho da República Popular da China, Xi diz que o mundo “não está totalmente em paz” e que a estabilidade no estreito se torna cada vez mais frágil. Em seguida, mira diretamente o debate interno de Taiwan. “A independência de Taiwan é a principal culpada por minar a paz no estreito de Taiwan — não vamos tolerar nem compactuar com isso de forma alguma”, declara, em trecho reproduzido por emissoras taiwanesas.

O líder chinês volta a um dos pilares da política de Pequim desde 1949, quando a guerra civil terminou com o Partido Comunista no poder no continente e o antigo governo nacionalista refugiado em Taiwan. “Os compatriotas de ambos os lados do estreito são todos chineses — pessoas de uma só família que desejam paz, desenvolvimento, intercâmbio e cooperação”, afirma. “Quando a família é harmoniosa, todas as coisas prosperam”, completa, ao defender que “ambos os lados pertencem a uma só China”.

Cheng escuta em posição delicada. Seu partido, o KMT, tradicionalmente defende laços mais estreitos com Pequim e rejeita a independência formal, mas precisa responder a uma sociedade que elege, em janeiro de 2024, o presidente Lai Ching-te, visto por Pequim como “separatista”. Ao escolher encontrar Xi em Pequim, a líder da oposição tenta mostrar influência e relevância, ao mesmo tempo em que evita ser vista em casa como peça do jogo continental.

Disputa de narrativas e impacto regional

Enquanto Xi fala em “reunificação” e “rejuvenescimento nacional”, o governo de Taipé reage a distância. Poucas horas após o encontro, o principal formulador de políticas de Taiwan para a China, Chiu Chui-cheng, reforça a linha oficial em entrevista na capital taiwanesa. “Somente o povo de Taiwan pode decidir seu futuro”, afirma. Ele cobra que Pequim se dirija ao governo “democraticamente eleito e legítimo” de Lai Ching-te, e não apenas a partidos de oposição.

A mensagem mira não só a China, mas também aliados como Estados Unidos e Japão, que encaram a ilha como peça central na segurança do Pacífico. Washington mantém, desde 1979, compromisso de ajudar Taiwan a se defender, embora reconheça formalmente apenas o governo em Pequim. Cada frase de Xi sobre “não tolerar” a independência acende alertas em capitais que monitoram de perto os deslocamentos de navios chineses na região.

Desde 2020, a frequência de exercícios militares chineses perto de Taiwan cresce de forma constante, com dezenas de aeronaves cruzando, em alguns dias, o espaço aéreo de identificação da ilha. Em resposta, Taiwan amplia o orçamento militar, compra sistemas de defesa dos Estados Unidos e alonga o serviço militar obrigatório. O encontro desta sexta-feira não altera a correlação de forças, mas envia um recado político forte: Pequim quer explorar divisões internas taiwanesas enquanto mantém a pressão militar.

A presença de Cheng em Pequim também reforça a disputa de narrativas dentro de Taiwan. Para o KMT, o contato direto com Xi pode reduzir o risco de conflito e abrir espaço para acordos econômicos. Para o governo e setores pró-independência, a visita cria a imagem de uma oposição disposta a dialogar com quem ameaça a soberania da ilha. Em ano de consolidação do novo governo, essa percepção pesa nas pesquisas, nas alianças parlamentares e nas eleições locais previstas para 2026.

Reunificação em foco e incertezas à frente

Xi vai além de recados sobre independência e resgata o projeto de longo prazo de unificar politicamente o continente e a ilha. Para ele, o Kuomintang e o Partido Comunista devem “dar as mãos para criar um futuro brilhante de reunificação da pátria e rejuvenescimento nacional”. A ideia ecoa o modelo de “um país, dois sistemas”, rejeitado de forma contundente pela maioria da população taiwanesa, sobretudo após a repressão a protestos em Hong Kong em 2019 e 2020.

Na prática, o encontro desta sexta-feira amplia a sensação de impasse. Pequim continua a se recusar a falar com Lai Ching-te, eleito com pouco mais de 40% dos votos, e prefere interagir com uma oposição que não governa o país. Taipé insiste que qualquer negociação passa pelo respeito ao resultado das urnas e pela renúncia explícita ao uso da força. Entre esses dois pontos, as possibilidades de avanço diplomático permanecem estreitas.

O impacto se projeta além do estreito de 180 quilômetros que separa Taiwan da costa chinesa. Países do Sudeste Asiático, que convivem com disputas marítimas no mar do Sul da China, observam com cautela qualquer escalada. Uma crise aguda em Taiwan altera rotas comerciais, encarece seguros marítimos e afeta cadeias de produção de semicondutores, nas quais a ilha responde por mais de 60% da capacidade mundial em chips avançados.

Nos próximos meses, analistas esperam nova rodada de exercícios militares chineses, visitas de parlamentares estrangeiros a Taipé e declarações firmes de Washington em defesa do “status quo”, a situação em que Taiwan mantém autonomia de fato sem declarar independência formal. O encontro entre Xi e Cheng, ao cobrar alinhamento da oposição taiwanesa ao projeto de reunificação, adiciona uma camada de pressão política a um tabuleiro já carregado de mísseis, navios e desconfiança mútua.

Resta em aberto se esse movimento abre espaço para algum diálogo prático ou apenas aproxima a região de uma linha vermelha difícil de recuar. Enquanto Pequim fala em “uma só família” e Taipé insiste no direito de decidir seu próprio destino, a paz no estreito depende, cada vez mais, de decisões tomadas longe das câmeras, nos bastidores das principais capitais do mundo.

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