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Hezbollah lança foguetes contra tropas israelenses e desafia cessar-fogo

O Hezbollah lança, na madrugada desta sexta-feira (10), uma saraivada de foguetes contra tropas israelenses e o assentamento de Kiryat Shmona, na fronteira entre Líbano e Israel. O grupo afirma que reage à violação de um cessar-fogo por parte de Israel, em meio ao segundo dia de uma trégua frágil mediada entre Estados Unidos e Irã.

Fronteira volta a pegar fogo em meio a trégua instável

Os disparos partem da região de Wata Al-Khiam, no sul do Líbano, pouco antes das 6h da manhã no horário local, e atingem posições militares israelenses próximas à fronteira. Em comunicado, o grupo apoiado pelo Irã afirma que a ofensiva mira especificamente tropas concentradas na área e o assentamento de Kiryat Shmona, cidade israelense de cerca de 23 mil habitantes, a poucos quilômetros do Líbano.

No texto, o Hezbollah declara que o ataque é uma resposta direta à “violação do acordo de cessar-fogo pelo inimigo”. O grupo não detalha quais ações israelenses teriam rompido o entendimento, mas menciona operações recentes na fronteira. Israel, por sua vez, não reconhece que haja cessar-fogo com o Hezbollah e mantém ataques frequentes contra alvos considerados ligados à organização no território libanês.

Cessar-fogo contestado e pressão internacional crescente

O novo episódio ocorre enquanto autoridades em Washington, Teerã e capitais regionais tentam consolidar um cessar-fogo mais amplo, proposto com mediação do Paquistão. O entendimento, anunciado nesta semana, busca conter a escalada entre Estados Unidos e Irã e reduzir o risco de uma guerra aberta que envolva múltiplos frontes no Oriente Médio.

Teerã insiste que esse pacote inclui o fim das hostilidades no Líbano. “Interromper a guerra no Líbano é parte inseparável do entendimento de cessar-fogo proposto pelo Paquistão e, como o primeiro-ministro desse país anunciou explicitamente, os Estados Unidos se comprometeram a parar a guerra em todas as fronteiras, incluindo o Líbano”, afirma Esmaeil Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, em declaração reproduzida pela TV estatal.

Washington e Israel contestam essa leitura e negam que o Líbano faça parte formal do acordo. O impasse abre uma brecha que tanto Israel quanto o Hezbollah usam para manter pressão militar na fronteira, mesmo enquanto diplomatas falam em desescalar o conflito. Desde o início da trégua entre EUA e Irã, as trocas de fogo entre o Exército israelense e o grupo libanês seguem quase diárias, com períodos de maior ou menor intensidade.

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, reforça essa postura ao declarar, na quinta-feira (9), que não há trégua com o Hezbollah. “Quero dizer a vocês: não há cessar-fogo no Líbano. Continuamos atacando o Hezbollah com força”, afirma em mensagem de vídeo. Em paralelo, ele diz ter instruído seu gabinete a iniciar negociações diretas com o governo libanês para buscar o desarmamento do grupo e, nas palavras dele, “um acordo de paz histórico e duradouro”.

Beirute recusa diálogo sob bombardeio e teme escalada

No Líbano, a proposta de conversas diretas com Israel encontra resistência imediata. Um representante libanês ouvido pela CNN responde que não haverá “negociações sob fogo” e condiciona qualquer diálogo a uma interrupção clara dos ataques. O recado ecoa dentro de um país politicamente fragmentado, no qual o Hezbollah ocupa cadeiras no Parlamento, mantém forte presença militar e se apresenta como resistência armada à ocupação israelense.

A fronteira entre os dois países é cenário de choques recorrentes desde a guerra de 2006, que dura 34 dias e deixa mais de mil mortos no Líbano, a maioria civis, e mais de 150 em Israel. Desde então, o equilíbrio é precário: períodos de relativa calma se alternam com rodadas de foguetes, ataques aéreos e incidentes localizados, contidos por pressão internacional e pelo medo de uma nova guerra em grande escala.

O ataque desta sexta-feira reacende o temor de que o atual cessar-fogo, ainda em seu segundo dia, não seja capaz de conter a dinâmica própria da fronteira norte de Israel. Cada foguete lançado do Líbano e cada bombardeio israelense de volta testam a paciência de governos na região e de potências envolvidas, como Estados Unidos, Irã e países europeus. Embaixadas acompanham de perto o movimento de tropas e a intensidade das hostilidades, em busca de sinais de que a situação sai do controle.

Impacto imediato e riscos para a trégua regional

Relatos iniciais na região apontam para danos materiais em áreas próximas aos pontos atingidos, sem confirmação oficial de número de feridos ou mortos até o fim da manhã local. Sirenes de alerta soam em Kiryat Shmona e em comunidades vizinhas, obrigando moradores a correr para abrigos reforçados, construídos justamente para episódios como esse. Nas vilas libanesas, famílias deixam suas casas ao ouvir o som dos lançadores de foguetes e temem novos bombardeios israelenses em resposta.

Na prática, o episódio fragiliza ainda mais a tentativa de separar o cessar-fogo entre EUA e Irã de conflitos paralelos na região. Para mediadores, cada violação na fronteira libanesa reduz a confiança das partes em compromissos assumidos em outras frentes, como no Golfo Pérsico e na Síria. O próprio Irã vincula, de forma explícita, o avanço de negociações de paz ao cumprimento dos termos que, segundo Teerã, incluiriam uma trégua efetiva no Líbano.

A leitura em Israel é oposta. O governo Netanyahu sustenta que ceder agora ao Hezbollah fortaleceria a influência de Teerã e de milícias aliadas ao longo da chamada “frente norte”, que se estende do Líbano à Síria. Ao insistir na continuidade dos ataques, o premiê busca sinalizar que não aceita limitações à ação militar israelense impostas por entendimentos externos, ainda que negociados por aliados históricos como os Estados Unidos.

Próximos movimentos e incertezas na fronteira

Diplomatas em Beirute, Jerusalém e capitais ocidentais aguardam a próxima resposta israelense ao ataque reivindicado pelo Hezbollah. Uma reação limitada, restrita a alvos militares na zona de fronteira, mantém a tensão elevada, mas dentro de um padrão conhecido. Uma operação mais ampla, com incursão terrestre ou bombardeios em áreas densamente povoadas, tende a provocar nova onda de condenações internacionais e a colocar ainda mais pressão sobre o cessar-fogo com o Irã.

No curto prazo, a fronteira norte de Israel volta a servir como termômetro da estabilidade regional. A saraivada de foguetes lançada antes do amanhecer expõe a fragilidade de acordos costurados fora do campo de batalha e deixa em aberto uma pergunta central: até que ponto as partes envolvidas estão dispostas a conter seus aliados armados para evitar que uma trégua negociada em mesas distantes desmorone sob o som das sirenes na fronteira entre Líbano e Israel?

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