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Padrasto é indiciado por matar bebê em BH; mãe é presa por conivência

Um bebê de 1 ano e 8 meses morre brutalmente espancado pelo padrasto na segunda-feira (6/4/2026), em Belo Horizonte. A mãe é presa três dias depois, acusada de conivência e maus-tratos. O caso ocorre no Bairro Cabana do Pai Tomás, na Região Oeste, e choca policiais e vizinhos pela frieza da mulher diante da morte do filho.

Violência dentro de casa e trajetória de abusos

A noite de segunda-feira termina na UPA Oeste com a tentativa desesperada de reanimar a criança. O menino chega sem sinais vitais, com temperatura corporal que indica morte há mais de uma hora, segundo médicos ouvidos pela polícia. A perícia do Instituto Médico Legal confirma lesões graves no tórax e na cabeça, causadoras de hemorragia interna.

Enquanto o bebê agoniza, a mãe está em trabalho de parto de outro filho. Ela dá à luz no mesmo dia em que perde o menino mais novo para a violência doméstica. Na quinta-feira (9/4), já depois do parto, é levada para prestar depoimento. As respostas surpreendem os investigadores. De acordo com registro da Polícia Civil, a mulher se refere ao filho morto com a frase: “tinha que morrer mesmo essa desgraça”.

O delegado Matheus Moraes Marques, da Delegacia Especializada em Homicídios de Belo Horizonte, relata que a postura da mãe rompe a expectativa até de agentes acostumados a casos extremos. “A calma e a indiferença da mãe em relação à morte do filho geraram surpresa nos militares”, afirma. Ele lembra que ela havia parido no dia anterior e, ainda assim, demonstra frieza incomum. “Por mais que seja uma situação absurda prender uma mãe que pariu no dia anterior, ela não tinha preocupação nenhuma com os filhos”, diz.

O padrasto, apontado como autor das agressões fatais, tenta montar uma narrativa de socorro. Na coletiva à imprensa, o delegado explica que o homem deixa a casa na segunda-feira para comprar cocaína, volta, permanece algum tempo e sai novamente. Antes de sair, pede a um parente que mora no mesmo lote que cuide do bebê, mas sem encostar nele. Retorna pela segunda vez, entra no quarto com a criança e fica ali cerca de 15 minutos.

Ao sair, afirma que o menino está engasgando com o próprio vômito e corre até uma base da Polícia Militar. Militares tentam manobras de ressuscitação. Não conseguem. O bebê é levado à UPA Oeste, onde a equipe médica confirma que a morte havia ocorrido bem antes da chegada. A sequência de idas e vindas do padrasto e o intervalo de 15 minutos no quarto se tornam centrais para a investigação de homicídio.

Maus-tratos, fome e falhas na rede de proteção

O caso não nasce na segunda-feira. A polícia encontra um histórico extenso de denúncias anônimas que apontam maus-tratos contra o bebê morto e o irmão de 4 anos. As crianças já são acompanhadas pelo Conselho Tutelar e por uma organização social ligada ao poder público. As queixas falam de agressões frequentes, descuido constante e fome.

Vizinhos relatam à polícia que o menino de 1 ano e 8 meses se desesperava quando via alguém comendo. A criança, segundo depoimentos, tentava pegar qualquer alimento à sua frente. O irmão mais velho, de 4 anos, também sofre com a negligência. Fica longos períodos sem frequentar a escola e aparece com sinais de descuido. A rotina de privação e violência se mistura a um ambiente marcado por drogas e ameaças.

O delegado informa que o casal já havia sido expulso do próprio bairro por envolvimento com tráfico de drogas. Os dois são obrigados a deixar o Cabana do Pai Tomás, segundo a polícia, depois de seguidas confusões ligadas ao comércio ilegal. O padrasto chega a pedir autorização ao delegado para fugir para São Paulo, alegando sofrer ameaças de morte na região.

A mãe, em depoimento, diz que também apanha do companheiro. A informação, porém, não altera a avaliação da Polícia Civil sobre a responsabilidade dela em relação aos filhos. Para os investigadores, a mulher não apenas testemunha as agressões contra as crianças, como convive com a fome e o abandono sem tomar qualquer medida de proteção. A frase registrada no boletim de ocorrência reforça, na visão da polícia, a postura de indiferença.

Os dois filhos sobreviventes, o menino de 4 anos e o recém-nascido, passam aos cuidados do Conselho Tutelar. Eles são retirados do ambiente familiar imediatamente após a confirmação das agressões e da morte do bebê. A rede de proteção tenta agora reconstruir, em poucos dias, o que falhou ao longo de meses de alertas ignorados.

Investigação, responsabilização e debate público

O padrasto é indiciado por homicídio, crime que pode levar a pena de 12 a 30 anos de prisão. A mãe responde por maus-tratos, cuja punição varia de acordo com a gravidade e o resultado da violência. Os dois passam por audiência de custódia, na qual a Justiça decide se permanecem presos ou se aguardam julgamento em liberdade. O Ministério Público acompanha o caso.

O inquérito tenta esclarecer em detalhes a dinâmica das agressões de segunda-feira e mapear episódios anteriores de violência. A polícia coleta laudos, ouve vizinhos, profissionais de saúde, conselheiros tutelares e integrantes da ONG que acompanhava a família. A meta é reunir provas sobre a frequência dos espancamentos, o grau de conhecimento da mãe e eventuais omissões de outros órgãos.

A morte do bebê reacende em Belo Horizonte o debate sobre a eficácia das políticas de proteção à infância. As denúncias anônimas e o acompanhamento prévio pelo Conselho Tutelar indicam que a situação crítica das crianças era conhecida pelo poder público. O desfecho trágico aponta falhas na articulação entre serviços sociais, rede de saúde, escolas e sistema de segurança.

Especialistas em infância e juventude, ouvidos nos bastidores da investigação, lembram que casos de violência doméstica costumam se repetir em ciclos. A combinação de pobreza, uso de drogas, histórico de agressões e isolamento social aumenta o risco de desfechos fatais. A população do Cabana do Pai Tomás, ao expulsar o casal, tenta impor um limite pela via da pressão comunitária, mas não consegue impedir a morte da criança.

O caso segue em investigação e deve chegar à Justiça com um dossiê de laudos, depoimentos e registros de denúncias. A partir daí, juízes e promotores vão decidir o futuro do padrasto e da mãe, enquanto o Conselho Tutelar e a rede de assistência definem o destino das duas crianças que sobreviveram. A pergunta que permanece entre vizinhos e autoridades é se a morte do bebê poderia ter sido evitada diante de tantos sinais ignorados.

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