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Conselho do São Paulo expulsa diretores por escândalo de camarote

O Conselho Deliberativo do São Paulo expulsa os diretores Douglas Schwartzmann e Mara Casares após votação online encerrada nesta quinta-feira (10). A dupla é responsabilizada por exploração irregular de um camarote no Morumbi e por danos à imagem do clube. A decisão inclui multas para ressarcir prejuízos e marca um dos desfechos mais duros da crise política recente no Morumbis.

Votação, penas máximas e fim de vínculos

A votação começa às 22h de quarta-feira e termina às 17h de hoje, em sistema online. Douglas recebe 217 votos pela expulsão; Mara, 223. O Conselho segue a recomendação unânime da Comissão de Ética, que indica a pena máxima prevista no estatuto para casos de gestão temerária e dano à imagem do clube.

O resultado elimina os dois do quadro associativo e encerra a presença de ambos no Conselho Deliberativo. Schwartzmann perde ainda o mandato vitalício de conselheiro e fica inelegível por dez anos. Mara já havia renunciado ao cargo de conselheira eleita, em dezembro de 2025, após a repercussão do caso, mas mesmo afastada sofre a sanção mais dura prevista no estatuto.

O processo tramita em clima de desgaste político, pressão de conselheiros por respostas rápidas e cobrança pública por transparência. O caso do camarote 3A, registrado internamente como “sala da presidência”, passa a simbolizar os limites borrados entre estrutura social e interesses particulares dentro do Morumbis. A expulsão busca demonstrar que esse tipo de arranjo deixa de ser tolerado.

Como o camarote 3A derruba diretores e abala a presidência

O escândalo vem à tona a partir de um áudio em que Douglas Schwartzmann e Mara Casares falam sobre uma operação clandestina de venda de ingressos para o show de Shakira, realizado em fevereiro do ano passado no Morumbis. No diálogo, Douglas admite a natureza irregular do esquema, cita o conhecimento do então superintendente geral Márcio Carlomagno e demonstra medo de punições internas e desgaste político.

Segundo a apuração interna, Carlomagno cede a Mara o direito de uso do camarote 3A. O espaço, ligado formalmente à presidência, é repassado para exploração comercial durante o show. A venda dos ingressos fica a cargo de Rita de Cássia Adriana Prado, que fatura cerca de R$ 132 mil com entradas que chegam a R$ 2.100 cada.

A operação salta dos bastidores para a Justiça quando Rita aciona uma empresa parceira por suposta apropriação de ingressos sem pagamento. O boletim de ocorrência e o processo judicial expõem a trilha do dinheiro e abrem caminho para a sindicância interna. Com a investigação avançando, Douglas e Mara pressionam Rita a retirar a ação, o que só aumenta a desconfiança sobre o grupo no comando do clube.

O caso do camarote acelera uma crise já latente. Auditorias interna e externa são abertas, o processo de impeachment do então presidente Julio Casares ganha força, e a pressão por mudanças explode dentro e fora do Conselho. Casares acaba renunciando à presidência, enquanto Carlomagno, seu braço direito, tem a demissão encaminhada dois dias depois da posse de Harry Massis Júnior no comando do São Paulo.

O efeito cascata atinge ainda o ex-diretor de futebol Carlos Belmonte, hoje alvo de pedido formal de expulsão apresentado por conselheiros. Belmonte se afasta da política interna e abandona o posto na coordenação do Legião, grupo que lidera no Conselho. Outro nome citado nos bastidores é o de Antonio Donizete Gonçalves, o Dedé, ex-diretor do clube social, também sob solicitação de expulsão.

Crise política, disputa de versões e imagem em jogo

A expulsão de Schwartzmann e Mara é apresentada por aliados da nova gestão como um marco de endurecimento contra práticas irregulares e um gesto para recuperar a confiança de sócios e torcedores. A resposta do Conselho mira um problema crônico dos clubes brasileiros: a exploração de espaços nobres de estádios em redes pouco transparentes de favores, revendas e negócios pessoais.

Na prática, a decisão abre espaço para uma revisão mais ampla dos controles sobre camarotes, ingressos e áreas corporativas do Morumbis. Conselheiros falam em criar trilhas de auditoria digitais, definir critérios claros de cessão e proibir repasses informais. O caso do camarote 3A, que mistura estrutura institucional e uso privado, vira exemplo de risco reputacional e financeiro.

As defesas, porém, tratam a expulsão como um movimento político. Em nota enviada ao UOL, os advogados de Mara Casares afirmam que a ex-diretora tem “profundo repúdio” à decisão e contestam o processo interno. “O procedimento interno se baseou unicamente em matérias jornalísticas”, dizem, ao sustentar que “não há, até o momento, qualquer evidência concreta de que tenha auferido benefício financeiro ou pessoal”. Para a defesa, a condenação sem “lastro mínimo probatório” cria “um precedente gravíssimo de utilização de apurações internas do clube como instrumento de manobra política”.

A defesa de Douglas Schwartzmann segue a mesma linha. Em nota, fala em “perseguição política, linchamento midiático e flagrante cerceamento de defesa”. Os representantes do ex-diretor questionam o áudio usado na apuração, que teria “origem controvertida, sem cadeia de custódia comprovada, divulgado de forma fragmentada e fora de contexto”. Segundo a nota, a gravação passa a ser tratada como “prova absoluta, apesar das inúmeras inconsistências já apontadas pela Defesa”.

Mesmo ao atacar a decisão, Douglas faz questão de preservar o clube. A defesa informa que, apesar do repúdio ao resultado, ele “mantém absoluto respeito com a instituição São Paulo Futebol Clube, time que dedicou parte relevante de sua vida, de sua história e de seu trabalho”. Mara também ressalta, em sua nota, “anos de trabalho com extrema dedicação e zelo” ao São Paulo.

Reestruturação e disputa pelo futuro do São Paulo

A crise aberta pelo camarote 3A ainda está longe do fim. O ex-superintendente Márcio Carlomagno já é excluído do quadro associativo por decisão da Comissão Disciplinar, acusado de omissão diante das irregularidades. Pedidos de expulsão contra Belmonte, Dedé e outros dirigentes próximos à gestão Casares avançam nos bastidores. O próprio ex-presidente responde a múltiplas representações que devem chegar à Comissão de Ética nas próximas semanas.

As mudanças redesenham a correlação de forças às vésperas de uma eleição presidencial prevista para 2026, na qual Carlomagno era tratado como sucessor natural de Casares. A queda em série de aliados do antigo presidente abre espaço para novas lideranças e reagrupamentos internos. A gestão de Harry Massis tenta se equilibrar entre o discurso de tolerância zero com irregularidades e o risco de alimentar a narrativa de caça às bruxas.

Os próximos meses devem mostrar se o endurecimento atual se traduz em reformas estruturais ou se fica restrito à punição de personagens específicos. Conselheiros falam em rever normas de governança, reforçar a atuação da Comissão de Ética e criar barreiras mais rígidas para negócios privados em estruturas do clube. A forma como o São Paulo lida com esses casos ajuda a definir não só o tamanho do dano imediato, mas também o padrão de transparência que o torcedor pode esperar daqui para frente.

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