Neymar expõe bastidores de treta com árbitro e luto pós-Copa
Neymar abre, em vídeo publicado nesta semana, os bastidores da discussão com a arbitragem no jogo contra o Remo e revisita o dia da eliminação do Brasil na Copa de 2022. O atacante do Santos descreve a sensação de “enterro” após a derrota para a Croácia e relata como um jantar com amigos, já de volta ao clube, vira arena de debate sobre suas falas polêmicas.
Da concentração com o Santos ao trauma do Catar
A gravação, divulgada em seu canal oficial, registra a rotina de Neymar na última semana, entre treinos, concentração e o duelo contra o Remo. Em meio às cenas de bastidor, o atacante aparece em uma roda com companheiros de elenco, discutindo a ordem das cobranças de pênalti e reabrindo, quase dois anos depois, a ferida do Mundial do Catar.
Ele conta que defende a posição de último cobrador, papel que costuma ficar com o jogador mais decisivo. Ao mesmo tempo, admite o risco que todos conhecem, mas raramente verbalizam: a possibilidade de a quinta cobrança nem acontecer. A lembrança o leva direto a 9 de dezembro de 2022, dia em que o Brasil cai para a Croácia nas quartas de final, nos pênaltis, no estádio Cidade da Educação, em Doha.
O relato se torna mais sombrio quando Neymar reconstrói o retorno da seleção ao hotel. Ele fala em silêncio pesado, olhares perdidos e corredores vazios, num clima que, segundo ele, parece cena de série apocalíptica. “A gente foi para o hotel depois do jogo e parecia que o mundo tinha acabado”, diz. “Era tipo ‘The Walking Dead’. Todo mundo passava do teu lado meio sério. Fazia cara de: ‘que m…’.”
Neymar conta que essa travessia entre o vestiário e o reencontro com familiares vira uma espécie de premonição do próprio velório. “Eu vi meu enterro como vai ser. Juro por Deus”, afirma. “Eu fiquei uns cinco minutos olhando e ninguém falava nada. Todo mundo ao redor só te olhando. Car…, parece que eu tô dentro de um caixão e todo mundo olhando e falando: ‘viveu hein, moleque’.” O atacante diz que se retira para o quarto, alegando mal-estar.
O tom pessoal contrasta com a imagem pública do astro acostumado a decisões e títulos. Aos 32 anos, com três Copas no currículo (2014, 2018 e 2022), Neymar escolhe mostrar a vulnerabilidade de um ídolo que ainda carrega, em 2024, a marca daquela eliminação. O vídeo mistura humor e confissões, mas volta sempre à mesma cena de paralisia no Catar.
Críticas à arbitragem e jantar de polêmicas
De volta ao Santos, o foco muda de Doha para a Vila Belmiro. No jogo contra o Remo, pela temporada atual, Neymar volta a ser o centro da narrativa, agora em um embate verbal com o árbitro Sávio Pereira Sampaio. Pelas imagens, o atacante sofre repetidas faltas, reclama, tenta dialogar e sai de campo com a sensação de injustiça.
Neymar afirma que entra na partida decidido a controlar o temperamento. Diz que conversa com o juiz em tom mais baixo, pede explicações e ouve pouco. “É chato ficar falando de árbitro porque parece que eu fico reclamando toda hora. Só que os caras estão ali para cuidar do jogo”, afirma no vídeo. “Hoje eu fui muito tranquilo com o árbitro todas as vezes que fui falar com ele. Fiz uma falta, sofri várias, e acabei sendo prejudicado.”
Os números da partida reforçam a percepção de desequilíbrio que o jogador tenta transmitir, ainda que ele não detalhe estatísticas no relato. A queixa principal recai sobre a diferença entre o volume de faltas sofridas e o critério adotado para cartões e advertências. Ele questiona, em tom de desabafo, até que ponto o histórico de reclamações pesa contra ele nas decisões de campo.
O pós-jogo não é mais leve. Já em casa, Neymar se reúne com amigos para um jantar que, inicialmente, deveria servir de respiro após a sequência de jogos e da discussão com a arbitragem. A mesa, no entanto, vira extensão do debate público que se desenrola nas redes sociais e nos programas esportivos desde o apito final.
O atacante admite que chega ao encontro ainda inflamado pela repercussão da frase em que diz que o juiz estaria “de Chico”, expressão lida por parte do público como machista. O tema divide opiniões no grupo. “Era pra ser um jantar tranquilo, de risadas. Acabou sendo um jantar de polêmica”, resume. “Sempre quando gera uma polêmica, a gente discute bastante. E a gente tem várias opiniões diferentes. Isso é bom para abrir a cabeça e entender o outro.”
Ele relata que escuta, por horas, argumentos que não tinha considerado. “Os amigos estão aqui para isso, para esses momentos de dar apoio, mas também falar algumas verdades que têm que ser ditas”, diz. “Entendi muita coisa, principalmente do que foi explicado. Jamais imaginaria algumas coisas, mas é isso.” A fala sugere um processo de revisão interna, ainda sem pedido público formal de desculpas.
Narrativa em vídeo, pressão contínua e próximos capítulos
O novo conteúdo de Neymar surge em um ambiente em que jogadores de alto nível passam a usar canais próprios para disputar versões com a imprensa e com torcedores. Em pouco mais de 15 minutos de vídeo, ele tenta costurar a sequência de episódios da última semana, do treino ao jantar, num relato que combina defesa pessoal e exposição emocional.
A tentativa de se explicar tem efeito imediato. Trechos do vídeo viralizam em redes como X, Instagram e TikTok, alimentando discussões sobre a conduta da arbitragem, o limite da cobrança sobre ídolos e a responsabilidade de figuras públicas em expressões do dia a dia. A comparação com um “enterro” após a Copa reabre o debate sobre o peso quase desumano que a seleção carrega desde 7 a 1 de 2014.
A repercussão também pressiona a própria arbitragem brasileira, já questionada por dirigentes e torcedores em diferentes campeonatos. O nome de Sávio Pereira Sampaio volta a circular em mesas-redondas, enquanto comentaristas revisitam lances do jogo contra o Remo quadro a quadro. A Confederação Brasileira de Futebol não se manifesta até o momento, mas a queixa de um jogador do tamanho de Neymar tende a impulsionar novas cobranças por transparência e uso de vídeo para explicar decisões.
Para Neymar, o episódio marca mais um capítulo na disputa por reputação dentro e fora de campo. Em ano em que ainda se recupera fisicamente e tenta retomar ritmo de jogo, cada declaração vira termômetro do nível de desgaste com parte da torcida e do público em geral. Ao expor fragilidades e bastidores, o atacante tenta reposicionar a própria imagem, agora menos blindada e mais disposta a admitir tropeços.
Os próximos passos passam pela reação formal da arbitragem, pela postura de Neymar nas partidas seguintes e pela forma como ele vai lidar, em novos conteúdos, com temas sensíveis como machismo, pressão psicológica e frustração esportiva. A dúvida que fica é se a transparência em vídeo será suficiente para mudar a maneira como o país olha para seu principal jogador quando o apito volta a soar.
