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Gilmar Mendes diz que até 34 deputados da Alerj recebem mesada do jogo do bicho

O ministro Gilmar Mendes afirma nesta quinta-feira (9) que entre 32 e 34 deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro recebem mesada do jogo do bicho. A revelação ocorre durante sessão do Supremo Tribunal Federal que discute o formato da eleição para o mandato-tampão no Estado. A declaração acende um alerta sobre a influência do crime organizado na política fluminense.

Revelação em sessão tensa no Supremo

O plenário do STF discute as regras da eleição suplementar no Rio quando Gilmar interrompe o voto para relatar a informação. Ele atribui o dado a um diretor da Polícia Federal, que teria detalhado o alcance da influência de banqueiros do jogo do bicho sobre a Alerj. O ministro afirma que uma “mesada” é paga mensalmente a deputados estaduais para garantir blindagem política ao esquema.

Ao mencionar o número de beneficiários, entre 32 e 34 parlamentares, Gilmar indica um volume que corresponde a quase metade dos 70 deputados da Assembleia, eleitos em 2022. O dado, se confirmado, atinge o coração da representação política do Rio, em um momento em que o Estado tenta recompor sua liderança após sucessivas crises de segurança e corrupção.

Crime antigo, influência renovada

O jogo do bicho nasce no fim do século 19 como uma rifa popular, mas se consolida ao longo do século 20 como atividade ilegal e altamente lucrativa. Na década de 1980, a CPI do Jogo do Bicho, na própria Alerj, expõe a ligação de bicheiros com chefes da política fluminense, mas não produz mudanças estruturais. Quarenta anos depois, a fala de Gilmar sugere que a simbiose entre contraventores e deputados não apenas persiste, como se profissionaliza.

Gilmar relata que a informação da PF descreve uma engrenagem que envolve pagamentos mensais, acordos de proteção legislativa e influência direta em votações sensíveis. O esquema, segundo ele, distorce o jogo democrático ao transformar mandatos em extensão dos interesses de grupos criminosos. “Quando se sabe que dezenas de parlamentares recebem mesada, é preciso perguntar de quem é, de fato, o poder na Assembleia”, afirma o ministro, em tom de advertência.

Impacto na política do Rio e na eleição-tampão

A revelação cai como uma bomba em um Estado marcado por sucessivos escândalos. Desde 1999, cinco governadores eleitos do Rio enfrentam prisão ou afastamento por suspeita de corrupção. A menção direta a 32 a 34 deputados ligados financeiramente ao jogo do bicho amplia a sensação de que o problema atinge a base do sistema político, não apenas o topo do Executivo.

No julgamento em curso, o STF decide o formato da eleição para o mandato-tampão que deve completar o atual ciclo de governo, após novas turbulências no comando do Estado. A informação trazida por Gilmar coloca pressão adicional sobre a Alerj, que tem papel central na definição de cenários futuros e na governabilidade. Se parte expressiva da Casa atua sob influência de banqueiros do jogo do bicho, qualquer rearranjo político passa a ser visto sob suspeita.

Quem perde com a captura da Assembleia

A população fluminense sente o efeito dessa captura institucional no cotidiano. Orçamentos bilionários, que deveriam priorizar segurança, saúde e educação, correm o risco de ser moldados de acordo com interesses do crime organizado. Em uma Casa com 70 cadeiras, a suspeita de que até metade da bancada recebe mesada significa que decisões sobre concessões públicas, fiscalizações e leis penais podem ser contaminadas.

Deputados que se mantêm fora do esquema, se existirem em número relevante, perdem força política diante de colegas financiados. O Executivo estadual, qualquer que seja o próximo governador, precisa negociar com uma Assembleia sob suspeita aguda. Empresas que atuam em setores sensíveis, como transporte, jogos, entretenimento e segurança privada, passam a operar em ambiente de incerteza regulatória, onde o peso da influência ilegal pode superar o da lei.

Pressão por investigação e reação institucional

A fala de Gilmar coloca a Polícia Federal e o Ministério Público sob holofotes imediatos. Se um diretor da PF relata a existência de uma rede de pagamentos mensais a parlamentares, cresce a cobrança por inquéritos formais, quebraz de sigilo bancário e operações de busca e apreensão. A expectativa é de que o caso produza desdobramentos em poucas semanas, com eventuais pedidos de afastamento de deputados suspeitos e colaboração premiada de intermediários.

No plano nacional, o episódio reacende o debate sobre a força do crime organizado na política, em especial em Estados que convivem há décadas com milícias, facções e contravenção. O jogo do bicho, apesar de considerado crime de menor potencial ofensivo, movimenta cifras milionárias não declaradas e se conecta a lavagem de dinheiro, corrupção policial e financiamento de campanhas. A diferença, agora, é a exposição direta de um suposto número de parlamentares capturados, feita da tribuna do Supremo, em sessão televisionada.

O que vem a seguir para a Alerj e para o STF

Parlamentares fluminenses devem ser pressionados a se manifestar nominalmente, com declarações de renda e defesa pública de transparência. A Mesa Diretora da Alerj pode ser cobrada a apoiar investigações externas e a criar comissões internas de apuração, sob risco de também ser associada à blindagem do esquema. O impacto político tende a repercutir nas próximas eleições municipais e estaduais, com eleitores ainda mais desconfiados de siglas tradicionais e de candidatos com histórico nebuloso.

No STF, a fala de Gilmar pesa sobre o clima do julgamento do mandato-tampão e potencialmente influencia a discussão sobre mecanismos de controle institucional no Rio. A corte passa a ser cobrada não apenas por decisões jurídicas, mas por um sinal claro de que não tolera a captura de poderes locais pelo crime organizado. A pergunta que fica, diante da suspeita de que até 34 deputados recebem mesada do jogo do bicho, é se as instituições fluminenses serão capazes de reagir com a velocidade e a firmeza que o caso exige.

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