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Tropas dos EUA prontas para retomar combate no Irã, mas Trump recua

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirma nesta terça-feira, 7 de abril de 2026, que as tropas americanas no Oriente Médio estão prontas para voltar a atacar o Irã. A decisão final, porém, esbarra na resistência política do presidente Donald Trump, às vésperas de novas negociações nucleares e de eleições cruciais em Washington.

Prontidão militar contrasta com impasse político

No Pentágono, na manhã de terça-feira, Hegseth adota um tom de vitória e descreve o Irã como um país “humilhado e desmoralizado” após cinco semanas de bombardeios. Ele sustenta que os Estados Unidos podem se apoderar dos estoques nucleares iranianos, “seja por persuasão, seja pela força”, e deixa claro que a máquina de guerra americana continua armada e operando na região.

Ao lado dele, o general Dan Caine, chefe do estado-maior conjunto, fala com mais cautela, mas reforça a mensagem de prontidão. Caine diz a repórteres que as forças americanas permanecerão no Oriente Médio “prontas, caso recebam ordens ou sejam chamadas, para retomar as operações de combate com a mesma rapidez e precisão que demonstramos nos últimos 38 dias”. São unidades aéreas, navais e de forças especiais, distribuídas em bases no Golfo Pérsico e em porta-aviões, em posição para agir em poucas horas.

O discurso militar ocorre poucas horas depois do anúncio de um cessar-fogo frágil por Donald Trump. No papel, o acordo suspende ataques e abre caminho para conversas em Islamabad, capital do Paquistão, no fim da semana. Na prática, porém, a trégua expõe uma contradição central da estratégia americana: a operação de retomada do combate é viável do ponto de vista militar, mas se torna quase impossível politicamente para o presidente.

Trump entra na nova rodada de negociações sob pressão interna crescente. O conflito consome cerca de US$ 1 bilhão por dia, irrita parte do Congresso e divide até apoiadores tradicionais da linha-dura contra Teerã. O presidente enfrenta eleições de meio de mandato em poucos meses e prepara uma cúpula sensível com o líder chinês, Xi Jinping. Qualquer escalada agora pode ter impacto direto nas urnas e na relação com Pequim.

Negociações em Islamabad e disputa por estoques nucleares

As conversas previstas para Islamabad giram em torno de uma lista longa de disputas acumuladas entre Washington e Teerã nas últimas décadas. No centro da mesa está o estoque de 259 quilos de urânio altamente enriquecido, guardado em instalações subterrâneas como o complexo nuclear de Isfahan. Para os Estados Unidos, esse material fica a poucos passos da capacidade de produzir bombas atômicas.

Hegseth afirma que um dos resultados esperados das negociações é um acordo explícito para a entrega desse urânio aos americanos. “Ou eles nos entregam, ou nós o retiramos”, declara, em tom de ultimato. A segunda opção, admitem oficiais atuais e ex-comandantes, implicaria mobilizar centenas de soldados de forças especiais, inseridos em território hostil, com alto risco de baixas e de reação em cadeia do Irã e de seus aliados na região.

Questionado sobre como esse urânio seria retirado em segurança, tanto do ponto de vista militar quanto ambiental, Hegseth recusa detalhes: “Isso o presidente vai resolver”. A frase expõe o ponto cego da estratégia. Trump sabe que qualquer operação de comando para capturar material nuclear iraniano pode transformar um cessar-fogo instável em guerra aberta, com forte repercussão nos mercados de energia, nos preços globais dos fertilizantes e na política doméstica nos Estados Unidos.

A tensão aumenta após Teerã declarar que o cessar-fogo e as negociações se tornam “inviáveis” diante do que chama de “violações repetidas” pelos EUA e por Israel. Em paralelo, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, afirma que Israel está com o “dedo no gatilho” e pronto para voltar a atacar alvos iranianos. A situação no Líbano, onde milícias alinhadas ao Irã enfrentam forças apoiadas por Israel, permanece indefinida, e Washington prepara o envio do senador JD Vance ao Paquistão no sábado para acompanhar as conversas.

Para Suzanne Maloney, especialista em Irã e vice-presidente de política externa da Brookings Institution, o momento lembra o conceito da Guerra Fria de destruição mútua garantida. “Os EUA podem retomar as operações militares a qualquer momento”, diz. “Mas os iranianos mostraram que podem dar uma guinada e ameaçar com ataques ao Estreito de Ormuz, com todos os efeitos previsíveis sobre o preço do petróleo e dos fertilizantes. E essas são todas as alavancas das quais o presidente tem plena consciência.”

Mercado de petróleo, custo político e o que está em jogo

O cessar-fogo mexe imediatamente com as cotações internacionais. O petróleo Brent cai cerca de 14% após o anúncio da trégua e gira em torno de US$ 95 por barril. O recuo alivia a pressão sobre economias importadoras, derruba expectativas de inflação e ajuda Trump a apresentar a pausa nos combates como um ganho tangível para motoristas e empresas americanas. Preços da gasolina também iniciam trajetória de queda, embora analistas não esperem retorno aos níveis anteriores à guerra.

Trump observa esses indicadores com atenção. O presidente chega a este ponto depois de uma série de decisões mal calculadas no início da ofensiva. Em 28 de fevereiro, ele lança ataques sem consultar aliados europeus ou os países do Golfo Pérsico, que descobrem os planos pela televisão. As monarquias árabes veem plataformas de petróleo e usinas de dessalinização expostas à retaliação iraniana, sem coordenação de defesa adequada. Em Washington, o Congresso reclama de não ser ouvido, e até falcões convictos contra Teerã se incomodam com o silêncio da Casa Branca sobre objetivos claros da operação.

A base trumpista, que costuma apoiar demonstrações de força, se divide diante do custo de US$ 1 bilhão por dia e da ausência de uma narrativa convincente de vitória. A falta de testemunhos oficiais no Capitólio alimenta críticas sobre transparência e improviso. O dano político já está contabilizado e pesa agora em qualquer cálculo sobre a retomada dos combates.

Na prática, quem ganha tempo com a atual pausa é o governo iraniano, que testa os limites da disposição americana de voltar ao confronto. Teerã sinaliza que pode pressionar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, sempre que sentir vantagem na mesa de negociação. Os Estados Unidos, por sua vez, usam a presença militar reforçada e a ameaça de operações de comando para tentar arrancar concessões sobre o programa nuclear.

Os próximos dias em Islamabad ajudam a definir se esse equilíbrio instável se mantém. Se as conversas fracassam e Trump autoriza o ataque para capturar os 259 quilos de urânio em Isfahan, o Oriente Médio volta rapidamente ao centro da volatilidade global, com impacto em cadeias de abastecimento, inflação e segurança energética. Se o presidente recua e aceita um acordo parcial, corre o risco de ser acusado de fraqueza por adversários domésticos e por aliados regionais, a começar por Israel.

Negociações sob relógio eleitoral

A Casa Branca entra na semana com uma janela estreita para mostrar resultados concretos. Trump precisa de um roteiro que combine redução de tensões, queda sustentada no preço do petróleo e algum gesto iraniano sobre o programa nuclear, sem se enredar em uma nova guerra de longo prazo. Assessores de segurança nacional calculam que qualquer grande operação militar a partir de agora se projeta diretamente sobre as urnas e pode dominar o debate nas eleições de meio de mandato.

O envio de JD Vance ao Paquistão busca sinalizar engajamento político de alto nível e oferecer uma ponte entre o discurso de força de Hegseth e a cautela de Trump. Nada garante, porém, que Teerã aceite entregar o urânio estocado nem que Israel permaneça em compasso de espera. A combinação de tropas prontas, armamentos posicionados e lideranças sob pressão eleitoral mantém o risco de erro de cálculo elevado. A resposta à pergunta central — até onde Trump está disposto a ir para evitar que o Irã avance no caminho nuclear — ainda depende não só de generais no Pentágono, mas de eleitores em novembro.

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