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Trump leva táticas de livro dos anos 80 às negociações com o Irã

Donald Trump retoma, em 9 de abril de 2026, as mesmas táticas descritas em seu livro de negociações dos anos 80 nas conversas com o Irã. O confronto calculado, agora em escala diplomática, empurra Washington e Teerã para um impasse mais tenso e imprevisível.

Livro antigo, palco novo

O ex-presidente desembarca politicamente nas negociações como se voltasse às páginas que o projetaram como empresário nos anos 80. As conversas, realizadas em um país europeu escolhido como terreno neutro, expõem um Trump que trata a diplomacia como extensão de seus negócios imobiliários, com ameaças, reviravoltas e pressão máxima em público e nos bastidores.

Interlocutores envolvidos nas reuniões relatam um padrão que se repete em cada rodada. Trump abre as sessões com um discurso duro, insinua sanções mais amplas e, em seguida, muda de direção com propostas inesperadas. A estratégia, descrita em seu livro como “levar tudo ao limite antes de fechar qualquer acordo”, vira método oficial diante de diplomatas acostumados a gestos graduais, protocolos rígidos e avanços milimétricos.

Em uma das sessões desta semana, segundo um assessor americano, Trump inicia a fala dizendo que o Irã enfrenta “a maior pressão econômica de sua história recente” e que “qualquer recuo de Washington custará caro”. Na sequência, sugere, de forma abrupta, um alívio parcial de sanções em até 90 dias, desde que Teerã aceite inspeções mais intrusivas em instalações sensíveis. O tom oscila entre ameaça e aparente abertura, estratégia clássica do ex-presidente para desestabilizar o interlocutor.

Para auxiliares, a lógica segue o roteiro antigo. O livro, publicado há quase 40 anos, defende criar um clima de incerteza extrema, exagerar objetivos na largada e recuar apenas perto do colapso das negociações. Em 2026, o método se adapta ao vocabulário da política externa, mas mantém o núcleo: falar mais alto, parecer disposto a romper a mesa e impor um jogo em que o outro lado nunca sabe qual será o próximo passo.

Impasse calculado e risco de escalada

O efeito imediato é um impasse que ninguém assume abertamente, mas todos reconhecem. As delegações encerram a rodada de 9 de abril sem cronograma claro para um novo encontro. Um diplomata europeu que acompanha o processo resume, sob condição de anonimato: “As conversas estão congeladas, mas não mortas. Trump aposta que o Irã cede primeiro”.

Teerã reage à altura. Representantes iranianos acusam os Estados Unidos de “chantagem explícita” e afirmam que a pressão máxima só fortalecerá setores mais duros dentro do regime. Fontes ligadas à equipe iraniana afirmam que qualquer concessão sobre programa nuclear ou mísseis balísticos exige contrapartidas concretas, como redução efetiva de sanções sobre exportações de petróleo e acesso a cerca de US$ 20 bilhões em ativos bloqueados no exterior.

Especialistas em segurança regional veem um jogo de alto risco. Um pesquisador de um centro de estudos em Londres afirma que “estratégias de negociação baseadas em caos podem funcionar em contratos, mas, entre Estados, o custo de erro é muito maior”. Ele lembra que, desde a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear de 2015, em 2018, a região registra ao menos três grandes crises por ano ligadas ao Golfo Pérsico, afetando fretes, seguros e o preço médio do barril de petróleo.

Em 2025, choques no estreito de Ormuz contribuíram para alta de quase 15% no preço internacional do petróleo em poucos meses. Investidores agora acompanham cada declaração de Trump e do governo iraniano, atentos a qualquer sinal de escalada militar que possa repetir movimentos semelhantes. As seguradoras marítimas já discutem reajustes de prêmios em rotas próximas a áreas sensíveis, prevendo cenários de maior tensão caso as negociações entrem em colapso completo.

Diplomacia sob o método Trump

A insistência nas táticas do livro dos anos 80 molda o ambiente além da mesa com o Irã. Outras potências acompanham o estilo de Washington e ajustam seus próprios movimentos. Governos europeus ensaiam maior coordenação para evitar que um eventual fracasso abra espaço para uma corrida nuclear regional ou para novos ataques indiretos de aliados iranianos contra interesses ocidentais.

Dentro dos Estados Unidos, a estratégia também divide. Assessores mais tradicionais da área de segurança defendem um roteiro mais previsível, com etapas definidas, metas claras e cronogramas públicos. Aliados políticos de Trump, por outro lado, enxergam na pressão máxima uma oportunidade de arrancar do Irã concessões que não vieram em tentativas anteriores. Um integrante do círculo próximo ao ex-presidente afirma que “flexibilidade é vista como fraqueza em Teerã” e que “o único idioma respeitado é o da força”.

O método impacta diretamente a percepção de confiabilidade dos Estados Unidos. Parceiros na região, como países do Golfo, observam com cautela a combinação de ameaças verbais e mudanças súbitas de rumo. Para esses governos, o risco não é apenas a retórica, mas a possibilidade de decisões tomadas em horas, sem coordenação ampla, alterarem alianças de longo prazo e planos de defesa que envolvem orçamentos bilionários.

Enquanto o impasse persiste, cresce a sensação de que o estilo Trump não é um desvio pontual, mas uma linha contínua que atravessa décadas, do mundo corporativo à geopolítica. O livro que o consagrou como negociador nos anos 80 volta ao centro do tabuleiro, agora testado diante de um adversário que também opera sob lógica de resistência e cálculo interno. As próximas semanas dirão se a aposta em pressão total leva a um acordo improvável ou a uma nova rodada de crise aberta no Oriente Médio.

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