Ataque aéreo de Israel em Beirute mata sobrinho de líder do Hezbollah
Um ataque aéreo israelense na região de Beirute mata, nesta quinta-feira (9), Ali Yusuf Harshi, sobrinho e secretário pessoal do chefe do Hezbollah, Naim Qassem. O alvo é mais um nome de alto escalão atingido na campanha de Israel para enfraquecer o grupo libanês apoiado pelo Irã.
Golpe na cúpula do grupo amplia risco de escalada
As Forças de Defesa de Israel afirmam que a operação mira diretamente o núcleo de comando do Hezbollah no Líbano. “As Forças de Defesa de Israel atacaram na região de Beirute e eliminaram Ali Yusuf Harshi, secretário pessoal e sobrinho do secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem”, dizem os militares em comunicado divulgado poucas horas após o ataque.
O grupo libanês, classificado como organização terrorista por países como Estados Unidos e Israel e parte do governo libanês, ainda não confirma oficialmente a morte. A demora alimenta, ao mesmo tempo, expectativa de reação e disputa de narrativa em meio à guerra regional que se desenha desde o início de 2026.
O ataque ocorre em um momento de tensão extrema entre Israel, Hezbollah e Irã. Em 2 de março, o Hezbollah passa a atacar Israel de forma aberta, dois dias depois de Tel Aviv e Washington iniciarem uma campanha aérea contra o território iraniano. A entrada do grupo libanês consolida a guerra como um conflito regional, arrastando o Líbano para o centro de uma disputa que já envolve, direta ou indiretamente, Teerã, Jerusalém e Washington.
A ofensiva desta quinta-feira se soma a uma série de operações israelenses contra alvos considerados estratégicos do Hezbollah desde a morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, no primeiro dia da guerra. Israel promete, desde então, “responder com força” aos ataques de aliados de Teerã. O resultado é um rastro de bombardeios que, segundo autoridades locais, já mata mais de mil pessoas no Líbano e em outras frentes ligadas ao grupo xiita.
Campanha prolongada contra o Hezbollah reabre feridas no Líbano
A morte de Harshi é mais um capítulo de uma campanha de anos. Desde o início da guerra em Gaza, em 7 de outubro de 2023, Israel intensifica ataques contra o Hezbollah, acusado de usar o território libanês como plataforma para pressão militar ao norte da fronteira israelense. Assassinatos pontuais e destruição de infraestrutura militar debilitam capacidades do grupo, mas não interrompem seus lançamentos de mísseis e foguetes.
Em 2024, Israel mata o então líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, em um ataque aéreo a um subúrbio de Beirute. Foi o clímax de um conflito de mais de um ano, iniciado quando o grupo dispara contra posições israelenses na fronteira em apoio ao Hamas, em Gaza. Um mês depois, a organização escolhe Naim Qassem, figura central há mais de 30 anos na estrutura interna, para assumir o comando.
O cessar-fogo entre Israel e Líbano, firmado em 2024 com mediação dos Estados Unidos, não encerra a lógica de confronto. Apoiado por Washington, o acordo tenta congelar a frente norte e reduzir ataques cruzados. As tréguas, porém, são parciais. Israel mantém bombardeios regulares a alvos que identifica como depósitos de armas e centros de comando do Hezbollah, sob o argumento de que o grupo tenta se rearmar e se reposicionar.
O Hezbollah, por sua vez, recusa proposta americana para se desarmar em troca da extensão do cessar-fogo. Qassem responde com ameaça direta. Em discurso transmitido por canais ligados ao grupo, afirma que mísseis cairiam sobre cidades israelenses caso Tel Aviv retomasse uma guerra de larga escala contra o Líbano. O recado ecoa a trajetória do movimento, fundado em 1982 por militantes xiitas com apoio da Guarda Revolucionária do Irã para enfrentar a ocupação israelense no sul do país.
O alvo de hoje se encaixa nessa disputa. Como secretário pessoal de Qassem e parente próximo, Ali Yusuf Harshi circula no círculo mais restrito da liderança. Atingi-lo representa, para Israel, a chance de fragilizar a comunicação interna e o planejamento estratégico do grupo. Para o Hezbollah, a perda tende a ser tratada como mais um martírio, combustível para manter a mobilização de sua base.
Risco de nova rodada de violência e pressão internacional
A eliminação de um quadro tão próximo da chefia do Hezbollah aumenta o risco de uma resposta mais agressiva a curto prazo. Israel já opera há semanas em estado de alerta elevado em sua fronteira norte, temendo disparos de mísseis de maior alcance ou ataques coordenados com outros grupos alinhados ao Irã.
O ataque em Beirute também pressiona o frágil equilíbrio político interno do Líbano, onde o Hezbollah é, ao mesmo tempo, força armada e ator decisivo no governo. Comunidades civis, já impactadas por anos de crise econômica e pela destruição em áreas urbanas, convivem com o medo de uma nova rodada de combates intensos como a de 2006, que deixou mais de mil libaneses mortos em pouco mais de um mês.
No tabuleiro internacional, o bombardeio desta quinta-feira tende a reacender debates em capitais ocidentais sobre o alcance do apoio a Israel. Estados Unidos, principais aliados de defesa do país, tentam desde 2024 conter uma escalada aberta entre Israel e Hezbollah, temendo que um conflito total envolva diretamente o Irã e desestabilize rotas de energia e comércio no Oriente Médio.
Diplomatas na região avaliam que, se confirmada pelo próprio Hezbollah, a morte de Harshi pode virar um ponto de inflexão nas tentativas de mediação. Um movimento de retaliação mais amplo, com ataques além da fronteira norte de Israel ou em águas estratégicas, obrigaria Washington, Teerã e outros atores a reverem cálculos de risco e custo político.
O futuro imediato da região depende da resposta do Hezbollah e do ritmo da campanha aérea israelense. Autoridades ocidentais acompanham sinais de mobilização de tropas e comunicações interceptadas para medir se o ataque em Beirute é um golpe isolado ou o início de uma nova fase da guerra. Até que essa definição apareça, civis no Líbano, em Israel e em Gaza seguem à mercê de decisões tomadas em gabinetes militares e lideranças políticas que ainda não mostram disposição clara de recuar.
