Israel bombardeia Líbano em meio a frágil cessar-fogo entre EUA e Irã
Israel lança a maior onda de bombardeios contra o Hezbollah desde o início da ofensiva terrestre e mata ao menos 182 pessoas no Líbano nesta quarta-feira (8). O ataque ocorre menos de 24 horas após o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, que agora entram em choque público sobre se o acordo vale ou não para o território libanês.
Trégua em xeque e disputa sobre alcance do acordo
Os caças israelenses atingem cerca de 100 alvos em apenas 10 minutos no sul do Líbano, nos subúrbios ao sul de Beirute, no Vale do Bekaa e em áreas montanhosas. O Ministério da Saúde libanês confirma mais de 180 mortos e hospitais superlotados na capital, enquanto ambulâncias enfrentam ruas bloqueadas e o governo pede que moradores permaneçam em casa para liberar as vias.
O ataque ocorre no primeiro dia útil do cessar-fogo de 14 dias entre Washington e Teerã, anunciado na noite de terça-feira (7) por Donald Trump. O presidente americano suspende temporariamente os bombardeios ao território iraniano em troca da reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. As explosões no Líbano, porém, expõem imediatamente as brechas do entendimento.
Teerã afirma que o Líbano está incluído no acordo e acusa Washington de conivência com Israel. “Três pontos da proposta iraniana foram claramente violados”, escreve o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, na rede X, classificando como “irracionais” novos passos de negociação nessas condições. A Casa Branca responde que jamais aceitou essa interpretação.
Trump diz que Israel não viola os termos do entendimento e define o Líbano como um “confronto à parte”. O vice-presidente JD Vance reforça, em público, que os Estados Unidos “nunca prometeram incluir o Líbano no cessar-fogo”. O relato entra em choque com o do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, mediador das conversas, que sustenta que a trégua anunciada valeria também para o território libanês a partir desta quarta.
Benjamin Netanyahu explora a ambiguidade. O primeiro-ministro israelense afirma que Israel apoia a suspensão temporária dos ataques dos EUA contra o Irã, mas deixa claro que não se sente preso por ela no Líbano. “Estamos continuando a atingi-los com força”, diz, ao anunciar o que descreve como o maior golpe contra o Hezbollah desde o início da campanha ao norte da fronteira.
Escalada regional e ameaça no Estreito de Ormuz
O Hezbollah, partido e milícia xiita apoiado pelo Irã, é o alvo central da ofensiva israelense no Líbano há semanas. A liderança em Jerusalém repete que não deixará o país vizinho até “eliminar a ameaça” do grupo e proteger moradores do norte de Israel, que vivem sob risco constante de foguetes e incursões. O ministro da Defesa, Israel Katz, fala em “separar os cenários entre o Irã e o Líbano” para mudar de forma duradoura a realidade na fronteira.
Teerã reage elevando o tom. A Guarda Revolucionária Islâmica ameaça uma “resposta que vai causar arrependimento” se as agressões ao Líbano não cessarem. “Qualquer ataque ao orgulhoso Hezbollah é um ataque ao Irã”, afirma uma autoridade citada pela agência estatal Irna. O recado mira não só Israel, mas também os Estados Unidos, que mantêm navios e tropas em prontidão no Golfo Pérsico.
O Estreito de Ormuz, ponto mais sensível desse xadrez, volta ao centro das atenções. Mídias estatais iranianas anunciam que a passagem é novamente fechada em reação à continuidade dos ataques israelenses, e exibem dados de rastreamento de um navio com bandeira do Panamá que se aproxima da área e recua. Uma mensagem de rádio atribuída à Guarda Revolucionária, confirmada pela corretora de navios SSY, alerta que qualquer embarcação que tentar cruzar o estreito sem autorização será “alvejada e destruída”.
A Casa Branca contesta a versão iraniana. A porta-voz Karoline Leavitt chama as notícias de fechamento de “falsas” e diz que, em privado, os EUA recebem sinalizações de aumento no tráfego marítimo. Trump exige que Ormuz seja totalmente reaberto “imediatamente” e ameaça impor tarifa de 50% sobre todos os produtos de países que forneçam armas ao Irã.
O cessar-fogo, formalmente, prevê duas semanas de trânsito coordenado por forças iranianas no estreito, em troca da suspensão dos ataques diretos dos EUA ao Irã e da retomada de negociações sobre sanções. Teerã divulga um plano de 10 pontos que inclui o fim dos combates no Irã, Iraque, Líbano e Iêmen, o desbloqueio de ativos congelados e compensações de reconstrução. A Casa Branca diz que o documento não corresponde ao que recebeu e acusa “falsários” de distorcer o conteúdo das conversas.
Pressão internacional, petróleo em risco e próximos passos
Enquanto bombas caem em Beirute e no sul libanês, a pressão internacional aumenta. O primeiro-ministro do Líbano, Nawaf Salam, fala em “total desrespeito” de Israel ao direito internacional e apela a “todos os amigos do Líbano” para que usem “todos os meios disponíveis” a fim de conter a campanha militar. Agências locais descrevem hospitais lotados, colapso nos serviços de emergência e bairros densamente povoados transformados em alvo recorrente.
Um grupo de países ocidentais — Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Canadá, Dinamarca, Países Baixos, Espanha, além da Comissão Europeia e do Conselho Europeu — pede uma “paz rápida e duradoura” e cobra que “todas as partes” respeitem a pausa de duas semanas, inclusive no Líbano. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, deixa a Casa Branca dizendo que Trump está “claramente desapontado” com a aliança, e o presidente responde em rede social que a organização “não esteve ao nosso lado quando precisamos”.
No campo energético, a incerteza sobre Ormuz já se traduz em nervosismo. Mesmo sem bloqueio comprovado, a ameaça explícita às embarcações que cruzam o Golfo Pérsico eleva o prêmio de risco para petroleiras, seguradoras e armadores. Cerca de um quinto do petróleo global depende dessa rota, o que alimenta temores de alta súbita de preços e de repasse a combustíveis, fretes e alimentos em todo o mundo.
Os Estados Unidos tentam sustentar a narrativa de que controlam a escalada. Trump afirma que já “atingiu e superou todos os objetivos militares” no Irã e que agora discute “alívio de tarifas e sanções” com Teerã. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, garante que as tropas americanas “permanecem prontas e vigilantes” e podem retomar ataques “a qualquer momento” se o Irã descumprir o acordo.
No terreno, porém, a realidade é menos controlável. Israel mantém tropas em solo libanês e não dá sinal de recuo. O Irã vincula sua boa vontade no estreito ao fim dos ataques a seu aliado Hezbollah. Hezbollah, por sua vez, ainda calcula até onde pode responder sem arrastar diretamente Teerã para uma guerra aberta com Israel.
A trégua de duas semanas, vendida como janela para negociar um arranjo mais amplo, começa a se desgastar no primeiro dia. O balanço de 182 mortos no Líbano e a disputa pública sobre o status de Ormuz indicam que qualquer deslize pode levar a uma escalada rápida. A questão, agora, é se Washington, Teerã e Jerusalém conseguem transformar esse intervalo em ponte de saída ou se o cessar-fogo entra para a lista de trégua que só existem no papel.
