Lula condiciona reeleição a novo programa e defesa mais forte
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma, em entrevista nesta quarta-feira (8), que só entra na disputa pela reeleição em 2026 se apresentar um novo programa de governo. Ele defende a formação de uma aliança política ampla para barrar a volta de “fascistas” ao poder e volta a cobrar o fortalecimento da indústria de defesa para proteger as fronteiras e as riquezas naturais do país.
Lula cobra novo programa e aliança para 2026
Lula fala em tom de pré-campanha, mas evita cravar a candidatura. Diz que a decisão passa pela convenção do PT marcada para junho de 2026 e por um compromisso claro com um “programa novo” para o país. “Eu não decidi se serei candidato ainda. Vai ter uma convenção em junho, e eu, para decidir ser candidato, vou ter que apresentar um programa, vou ter que apresentar uma coisa nova para esse país”, afirma.
O presidente aposta na própria trajetória para sustentar essa virada. “Tenho o acúmulo de experiência que ninguém tem nesse país”, diz, ao comentar os três mandatos no Planalto, iniciados em 2003, além da passagem pela prisão entre 2018 e 2019 e da volta ao poder em 2023. A mensagem mira tanto a militância petista quanto o eleitorado que se afasta do governo, num cenário de economia ainda em recuperação e disputa política polarizada.
Ao falar da estratégia eleitoral, Lula antecipa a linha que pretende defender dentro do PT. “Eu vou pleitear ao PT a necessidade de a gente reconstruir uma aliança política forte para que a gente não permita que os fascistas voltem a governar esse país. Esse é o papel que eu tenho para jogar agora”, afirma. A escolha das palavras aciona diretamente a memória da gestão de Jair Bolsonaro, derrotado em 2022 com 50,9% dos votos válidos para Lula contra 49,1% do então presidente.
Defesa nacional ganha espaço no discurso eleitoral
O tema da segurança pública e da soberania entra no centro da narrativa. Lula volta a defender a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública, que tramita no Congresso, e vincula o debate à retomada da indústria de defesa no Brasil. “O mundo exige que o Brasil pense em defesa com mais seriedade. Inclusive, [é preciso] fortalecer a indústria da defesa, porque um país do tamanho do nosso não pode ficar desprovido de segurança”, afirma.
O presidente descreve um roteiro de riscos. Cita as extensas fronteiras secas e marítimas, que somam mais de 23 mil quilômetros, e lista ativos estratégicos como terras raras, água doce, minerais críticos, petróleo e a maior floresta tropical do planeta, a Amazônia, com cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados. “Qualquer dia, alguém resolve invadir a gente”, alerta, ao reclamar que “nós nunca levamos a sério a questão da segurança”.
As falas ecoam um debate que se arrasta há pelo menos duas décadas, desde a criação, em 2008, da Estratégia Nacional de Defesa, ainda no segundo mandato de Lula. O projeto previa investimentos pesados em reaparelhamento das Forças Armadas e desenvolvimento de tecnologia própria, como o programa de submarinos e a produção de caças. O orçamento, no entanto, sofre cortes e contingenciamentos sucessivos. Em 2025, o gasto militar brasileiro gira em torno de 1,1% do PIB, abaixo da média global de 2,3%, segundo estimativas de organismos internacionais.
Lula usa exemplos externos para reforçar o argumento. Sem citar datas, associa as intervenções do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a invasões e ataques para tomar recursos naturais de outros países. O petista afirma que o republicano “acha que é imperador” e insiste que o Brasil não pode ficar vulnerável a esse tipo de postura. “Nós somos um país muito grande, com potencial extraordinário”, diz.
Disputa eleitoral e soberania entram na mesma equação
O discurso mistura cálculo eleitoral e estratégia de Estado. Ao falar em “fascistas” e em risco à soberania, Lula busca unir a base em torno de um inimigo comum e retomar a narrativa de frente ampla que o leva de volta ao poder em 2022. A aposta é repetir, com novos termos, o arranjo que juntou PT, PSB, MDB, PSD e outras siglas em torno da defesa da democracia, agora com a segurança nacional no centro da agenda.
O movimento pressiona aliados e adversários a se posicionar. Dentro do PT, a fala aumenta a cobrança por um programa concreto até junho, com metas claras para emprego, renda, meio ambiente e defesa. Entre os partidos de centro, a ênfase em alianças amplas reabre a disputa por espaço em uma eventual chapa presidencial e em ministérios estratégicos, caso Lula confirme a candidatura e vença.
No plano internacional, a crítica a Trump tende a provocar reação, especialmente se o republicano mantiver protagonismo na política dos Estados Unidos em 2026. A relação entre Brasília e Washington já alterna momentos de parceria e atrito em temas como clima, comércio e guerra na Ucrânia. Um discurso mais duro sobre soberania e defesa pode aproximar o Brasil de outros países do Sul Global e fortalecer blocos como o Brics, que hoje reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mas também acende alerta em chancelerias ocidentais.
O fortalecimento da indústria de defesa tem impacto direto em setores como metalurgia, tecnologia da informação, aviação e pesquisa militar. Projetos de submarinos, aeronaves e sistemas de monitoramento de fronteiras movimentam bilhões de reais e geram empregos de alta qualificação. Empresários do setor pressionam por previsibilidade orçamentária e contratos de longo prazo, condição essencial para manter equipes especializadas e desenvolver tecnologia própria em um ciclo que dura, muitas vezes, mais de dez anos.
Calendário eleitoral e debate sobre segurança ditam próximos passos
Os próximos meses serão decisivos para transformar discurso em proposta. Até junho de 2026, o PT precisa fechar o programa que Lula promete apresentar caso confirme a candidatura. É nesse documento que devem aparecer números de investimentos em defesa, metas para a indústria estratégica e diretrizes para a política externa. A PEC da Segurança Pública também entra nessa equação: sem avanço no Congresso, o discurso de urgência perde força.
No campo político, a construção da aliança “forte” defendida por Lula enfrenta resistências regionais, divergências sobre cargos e disputas internas em partidos de centro e centro-direita. Governadores, prefeitos e líderes do Congresso calculam o custo de se alinhar a um projeto que fala em barrar “fascistas”, mas também em negociar com setores conservadores para garantir maioria. A dúvida que fica, a dois anos da eleição, é se o presidente conseguirá transformar a promessa de um programa novo em pacto real de poder ou se ficará preso ao embate retórico com seus adversários.
