Cleitinho mira fim da escala 6×1 e pensão a filhas de militares
O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), pré-candidato ao governo de Minas, volta a atacar a escala 6×1 e as pensões de filhas solteiras de militares em abril de 2026. Em discurso no plenário do Senado e nas redes sociais, ele defende jornada 5×2, corte de benefícios militares e redução de impostos para trabalhadores e empresários.
Discurso no Senado acirra debate sobre privilégio e carga de trabalho
O vídeo publicado no X, antigo Twitter, mostra um Cleitinho inflamado, falando para uma plateia esvaziada no plenário, mas de olho na audiência digital. Ele associa o fim da escala 6×1 ao que chama de “coragem” para enfrentar privilégios históricos, em especial a pensão paga a filhas solteiras de militares. Segundo o senador, esse benefício custa R$ 6 bilhões por ano aos cofres públicos.
“Sabe quanto isso custou em 2025? R$ 6 bilhões. Essa turma aqui, essas filhas de militar aqui, ‘isso’ nunca trabalhou na vida. Isso é um verdadeiro escárnio, um murro na cara da população brasileira”, afirma no vídeo. Cleitinho mira o contraste entre o benefício e a rotina de quem trabalha seis dias por semana por salários baixos. “Você, trabalhador, que tá fazendo essa escala 6×1, recebendo R$ 1.600, pegando ônibus lotado pra ir trabalhar, tem que manter isso aqui. Quem mantém essa turma são os empresários e trabalhadores.”
O ataque ganha força porque se apoia em um projeto ligado ao governo Lula, algo incomum para um senador de direita. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que pode acabar com a escala 6×1 nasce na base de esquerda da Câmara, articulada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Cleitinho, porém, tenta se apresentar como um elo entre o discurso de austeridade fiscal e a defesa de mais descanso semanal para o trabalhador formal.
Ele afirma apoiar a mudança da jornada para um modelo 5×2, com dois dias consecutivos de folga. A justificativa se apoia também na rotina dos próprios parlamentares. “Sou a favor do fim da escala 6×1, sou a favor da escala 5×2. Nenhum político da face da Terra, de vereador a presidente da República, tem moral para falar sobre não acabar com o fim da escala, porque aqui nós fazemos 3×4. Nunca vi o plenário trabalhar em dia de quinta”, provoca.
Entre a esquerda e a direita, a disputa pela narrativa do trabalho
O posicionamento abre um flanco inesperado no campo político de Cleitinho, que se projeta nacionalmente como voz conservadora e antipetista. Ao defender uma pauta associada ao governo Lula, ele passa a ser chamado de “esquerdista” por parte da própria base nas redes. Os comentários vão de ironia a hostilidade aberta. “Você é o clássico caso do cara que só se diz de direita porque não estudou o suficiente ainda. Vem pra esquerda, querido”, escreve um usuário. Outro afirma: “Ele tá com discurso de esquerda. Será a eleição se aproximando?”.
Há também elogios que vêm de fora de sua bolha tradicional. Usuários que costumam discordar do senador admitem concordância pontual. Um deles destaca: “Você é corajoso por ser de direita e defender pautas da esquerda que beneficiam o povo, um dos poucos. Máximo respeito, Cleitinho, você tá sendo político de verdade”. A reação mistura surpresa, cálculo eleitoral e disputa de rótulos em um momento em que o senador consolida sua pré-candidatura ao governo de Minas Gerais.
Parte dos críticos acusa o parlamentar de “socialista” e prevê efeito devastador para o comércio e serviços. “Discurso de socialista, o povo vai fazer o que nos dois dias que ficar em casa? Porque os restaurantes, lojas, shoppings vão fechar, não tem empresa que aguente essa escala”, escreve um usuário. Outro recorre à Bíblia para defender o 6×1: “A própria Bíblia diz que Deus trabalhou seis dias e no sétimo descansou, então desde que o mundo é mundo existe essa escala”. As reações expõem um debate ainda pouco informado sobre o que, de fato, está em discussão na Câmara.
A PEC de Erika Hilton altera o artigo 7º da Constituição e estabelece jornada máxima de 36 horas semanais, distribuídas ao longo da semana com limite de oito horas por dia. Nesse desenho, é possível um modelo de quatro dias de trabalho, desde que a carga total não ultrapasse as 36 horas. A proposta foi apensada à PEC de Reginaldo Lopes, que prevê jornadas como a 5×2, com sete horas diárias em setores como o bancário. O governo Lula sinaliza simpatia à agenda, mas evita cravar apoio integral antes de negociar com empresas e centrais sindicais.
Impacto para trabalhadores, militares e cofres públicos
A discussão sobre o fim da escala 6×1 não acontece no vazio. Uma pesquisa da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados mostra que 63% dos brasileiros apoiam o fim do modelo atual. Outros 22% são contra, mas quase metade desse grupo, 10 pontos percentuais, admite repensar a posição se houver garantia de que os salários não serão reduzidos. O dado mais revelador está no grau de informação: só 12% dizem entender bem o projeto, 62% já ouviram falar, e 35% nunca ouviram falar do tema.
Na prática, a mudança atinge milhões de trabalhadores do comércio, serviços e indústria que hoje vivem com um dia fixo de descanso por semana. Um modelo 5×2 ou de quatro dias amplia o tempo livre, mas pressiona a organização das empresas, especialmente as que funcionam todos os dias. Representantes do setor produtivo, ainda discretos no debate público, falam em aumento de custos trabalhistas e necessidade de contratar mais funcionários para manter o mesmo horário de funcionamento.
Do outro lado, sindicatos e movimentos de trabalhadores enxergam uma oportunidade histórica de rever uma estrutura que consideram exaustiva e desatualizada. Argumentam que a produtividade cresce com mais descanso e que o Brasil precisa acompanhar discussões globais sobre semanas mais curtas de trabalho. O governo observa o embate com cuidado, atento ao impacto nas contas públicas, na arrecadação e nos índices de emprego.
Ao vincular o fim da escala 6×1 ao corte da pensão para filhas de militares, Cleitinho tenta amarrar duas agendas sensíveis: direitos trabalhistas e privilégios de castas do funcionalismo. Ele sustenta que “fonte de riqueza é o trabalhador e o empresário”, enquanto “fonte de despesa é os Três Poderes”. A crítica mira diretamente os militares, um dos pilares do bolsonarismo, que reagem nos bastidores e argumentam se tratar de direito adquirido, protegido por lei e por decisões anteriores do Supremo.
Campanha em Minas, pressão em Brasília e futuro da PEC
A ofensiva de Cleitinho ocorre a poucos meses do início oficial da campanha para o governo de Minas Gerais. O senador aposta em bandeiras de corte de gastos, combate a privilégios e ampliação de direitos trabalhistas como forma de ocupar um espaço de “direita popular”, crítica tanto ao PT quanto a setores tradicionais da direita. A viralização do vídeo alimenta essa estratégia, mas também tensiona suas relações com militares e lideranças conservadoras que o apoiaram em 2022.
Em Brasília, a PEC do fim da escala 6×1 segue em tramitação na Câmara dos Deputados. A etapa decisiva passa pela Comissão de Constituição e Justiça e por uma comissão especial, antes de chegar ao plenário. Negociações com empresários, centrais sindicais e a área econômica do governo devem definir ajustes no texto, principalmente sobre prazos de transição, compensações e garantias salariais.
O debate sobre a pensão das filhas solteiras de militares, reacendido pelo discurso de Cleitinho, tende a voltar ao centro da pauta fiscal. Técnicos do governo calculam que qualquer mudança significativa depende de alteração constitucional ou de decisão do STF sobre a extensão dos direitos adquiridos. O tema é explosivo em ano eleitoral, sobretudo porque atinge um grupo pequeno, mas politicamente organizado.
Enquanto a tramitação avança e a campanha em Minas ganha corpo, permanece em aberto uma questão central: o eleitor vai premiar quem promete mais descanso e menos privilégio, ou vai recuar diante do temor de impacto na economia e no emprego? A resposta, nos próximos meses, deve definir não apenas o futuro da escala 6×1, mas também o espaço político de um senador que testa os limites entre direita e esquerda em plena polarização.
