Tarcísio apoia PEC de Flávio Bolsonaro e mira fim da reeleição
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), declara em abril de 2026 apoio à PEC de Flávio Bolsonaro que muda as regras da reeleição presidencial. O movimento reacende no Congresso a disputa sobre os limites de poder do presidente da República e reorganiza tabuleiros para a eleição de 2026.
Tarcísio entra no jogo da sucessão de 2026
Tarcísio escolhe um tema sensível para marcar posição nacional: a reeleição. Em declarações públicas, afirma que o modelo em vigor, adotado em 1997, “está fazendo mal para o Brasil” e precisa ser revisto. O apoio à PEC apresentada por Flávio Bolsonaro, hoje um dos principais nomes da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aproxima ainda mais o governador do projeto presidencial do clã Bolsonaro.
A proposta de emenda à Constituição, que precisa do aval de 3/5 dos parlamentares em dois turnos na Câmara e no Senado, mira diretamente as regras que permitem ao presidente disputar um segundo mandato consecutivo. Interlocutores de Tarcísio descrevem a iniciativa como um “freio” à lógica de campanhas permanentes no Palácio do Planalto, em ciclos de quatro anos. Segundo aliados, o governador sustenta em conversas reservadas que presidentes passam a governar pensando em pesquisa de opinião, não em reformas estruturais de longo prazo.
Reeleição volta ao centro da crise política
O modelo atual de reeleição vigora há quase 30 anos e molda todas as disputas desde 1998. Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro disputam segundos mandatos sob essa regra, com três deles reeleitos. Críticos associam o sistema ao uso intensivo da máquina federal em favor de quem está no cargo, do controle de bilhões de reais em emendas parlamentares ao comando de bancos públicos e estatais estratégicas.
A intervenção de Tarcísio ocorre em meio a um Congresso fragmentado, em que o centrão, bloco de partidos médios e grandes, comanda algo em torno de 250 das 513 cadeiras da Câmara. É nesse grupo que o governador atua, por meio de emissários, para tentar pavimentar o caminho da PEC. O cálculo político é direto: sem o centrão, nenhuma mudança constitucional avança; com o centrão, a proposta pode saltar de uma discussão de nicho para o centro da pauta legislativa em questão de semanas.
Centrão vira fiel da balança na mudança das regras
A articulação se dá em mesas discretas, em jantares em Brasília e São Paulo, e em telefonemas quase diários com líderes partidários. Deputados relatam que emissários de Tarcísio testam cenários, sondam resistências e oferecem, em troca de apoio, participação em um eventual futuro governo de Flávio Bolsonaro. A negociação envolve cargos, presidências de comissões estratégicas e controle de fatias relevantes do Orçamento, que hoje soma mais de R$ 5,5 trilhões anuais.
Nos bastidores, parlamentares do centrão avaliam que o fim ou a restrição da reeleição pode reduzir a força de presidentes em exercício e valorizar o próprio Congresso, que passaria a ter peso maior na sucessão. Lideranças de oposição, por outro lado, veem na PEC um movimento casuístico para ajustar o tabuleiro à candidatura de Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, abrir caminho para Tarcísio em 2030, sem esvaziar o campo bolsonarista.
Quem ganha e quem perde com a PEC
Governadores e prefeitos acompanham com atenção. Muitos se elegeram contando com a possibilidade de disputar a reeleição em 2028 ou 2030. Uma mudança brusca nas regras, ainda em 2026, pode alterar planos pessoais e rearranjar alianças regionais. Especialistas em direito constitucional lembram que qualquer alteração terá de respeitar o princípio da anterioridade eleitoral, que exige aprovação com pelo menos um ano de antecedência da próxima eleição presidencial.
No Palácio do Planalto, auxiliares de Lula avaliam que a manobra busca esvaziar a força do governo e criar uma narrativa de desgaste institucional. O entorno do presidente sustenta que a reeleição não é o problema em si, mas o uso irregular da máquina pública, já coibido por leis como a de responsabilidade fiscal e pela fiscalização de órgãos de controle. Aliados de Tarcísio respondem que, na prática, esses freios não impedem que o presidente tenha, durante quatro anos, vantagens desproporcionais em comparação a possíveis adversários.
Debate histórico ganha novo fôlego
A discussão sobre reeleição reaparece ciclicamente na política brasileira. Desde a aprovação da emenda que permitiu ao então presidente Fernando Henrique disputar um segundo mandato, em 1998, o tema acumula críticas, suspeitas e tentativas de revisão. Governos petistas cogitam, em mais de uma ocasião, substituir a reeleição por mandatos de cinco anos, sem sucesso. Propostas parecidas tramitam há pelo menos 20 anos e nunca chegam ao fim da fila.
Tarcísio tenta agora vestir a camisa de quem deseja encerrar esse ciclo. “O país entra em campanha permanente, e isso impede decisões impopulares, mas necessárias. É preciso virar essa página”, repete a interlocutores, segundo relatos de aliados. A frase circula em reuniões fechadas e em conversas com empresários, preocupados com o efeito de sobressaltos políticos sobre investimentos de longo prazo, especialmente em infraestrutura, área em que o governador constrói sua imagem técnica desde que comandou o Ministério da Infraestrutura entre 2019 e 2022.
Próximos passos no Congresso e na disputa de 2026
A PEC de Flávio Bolsonaro precisa ser admitida pela Comissão de Constituição e Justiça, primeira etapa do caminho legislativo, antes de ser enviada a uma comissão especial. O processo costuma levar meses, mas pode ser acelerado por acordos de liderança. Se avançar até o fim de 2026, a proposta terá impacto direto nas regras que valerão em 2030 e, dependendo do texto final, poderá atingir também governos estaduais e prefeituras.
No horizonte imediato, o apoio vocal de Tarcísio projeta o governador para o centro da discussão nacional e o obriga a se posicionar com clareza sobre seu próprio futuro político. A dúvida que fica, no Congresso e fora dele, é se a mudança de regras nasce para corrigir distorções do sistema ou para consolidar um novo arranjo de poder em torno do bolsonarismo. A resposta vai depender menos dos discursos públicos e mais das próximas votações em plenário.
