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Irã ignora ultimato dos EUA e aposta em guerra de resistência

O governo do Irã desafia, nesta terça-feira (7), o ultimato dos Estados Unidos para encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro. Em Teerã, a aposta é manter a ofensiva diplomática e militar mesmo sob o risco de escalar o conflito no Golfo Pérsico.

Teerã testa limites de Washington em plena contagem regressiva

O prazo dado por Donald Trump, às 20h desta terça (7), horário da Costa Leste dos EUA, se aproxima sem sinal de recuo iraniano. Quando forem 3h30 da manhã de quarta-feira (8) em Teerã, o ultimato americano expira, mas nada indica que o regime esteja disposto a aceitar as condições impostas pela Casa Branca.

Autoridades iranianas calculam, desde antes do primeiro disparo, que conseguem suportar uma guerra curta com Washington se ao final impuserem seus próprios termos. A estratégia se apoia na capacidade de paralisar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no mundo, e forçar Trump a negociar sob pressão crescente dos mercados de energia.

Explosões são ouvidas na ilha iraniana de Kharg, ponto crucial da infraestrutura petrolífera do país, segundo agências internacionais. Ao mesmo tempo, o presidente iraniano afirma que “milhões estão prontos para se sacrificar pelo país”, mensagem dirigida tanto à opinião pública interna quanto aos adversários externos.

Teerã exibe uma psicologia de resistência prolongada. A ideia, repetida em discursos e comunicados, é suportar o sofrimento imediato em nome de ganhos estratégicos futuros. Essa narrativa busca blindar o governo contra pressões internas por um acordo rápido, ao mesmo tempo em que sinaliza a Washington que ataques aéreos e sanções adicionais não dobram o país da noite para o dia.

Estratégia de sofrer agora para cobrar depois

Desde 28 de fevereiro, quando o conflito atual começa, analistas em Teerã descrevem uma lógica de confronto controlado. O plano, segundo diplomatas estrangeiros ouvidos reservadamente, é resistir o suficiente para transformar a ofensiva americana em um custo político e econômico insustentável para a Casa Branca.

A superação da meta inicial de apenas forçar Trump a aceitar uma queda no preço do petróleo reforça a confiança iraniana. Com o estreito sob ameaça recorrente e rotas marítimas vitais sujeitas a interrupções e taxas informais – descritas por fontes ocidentais como extorsão –, o Irã ganha tempo e margem de manobra. A economia global sente o efeito em variações diárias nas cotações do barril e no frete marítimo na região.

Teerã lê o histórico recente de guerras ocidentais como um manual de sobrevivência. No Kosovo, em 1999, meses de ataques da Otan não paralisam as tropas sérvias de imediato. No Iraque, em 1991 e 2003, campanhas aéreas esmagadoras derrubam regimes, mas abrem ciclos longos de instabilidade. Em 2006, bombardeios de Israel no Líbano derrubam pontes e estradas, mas não eliminam o Hezbollah. Para estrategistas iranianos, esses episódios mostram que ataques aéreos e mísseis, por si só, são “mais incômodo que sentença”, como define um assessor de política externa ouvido por telefone.

A avaliação em Teerã é que os Estados Unidos também carregam cicatrizes recentes. A hesitação de Trump em cumprir prazos anteriores para “esmagar o Irã” alimenta a percepção de que a pressão americana tem limites. Cada ultimato adiado reforça, na visão iraniana, a tese de que Washington teme um atoleiro prolongado e oscila entre ameaças máximas e recuos táticos.

A retórica dentro da administração Trump contrasta com essa leitura. Assessorias e generais próximos ao presidente falam em “leis de ferro do mundo”, nas quais nações fortes impõem sua vontade pela força. O cálculo iraniano testa exatamente essa premissa: quanto tempo uma potência disposta a usar poder militar aguenta uma guerra de desgaste em uma região que concentra cerca de 30% das exportações globais de petróleo?

Impacto regional, pressão econômica e risco de escalada

A recusa iraniana em atender ao ultimato americano prolonga a incerteza no Oriente Médio. Países do Golfo acompanham, em silêncio público e intensa atividade diplomática privada, a combinação de riscos militares e oportunidade financeira com a alta do petróleo. Exportadores como Arábia Saudita e Emirados podem ganhar com preços acima de US$ 90 o barril, mas sabem que um erro de cálculo no Estreito de Ormuz pode atingir sua própria infraestrutura.

No mercado global de energia, operadores trabalham com cenários de interrupção parcial de embarques por dias ou semanas. Um fechamento total do estreito por 48 horas já seria suficiente, segundo casas de análise em Londres, para disparar nova rodada de alta em combustíveis, pressionar inflação em economias dependentes de importação e mexer em decisões de bancos centrais.

A resistência de Teerã fortalece, no curto prazo, alas do regime que defendem a linha mais dura. Guardiões da Revolução e setores da inteligência encontram, na disposição de enfrentar Washington, argumento adicional para manter controle rígido sobre opositores, sobretudo em grandes centros urbanos. Espaços para vozes moderadas, que defendem concessões em troca de alívio econômico, encolhem a cada bombardeio e a cada ameaça de sanções adicionais.

Governos europeus tentam evitar uma escalada sem controle, pressionando por canais de diálogo indireto entre Washington e Teerã. Diplomatas em Bruxelas e Genebra falam em “janela estreita” para algum tipo de trégua técnica que permita ao menos estabilizar o fluxo de navios-tanque. Em público, porém, poucos se arriscam a contrariar abertamente a linha americana.

Negociações mais duras e um tabuleiro em aberto

Com o ultimato vencendo e o Irã firme em sua posição, o próximo movimento deve ocorrer em duas frentes. Em campo militar, novas ações americanas contra alvos estratégicos iranianos, como depósitos de petróleo, instalações navais e sistemas de defesa aérea, permanecem na mesa. Em campo diplomático, cresce a aposta em mediadores regionais e em potências como Rússia e China para arrancar de Teerã algum gesto que possa ser apresentado por Trump como vitória parcial.

As negociações tendem a ficar mais longas e ásperas. Quanto mais o Irã demonstra resiliência, mais alto cobra pela redução de sua pressão sobre o Estreito de Ormuz e pela contenção de forças aliadas em países vizinhos. A incerteza aumenta o custo político para o presidente americano, que precisa equilibrar discurso de força com o impacto da guerra sobre eleitores, empresas e aliados.

O Oriente Médio entra, assim, em um ciclo em que cada dia a mais de confronto reforça a lógica da resistência iraniana e encarece a saída para Washington. A pergunta que permanece, à beira da meia-noite em Teerã, é quem cede primeiro: um regime disposto a sofrer por anos em busca de ganhos futuros ou uma superpotência que promete impor “leis de ferro” ao mundo, mas enfrenta limites reais de paciência, recursos e apoio internacional.

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