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Irã ameaça deixar Oriente Médio às escuras após ultimato de Trump

Uma autoridade iraniana ameaça cortes totais de energia na Arábia Saudita e o fechamento de uma rota estratégica do petróleo se os EUA atacarem instalações nucleares do Irã. O aviso chega na segunda (6), véspera do prazo final imposto por Donald Trump para um acordo sobre o Estreito de Ormuz.

Risco de apagão regional e rota do petróleo sob ameaça

A mensagem circula em silêncio pelos canais diplomáticos de Doha. Segundo uma fonte iraniana que pede anonimato, o Catar transmite aos Estados Unidos e a governos do Golfo um recado direto de Teerã: se Washington bombardear as usinas nucleares iranianas, “toda a região e a Arábia Saudita ficarão completamente às escuras com os ataques retaliatórios do Irã”.

No mesmo aviso, a fonte alerta que, se a escalada fugir ao controle, aliados de Teerã podem fechar o Estreito de Bab el-Mandeb, ponto de passagem de navios que ligam o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. A ameaça atinge uma das artérias do comércio marítimo global, crucial para o transporte de petróleo do Golfo em direção à Europa e aos Estados Unidos.

O recado iraniano chega em um momento em que a região vive novas horas de contagem regressiva. Trump estabelece para as 20h desta terça-feira (7), horário de Washington — 21h em Brasília e 3h30 de quarta (8) em Teerã — o prazo final para que o Irã aceite um acordo e reabra totalmente o Estreito de Ormuz. Caso contrário, promete “inferno” e bombardeios maciços contra infraestruturas estratégicas iranianas.

Teerã, em público, reage endurecendo o tom. “Não há negociações com os EUA, que querem que o Irã se renda sob pressão”, afirma a mesma fonte, ecoando a posição oficial do regime. Segundo ela, os canais indiretos com Washington seguem ativos, por meio do Paquistão, mas sem qualquer sinal de recuo enquanto as exigências americanas forem vistas como capitulação.

Ultimato de Trump e debate sobre crime de guerra

Desde domingo (5), o presidente americano usa sua rede social, a Truth Social, para dar forma ao ultimato. Em uma sequência de mensagens, recheadas de palavrões, repete que está pronto para ordenar ataques contra “todas as pontes e usinas de energia do Irã” até a meia-noite desta terça-feira, no horário de Washington. “Quero dizer, demolição completa até meia-noite”, afirma.

O alvo não se limita a instalações militares. Trump já menciona poços de petróleo, estruturas portuárias e usinas de dessalinização, vitais para o abastecimento de água em um dos desertos mais secos do planeta. As declarações abrem uma disputa jurídica e política em Washington e em capitais aliadas sobre a fronteira entre pressão militar e crime de guerra.

As Convenções de Genebra proíbem ataques deliberados contra objetos indispensáveis à sobrevivência da população civil, como estações de tratamento de água e redes elétricas. Em situações específicas, a infraestrutura pode ser classificada como alvo militar legítimo, quando tem uso direto nas operações de guerra. O discurso do presidente, no entanto, vai além desse limite técnico ao prometer destruir “todas” as usinas de energia do país.

“Há muitos ex-advogados militares e juristas que têm hesitado em afirmar que qualquer bombardeio contra infraestrutura civil constitui um crime de guerra, porque existem casos em que isso é permitido. Mas a retórica do presidente neste fim de semana, para mim e acredito que para muitos outros, mudou nossa opinião sobre isso”, afirma Margaret Donovan, ex-advogada do Corpo Jurídico do Exército dos EUA. “Estamos testemunhando basicamente uma ameaça direta a algo que sabemos que será catastrófico para os civis.”

Trump minimiza as críticas. Questionado sobre o risco de violar o direito internacional, responde que o verdadeiro crime de guerra seria “permitir que o Irã tivesse uma arma nuclear”. A Casa Branca tenta conter o desgaste e insiste, em notas oficiais, que os Estados Unidos “sempre” seguem as normas internacionais, mesmo quando o presidente sugere o contrário em público.

Diplomacia travada e temor no Golfo

O impasse diplomático aprofunda o temor nos países do Golfo, que já se sentem na linha de tiro. Governos árabes, segundo fontes regionais, procuram discretamente assessores de Trump para alertar que uma ofensiva total contra a infraestrutura iraniana pode desencadear uma reação em cadeia contra instalações civis na Arábia Saudita, nos Emirados e em outros produtores de petróleo.

O Irã acusa os Estados Unidos e Israel de terem iniciado essa escalada contra alvos civis. A mídia estatal iraniana relata o bombardeio da ponte B1, nos arredores de Teerã, na sexta (3), além de múltiplos ataques recentes contra a usina nuclear de Bushehr, principal símbolo do programa nuclear civil do país. Washington não assume a autoria, mas também não recua da pressão militar.

Nos bastidores, Paquistão, Egito e Turquia tentam manter de pé algum tipo de canal entre as duas potências rivais. As conversas indiretas, segundo fontes diplomáticas, travam na semana passada, e a ideia de um encontro presencial perde força. No domingo, um grupo de países apresenta uma proposta de cessar-fogo de 45 dias, que prevê também a reabertura do Estreito de Ormuz sob monitoramento internacional.

Trump chama o plano de “passo significativo”, mas rejeita o texto. “Não é suficiente”, afirma, reforçando que só ele pode determinar se haverá ou não cessar-fogo. Teerã também recusa. Para o governo iraniano, uma pausa de um mês e meio apenas daria tempo para que os adversários reagrupem forças. A resposta enviada por Teerã, segundo a imprensa estatal, vem em dez pontos e condiciona qualquer trégua ao fim permanente da guerra “de acordo com as considerações do Irã”.

Impacto global da ameaça de escuridão

A combinação entre o ultimato americano e a ameaça de retaliação iraniana deixa a região em um estado de nervosismo permanente. Um apagão total na Arábia Saudita, mesmo que de poucas horas, afetaria diretamente refinarias, oleodutos, terminais portuários e aeroportos. O país responde por cerca de 15% das exportações mundiais de petróleo, e qualquer interrupção abrupta na oferta tem potencial para disparar os preços internacionais do barril.

O cenário se torna mais sensível com a possibilidade de fechamento simultâneo de duas passagens estratégicas: o Estreito de Ormuz, já parcialmente afetado pela crise, e Bab el-Mandeb, na entrada sul do Mar Vermelho. Juntas, essas rotas concentram uma fatia relevante do comércio marítimo global de energia e de mercadorias. Navios cargueiros que ligam a Ásia à Europa poderiam ser obrigados a percorrer rotas mais longas, contornando a África, pressionando custos de frete e prazos de entrega.

Os efeitos não se restringem aos mercados financeiros. Em um Oriente Médio fortemente dependente de eletricidade para dessalinizar água e climatizar cidades sob temperaturas que superam 45ºC no verão, a simples perspectiva de ataques contra usinas de energia desperta pânico em populações civis. Hospitais, sistemas de transporte urbano e redes de comunicação entram no cálculo de risco de analistas de segurança.

A ameaça de deixar o Oriente Médio às escuras também funciona como recado político. Ao colocar a Arábia Saudita no centro de um possível ataque de retaliação, o Irã sinaliza que seus rivais regionais pagariam parte da conta de uma decisão americana de atacar instalações nucleares. Seja qual for o desfecho do ultimato de Trump, Riad se vê cada vez mais enredada entre a proteção militar dos Estados Unidos e o risco de se tornar alvo preferencial de Teerã.

Horas finais de um ultimato aberto

Com o relógio avançando para o limite das 20h de terça em Washington, poucas capitales apostam em uma solução rápida. Diplomatas envolvidos nas negociações descrevem um quadro de desconfiança mútua, em que cada concessão é lida internamente como sinal de fraqueza. Em Teerã, o discurso oficial reforça que o país não aceitará “rendição sob pressão”. Em Washington, Trump insiste que apenas uma abertura completa do Estreito de Ormuz e limites claros ao programa nuclear iraniano podem evitar um ataque.

Os próximos dias indicam se a retórica se mantém no terreno das ameaças ou se avança para ações militares concretas. Um ataque americano a usinas nucleares ou à rede elétrica iraniana provavelmente desencadearia a onda de retaliações anunciada por Teerã, com riscos imediatos para a Arábia Saudita e para o tráfego em Bab el-Mandeb. Se a diplomacia falhar mais uma vez, a pergunta que domina a região passa a ser menos “se” e mais “quando” a escuridão prometida começará a se espalhar.

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