Iranianos fazem correntes humanas para proteger pontes e usinas sob ameaça de Trump
Milhares de iranianos formam correntes humanas em torno de pontes e centrais elétricas nesta terça-feira (7), em todo o país, horas antes do fim de um ultimato de Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos ameaça bombardear infraestruturas civis do Irã se o governo não reabrir o Estreito de Ormuz até as 21h (horário local). A população responde ocupando, com o próprio corpo, os alvos mais prováveis de um ataque.
Protesto silencioso diante da ameaça
As primeiras imagens chegam de Teerã por volta das 8h. Em pouco mais de duas horas, a cena se repete em grandes cidades como Isfahan, Shiraz, Tabriz e Mashhad. Trabalhadores, estudantes, aposentados e famílias inteiras se dão as mãos em volta de viadutos, subestações e usinas térmicas, muitos vestidos de preto ou com a bandeira iraniana sobre os ombros. Não há carros de som nem palavras de ordem constantes. O gesto é simples e calculado: transformar cada ponto de infraestrutura estratégica em um espaço ocupado por civis.
Videos publicados em redes sociais mostram filas de pessoas com mais de 500 metros cercando pilares de pontes e cercas de usinas. Em uma subestação na periferia de Teerã, uma funcionária de 32 anos, que se apresenta apenas como Sara, resume o clima. “Ele diz que vai bombardear nossa energia, nossas estradas. Então estamos aqui para dizer que não somos números em um mapa”, afirma. A presença constante de famílias com crianças pequenas reforça a aposta em um protesto pacífico, pensado para comover a opinião pública internacional e constranger a Casa Branca.
Estreito de Ormuz no centro da crise
O impasse gira em torno do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia. Desde o início do mês, navios-tanque enfrentam inspeções rígidas e atrasos impostos por forças iranianas, o que provoca alta de até 8% nas cotações internacionais do barril em uma semana. Em resposta, Trump estabelece um prazo até as 21h desta terça-feira, horário de Teerã, para que o tráfego marítimo seja normalizado sob supervisão americana.
Diplomatas em Bruxelas, Viena e Nova York tentam, nos bastidores, costurar um acordo de último minuto que evite um confronto direto. O governo iraniano não confirma qualquer recuo e acusa Washington de “chantagem armada”. Analistas em Teerã lembram que o país já vive sob sanções econômicas pesadas desde a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear, em 2018, e vê no estreito uma das poucas cartas de pressão. “A população entende o risco, mas também sente que não pode aceitar que um presidente estrangeiro decida quais pontes ficarão de pé”, diz um professor de relações internacionais de uma universidade pública na capital.
Unidade interna e recado externo
As correntes humanas se espalham com velocidade incomum para um país de mais de 85 milhões de habitantes, com forte controle estatal sobre a mobilização política. Em bairros operários, metalúrgicos deixam as fábricas mais cedo para se juntar aos protestos. Em cidades menores, comerciantes fecham as portas por algumas horas. A televisão estatal transmite imagens aéreas de grandes anéis de pessoas em volta de centrais elétricas, enquanto apresentadores descrevem a movimentação como “escudo humano voluntário pela pátria”. A expressão serve ao discurso oficial, mas também condensa um sentimento mais difuso de vulnerabilidade coletiva.
Os manifestantes também falam com o exterior. Cartazes em inglês, francês e árabe trazem frases curtas, como “We are not targets” e “No war on civilians”. Uma mulher de 54 anos, que se identifica como Fariba, segura um cartaz manuscrito na margem de uma ponte em Isfahan: “Não temos mísseis aqui, só pessoas”. Ao lado dela, um jovem acrescenta: “Se eles atacarem, o mundo vai ver quem estava debaixo das bombas”. A aposta é que imagens de cidadãos comuns protejam, ao menos politicamente, estruturas que não foram projetadas para suportar um bombardeio moderno.
Mercado de energia em alerta
A tensão se reflete de imediato nos mercados. Operadores em Londres e Cingapura acompanham, em tempo real, as notícias vindo de Ormuz e das cidades iranianas. Uma simulação divulgada por consultorias estrangeiras aponta que um incidente grave na região poderia cortar temporariamente até 15 milhões de barris por dia da oferta global, pressionando preços e inflacionando custos de transporte em todo o planeta. O receio é que qualquer erro de cálculo, de um lado ou de outro, gere um efeito cascata sobre cadeias de produção já fragilizadas.
Países importadores da Ásia, como China, Japão e Coreia do Sul, avaliam estoques estratégicos e discutem rotas alternativas. Governos europeus medem palavras para não se alinhar abertamente a Washington nem a Teerã, mas pressionam por uma solução na ONU. O Brasil, que importa parte expressiva do diesel usado internamente, acompanha a situação com reservas, atento ao risco de novo choque de preços em postos de combustíveis e no transporte de cargas. Quanto mais as câmeras registram a proximidade entre civis e potenciais alvos militares, maior se torna a sensação de que qualquer ataque teria custo político altíssimo.
O que acontece depois do prazo
A contagem regressiva para as 21h domina os canais de notícias iranianos e estrangeiros. Correspondentes relatam ruas vazias em alguns bairros e concentração de gente em pontos estratégicos. O governo de Teerã acena com a possibilidade de “medidas técnicas” para reduzir a tensão, sem detalhar o que isso significaria na prática. Washington, por sua vez, deixa em aberto se a ameaça de bombardear infraestruturas civis é um blefe ou um passo real rumo a uma nova fase de confrontos.
A resposta concreta só virá nas horas seguintes ao fim do ultimato. Resta saber se as correntes humanas, que hoje dão um rosto às estatísticas de guerra, conseguirão mudar o cálculo de custo e benefício nas capitais envolvidas. A diplomacia corre contra o tempo enquanto a imagem de milhares de pessoas de mãos dadas em torno de pontes e usinas se firma como símbolo da crise no Estreito de Ormuz, que agora não é mais apenas uma disputa por rotas marítimas, mas um teste visível dos limites entre pressão estratégica e proteção de vidas civis.
