Nasa divulga fotos inéditas da Terra vista do lado oculto da Lua
A Nasa divulga nesta terça-feira (7) as primeiras imagens feitas pela missão Artemis 2 ao sobrevoar a Lua na segunda (6). As fotos mostram a Terra surgindo atrás do lado oculto lunar e registram um eclipse solar visto da órbita do satélite, em um dos momentos mais simbólicos da nova era de exploração espacial.
O dia em que a humanidade foi vista do outro lado
As imagens chegam à Terra menos de 24 horas depois de Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e Jeremy Hansen, 50, se tornarem os humanos que viajam mais longe do planeta. Às 14h56 (de Brasília) de segunda-feira (6), a cápsula Orion rompe o recorde da Apollo 13, que em 1970 alcança 400.171 quilômetros de distância. A nova marca chega a 406.773 quilômetros.
Na foto mais celebrada, a câmera da Orion registra a Terra encolhida atrás do disco escuro da Lua, vista a partir do lado oculto, região que nunca está voltada diretamente para nós. A Nasa publica o registro nas redes sociais com a legenda: “A humanidade, vista do outro lado. Primeira foto do lado oculto da Lua. Capturada da Orion enquanto a Terra desaparece além do horizonte lunar”. O título escolhido é “Earthset”, o pôr da Terra.
O sobrevoo transforma a segunda-feira em um dia de marcos. Às 20h02, a nave alcança sua máxima aproximação da superfície lunar, a cerca de 6.550 quilômetros, antes de seguir pela parte traseira do satélite. Às 19h44, a cápsula entra em uma zona de sombra de rádio, em que a própria Lua bloqueia o contato com a Terra. O silêncio dura 40 minutos e remete imediatamente à era Apollo.
É nesse intervalo sem comunicação que nasce a foto histórica. Enquanto cruzam o lado oculto, os quatro astronautas apontam as câmeras para o horizonte lunar e acompanham o planeta azul desaparecer. O registro congela um instante raro: 8 bilhões de pessoas cabem em um ponto minúsculo atrás da borda cinzenta da Lua.
O contato com a equipe em solo é retomado às 20h24. O apagão está previsto nos planos de voo, assim como aconteceu nas missões Artemis 1, em 2022, e no programa Apollo, entre 1968 e 1972. Do ponto de vista técnico, nada foge ao roteiro. Do ponto de vista simbólico, a missão devolve ao público uma sensação de fronteira sendo empurrada para além do que parecia familiar.
Recorde, eclipse e legado da era Apollo
As fotos divulgadas pela Nasa ganham imediatamente o selo político da Casa Branca, que compartilha as imagens nas redes oficiais do governo americano. A missão opera como vitrine de poder tecnológico e também como ferramenta de política interna, em um momento em que os Estados Unidos disputam protagonismo espacial com China e outras potências. A conversa ao vivo dos astronautas com o presidente Donald Trump reforça a carga simbólica do voo.
Em outro registro divulgado nesta terça, a Orion enquadra um eclipse solar total visto da órbita lunar. Nave, Lua e Sol se alinham por cerca de uma hora, com a estrela escondida atrás do satélite. A legenda da Nasa resume o clima a bordo: “Totalidade, além da Terra. Da órbita lunar, a Lua eclipsa o Sol, revelando uma visão que poucos na história da humanidade já testemunharam”. Durante o fenômeno, a tripulação anota características da coroa solar, a camada externa da estrela, geralmente invisível a olho nu.
As cenas evocam diretamente o passado. Em dezembro de 1968, durante a Apollo 8, o astronauta William Anders registra a famosa “Earthrise”, o nascer da Terra por trás do horizonte lunar. A foto entra para a história como um retrato da fragilidade do planeta e alimenta debates ambientais nas décadas seguintes. Artemis 2 flerta com essa memória desde a decolagem. Um mascote de pelúcia, batizado de Rise por um menino que se inspira em “Earthrise”, flutua dentro da Orion como símbolo da ponte entre gerações.
Wiseman, comandante da missão, descreve a transição visual em uma das primeiras conversas após o sobrevoo. “Quando contornamos o lado próximo da Lua, vimos as paisagens que observamos da Terra durante toda a nossa vida, mas estávamos vendo de uma perspectiva diferente”, diz. “E então começamos a ver lugares que nenhum ser humano jamais havia visto antes, nem mesmo na Apollo.” A frase resume a ambição central do programa Artemis: ir além do que já foi feito, sem perder a ligação com a memória da exploração anterior.
Os dados científicos recolhidos durante o voo dão sustentação prática a essa ambição. A equipe a bordo observa crateras, vales e regiões de interesse para futuros pousos e bases lunares. Os instrumentos da Orion medem radiação, variações de temperatura e comportamento dos sistemas em condições extremas de distância. Cada leitura serve para ajustar o desenho das próximas missões tripuladas, que devem colocar humanos de volta à superfície já na próxima década.
Ciência, disputa estratégica e próximos passos do programa Artemis
As primeiras imagens de Artemis 2 alimentam um interesse público raro por missões tripuladas desde o fim da era dos ônibus espaciais, em 2011. A combinação de recorde de distância, fotos esteticamente poderosas e narrativa de retorno à Lua viraliza em redes sociais, abre espaço em telejornais e ganha destaque em programas educativos. Escolas, museus de ciência e observatórios já planejam usar as imagens da Terra vista do lado oculto lunar e do eclipse para explicar órbita, alinhamento e dinâmica do Sistema Solar.
Na esfera científica, o material ajuda a entender melhor o espaço próximo à Terra. As observações da coroa solar durante o eclipse, feitas a partir de um ponto privilegiado, oferecem pistas sobre jatos de plasma e tempestades solares que podem afetar satélites, redes elétricas e comunicações. As leituras da região lunar menos conhecida alimentam estudos sobre locais adequados para radiotelescópios, que se beneficiam do isolamento do lado oculto em relação ao ruído de rádio emitido pelo próprio planeta.
O impacto político também é imediato. Ao exibir a Artemis 2 como sucesso operacional, a Nasa reforça o argumento por mais recursos no Congresso e tenta consolidar uma coalizão internacional em torno do programa. Parceiros históricos, como Europa, Canadá e Japão, observam o desempenho da Orion e já negociam sua fatia em futuras missões de pouso. A mensagem é clara: quem embarcar agora terá acesso privilegiado a tecnologia, dados e oportunidades econômicas associadas a mineração, telecomunicações e infraestrutura lunar.
Não há perdedores visíveis no curto prazo, mas há riscos. O avanço rápido na Lua pressiona rivais a acelerar seus próprios programas, com possibilidade de novas tensões em torno de regras de uso de recursos naturais fora da Terra. A forma como os Estados definirem fronteiras, zonas de segurança e direitos de exploração nos próximos anos vai indicar se a Lua será um laboratório de cooperação ou um novo palco de disputa geopolítica.
Para a Nasa, o sucesso de Artemis 2 é degrau obrigatório. A agência usa o desempenho da Orion em distância, navegação e comunicação para validar o caminho até Artemis 3, prevista para levar astronautas de volta ao solo lunar. O roteiro inclui pousos próximos ao polo sul, região rica em gelo de água, fundamental para produzir combustível, oxigênio e suporte a uma presença humana duradoura.
As imagens divulgadas nesta semana, com a Terra ao fundo do lado oculto e o Sol apagado atrás da Lua, condensam o argumento central dos próximos anos: explorar mais longe para entender melhor o que acontece em casa. A pergunta que fica, enquanto a Orion se afasta lentamente da órbita lunar, é se a sociedade estará disposta a sustentar esse salto longo o bastante para transformar fotos históricas em rotina de exploração.
