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Trump ameaça atacar infraestrutura civil do Irã e desafia leis de guerra

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaça atacar a infraestrutura civil e econômica do Irã caso Teerã não reabra o Estreito de Ormuz até as 20h desta terça-feira (7), no horário da Costa Leste. As declarações colocam sob risco imediato a estabilidade do Golfo Pérsico e reacendem o debate sobre possíveis crimes de guerra cometidos por Washington.

Prazo, pressão e um estreito vital para o mundo

O ultimato de Trump mira um ponto nevrálgico da economia global. O Estreito de Ormuz, rota por onde passam cerca de um quinto das exportações mundiais de petróleo, volta ao centro da tensão entre Washington e Teerã. O presidente americano insiste que só recua se o Irã aceitar um acordo e liberar o tráfego no corredor marítimo, considerado estratégico por potências militares e grandes economias.

Trump não limita a ameaça a alvos militares. Em discursos, entrevistas e postagens, ele fala em destruir usinas de energia, pontes, poços de petróleo, a Ilha de Kharg e, “possivelmente”, todas as usinas de dessalinização iranianas. Na prática, são instalações responsáveis por eletricidade, transporte, abastecimento de água e receitas de exportação de um país de quase 90 milhões de habitantes. O próprio presidente admite que o plano prevê ataques “provavelmente simultâneos” a cada uma das usinas de geração de energia.

A escalada verbal ganha contornos mais agudos na última semana. Em rede nacional na quarta-feira (1º), Trump afirma que os EUA “vão atingir cada uma de suas usinas de geração de energia elétrica com muita força”. No domingo (5), em tom ainda mais agressivo, ele avisa, na rede Truth Social, que “terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irã”. A mensagem termina com a advertência: “Abram o maldito Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão no inferno – AGUARDEM! Louvado seja Alá”.

Questionado na Casa Branca, nesta segunda-feira (6), sobre a possibilidade de que tais ações configurem crimes de guerra, Trump rejeita a preocupação. “Vocês sabem qual é o crime de guerra? O crime de guerra é permitir que o Irã tenha uma arma nuclear”, responde. Ele não apresenta provas de que o programa nuclear iraniano esteja próximo de produzir uma ogiva.

Ameaças em choque com o direito internacional

Especialistas em direito internacional veem as ameaças com inquietação crescente. A Convenção de Genebra e outras normas humanitárias proíbem ataques deliberados contra infraestrutura civil quando o objetivo principal é causar sofrimento à população. Em situações específicas, alvos de uso duplo — como pontes ou usinas que também atendam a forças armadas — podem ser atacados, mas a destruição indiscriminada de toda a rede elétrica de um país extrapola esse princípio.

No domingo, o jornalista Fareed Zakaria, da CNN, afirma que ataques à infraestrutura básica de energia “têm sido tradicionalmente considerados um crime de guerra” e que, em leitura simples, violam a Convenção de Genebra. Na ONU, o porta-voz do secretário-geral, Stéphane Dujarric, reforça o alerta na semana passada: “Se houver um ataque à infraestrutura claramente civil, isso não é permitido pelo direito internacional humanitário”.

A Casa Branca tenta contornar a crítica. A secretária de imprensa, Karoline Leavitt, desconversa quando questionada diretamente se o governo ameaça cometer crimes de guerra. “É claro que esta administração e as Forças Armadas dos Estados Unidos sempre agirão dentro dos limites da lei”, diz, sem esclarecer como a promessa de “nenhuma clemência” e de ataques simultâneos à infraestrutura civil se encaixa nesse compromisso.

A postura atual não surge no vácuo. Desde a primeira campanha, em 2015, Trump testa as margens do que o direito internacional considera aceitável em guerra. Ele defende, em diferentes momentos, o assassinato de familiares de suspeitos de terrorismo, a volta de métodos de tortura “piores do que o afogamento simulado” e ataques a sítios culturais iranianos. Em cada caso, recua parcialmente diante da reação de assessores e do Pentágono, mas normaliza o debate sobre violações antes vistas como tabu.

Nos últimos anos, o governo cruza linhas mais concretas. Em 2020, Trump cogita explodir a infraestrutura petrolífera da Ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irã. Em 2022, surge o relato, atribuído ao próprio presidente, de um plano para disfarçar aviões americanos com bandeiras chinesas e usá-los para “bombardear a Rússia até o inferno”. A ideia, que violaria de forma clara as Convenções de Genebra, é tratada por aliados como brincadeira.

O histórico recente inclui ainda operações que levantam suspeitas de crimes de guerra. No Caribe, no ano passado, forças americanas realizam um segundo ataque contra um suposto barco de narcotráfico após o primeiro bombardeio deixar sobreviventes. O New York Times revela que a aeronave usada é pintada para se parecer com um avião civil, com armamentos ocultos. Juristas classificam a tática como possível “perfídia”, quando um dos lados engana o inimigo ao se passar por civil ou neutro.

No início do mês passado, um submarino americano afunda um navio de guerra iraniano em águas internacionais, perto do Sri Lanka, sem que haja guerra declarada entre os dois países. Especialistas em direito dos conflitos armados apontam problemas na ausência de esforço para resgatar sobreviventes e na falta de autorização formal do Congresso americano para um confronto aberto com o Irã.

A retórica oficial acompanha essa guinada. Em março, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, declara em coletiva que as Forças Armadas dos EUA não concederão “nenhuma clemência, nenhuma misericórdia aos nossos inimigos”. Mesmo a mera recusa antecipada de misericórdia a combatentes que se rendem contraria princípios centrais das leis de guerra.

Impacto regional, petróleo e imagem dos EUA

A crise chega a um ponto de inflexão com o relógio se aproximando das 20h desta terça-feira. Um ataque coordenado contra usinas elétricas, pontes, poços de petróleo e instalações de água no Irã teria efeito imediato sobre civis. Grandes centros urbanos poderiam ficar sem energia por semanas, hospitais operariam com geradores limitados e redes de água e saneamento colapsariam em regiões inteiras.

O impacto econômico se espalharia rapidamente para além das fronteiras iranianas. Ormuz concentra parte vital das exportações de petróleo da Arábia Saudita, do Iraque, do Kuwait, dos Emirados Árabes e do próprio Irã. Qualquer sinal de ataque americano à infraestrutura energética iraniana tende a pressionar o preço do barril, hoje monitorado minuto a minuto por mercados que já convivem com volatilidade crescente. Analistas lembram que choques de oferta anteriores, em crises de 1973 e 1979, dispararam inflação em grandes economias e precipitaram recessões.

No tabuleiro geopolítico, Rússia e China observam a escalada com interesse direto. Moscou mantém coordenação militar com Teerã na Síria e busca limitar o poder dos EUA no Oriente Médio. Pequim depende do fluxo estável de petróleo que atravessa Ormuz para sustentar sua indústria. Em caso de ataque, os dois países devem levar o tema ao Conselho de Segurança da ONU e tentar capitalizar diplomática e economicamente o desgaste da imagem americana.

Dentro do Irã, a aposta de Trump é ainda mais arriscada. O presidente afirma, sem apresentar evidências, que os iranianos “desejam” os bombardeios porque isso poderia resultar em liberdade. Pesquisas independentes são escassas no país, mas analistas lembram que sanções prolongadas e crises anteriores costumam fortalecer setores mais duros do regime, e não o contrário. Bombardear infraestrutura essencial tende a unir a população contra o agressor externo.

Para os Estados Unidos, a ameaça de mirar deliberadamente civis corrói um ativo central: a ideia de que a superpotência, com todas as contradições, ainda se orienta por regras. A normalização de discursos que relativizam crimes de guerra pode abrir espaço para que outros governos repitam a fórmula, alegando autodefesa ou combate ao terrorismo. A mudança de patamar não afeta apenas o presente conflito, mas redesenha a percepção global sobre a moralidade da política externa americana.

Relógio em contagem regressiva e incertezas

O prazo imposto por Trump já sofre ao menos dois adiamentos em relação à data original, fixada há cerca de duas semanas. A hesitação sugere, ao mesmo tempo, desejo de manter a pressão máxima e receio real das consequências políticas, militares e econômicas de um ataque em larga escala. Assessores militares alertam para o risco de resposta assimétrica iraniana, com ações contra bases americanas na região, ataques de milícias aliadas ou sabotagem de navios mercantes.

Até a noite desta terça-feira, nenhuma negociação séria aparece em público. Teerã não indica disposição em ceder sobre o controle de Ormuz sem contrapartidas, e Washington insiste na linguagem do ultimato. Democratas no Congresso e parte do establishment diplomático veem na escalada um teste de limites: quanto um presidente americano pode se aproximar de admitir, em voz alta, a intenção de cometer crimes de guerra sem enfrentar barreiras institucionais claras.

A partir das 20h, duas trajetórias se abrem. Trump pode manter a tática de prolongar o prazo e transformar a ameaça em elemento permanente de pressão, com impacto prolongado sobre mercados e aliados. Ou pode ordenar um ataque que, ainda que mais limitado do que sugere em público, marque uma mudança duradoura na forma como os EUA conduzem conflitos e lidam com normas internacionais.

Entre advertências de especialistas, silêncio calculado de aliados e tensão crescente em rotas marítimas estratégicas, permanece uma pergunta incômoda: quem, em Washington, ainda está disposto e tem força para dizer não a um presidente que flerta abertamente com a linguagem dos crimes de guerra?

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