Coreia do Norte esfria aliança com Irã às vésperas de cúpula EUA-China
A Coreia do Norte começa a se afastar do Irã em plena guerra de Teerã com Estados Unidos e Israel, em abril de 2026. Pyongyang interrompe o envio de material militar e evita até gestos simbólicos, como condolências pela morte do aiatolá Ali Khamenei. O movimento redesenha alianças num momento em que Pequim se prepara para receber Donald Trump em uma cúpula decisiva.
Aliança em pausa no meio da guerra
O alerta vem de um relatório do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul, apresentado na segunda-feira (6) ao Parlamento em Seul. Segundo o deputado Park Sun-won, Pyongyang não fornece armas nem suprimentos ao Irã desde o início do conflito direto com Estados Unidos e Israel, que explode após a morte de Khamenei, em 1º de abril.
A ausência de apoio não é apenas militar. Kim Jong-un também rompe com o ritual diplomático que costuma marcar relações entre regimes isolados. Não há mensagem de pesar pela morte do líder supremo iraniano nem felicitações ao sucessor, Motjaba Khamenei, que assume o posto ainda no primeiro dia da crise. Em regimes que cultivam símbolos com rigor, o silêncio vale como recado.
Para autoridades sul-coreanas, esse recuo se conecta a outro calendário: a cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, marcada para 14 e 15 de maio, em Pequim. A Casa Branca já confirma que o presidente americano e a primeira-dama, Melania Trump, devem ainda receber o líder chinês em Washington, em data a definir. Nesse tabuleiro, a Coreia do Norte tenta não chegar colada demais a um Irã em confronto direto com os Estados Unidos.
O cálculo é simples e arriscado. Ao reduzir a exposição ao conflito, Pyongyang preserva espaço para futuras barganhas com Pequim e, indiretamente, com Washington. O regime sinaliza que pode controlar o quanto alimenta crises regionais, enquanto acelera, dentro de casa, um programa militar que mira justamente os EUA e seus aliados na Ásia.
Pressão econômica e corrida armamentista interna
O relatório do NIS descreve um país pressionado por dentro. A guerra no Oriente Médio encarece insumos industriais, eleva preços ao consumidor e pressiona a taxa de câmbio norte-coreana. Sem capacidade plena de produção de energia, Pyongyang amplia a dependência de petróleo russo, num momento em que Moscou também enfrenta sanções e limitações logísticas.
Essa combinação ajuda a explicar o freio na cooperação com Teerã. Cada míssil, peça de artilharia ou lote de munição enviado ao Irã hoje representa menos recurso para o próprio esforço militar norte-coreano. Ao priorizar o arsenal doméstico, Kim preserva uma carta de poder que vale mais do que qualquer solidariedade ideológica.
Em março, a Coreia do Norte testa um novo motor para míssil balístico intercontinental, sem divulgar o local ou a data exata. A agência estatal KCNA fala em empuxo máximo de 2.500 quilotoneladas, bem acima das cerca de 1.971 quilotoneladas registradas em uma prova semelhante em setembro. O avanço integra um plano de cinco anos para levar a capacidade militar a um nível descrito como “incomparável”.
A meta inclui mísseis de longo alcance lançados de terra e de submarinos, além de sistemas de ataque não tripulados guiados por inteligência artificial. Em fevereiro, Kim aparece ao lado de um lançador múltiplo de foguetes de 600 milímetros, com alcance de cerca de 400 quilômetros e capacidade para ogivas nucleares. Ele chama o armamento de “único no mundo” e o apresenta como peça central em “missões estratégicas”.
Enquanto fecha a torneira para Teerã, o líder norte-coreano abre espaço na cena doméstica para outra figura. A filha, identificada por especialistas como Kim Ju Ae, de cerca de 13 anos, surge com frequência crescente em eventos ligados ao programa nuclear e ao complexo industrial militar. Em 3 de abril, o regime divulga fotos da menina visitando, ao lado do pai, um pet shop, uma loja de instrumentos musicais e um centro automotivo em Pyongyang.
O NIS vê nesses movimentos um ensaio de transição de poder a médio prazo. A presença constante da jovem em momentos de exibição de força militar sugere que o regime prepara a população, e também aliados e rivais, para uma possível sucessora. Essa perspectiva adiciona incerteza às apostas internacionais sobre como se comportará a Coreia do Norte nas próximas décadas.
Impacto na guerra e no xadrez global
O afastamento de Pyongyang enfraquece uma das poucas rotas discretas de apoio militar ao Irã. Desde os anos 1980, os dois regimes cooperam em programas de mísseis e em transferência de tecnologia de defesa. A interrupção, ainda que parcial, limita a capacidade de Teerã de repor estoques e inovar armamentos em ritmo acelerado no meio da guerra.
Na prática, o Irã tende a buscar alternativas em Moscou, em grupos aliados na região e em redes clandestinas de comércio de armas. A disputa com Estados Unidos e Israel, porém, restringe margens de manobra. Todo embarque suspeito passa a ser monitorado com mais atenção, e o custo político de flagrantes aumenta. Cada míssil de origem norte-coreana detectado agora poderia complicar também a posição da China às vésperas da cúpula com Trump.
Para Washington, o congelamento da parceria militar entre Irã e Coreia do Norte representa um ganho tático. O governo americano explora o gesto como prova de que a pressão econômica e diplomática isola Teerã. Ao mesmo tempo, analistas no próprio Departamento de Estado lembram que Pyongyang não faz concessões gratuitas: o preço pode vir em exigências futuras sobre sanções, garantias de segurança e reconhecimento tácito de seu arsenal nuclear.
Pequim observa esse rearranjo com cuidado. A China é o principal fiador econômico da Coreia do Norte e busca estabilidade mínima para negociar com Trump temas como tarifas, tecnologia e segurança no Pacífico. Um Kim Jong-un menos envolvido diretamente na guerra do Irã reduz o risco de incidentes que contaminem a conversa. Em contrapartida, reforça a dependência de Pyongyang em relação à proteção política chinesa.
O que vem depois da cúpula em Pequim
O teste real desse novo equilíbrio começa após os dias 14 e 15 de maio, quando Xi e Trump se encontram em Pequim. A forma como o comunicado final tratará a península coreana e o Oriente Médio indicará se a Coreia do Norte acertou ao manter distância de Teerã neste momento. Um aceno, mesmo discreto, para retomada de diálogo sobre desnuclearização pode abrir canais hoje fechados.
Teerã, por sua vez, precisa redesenhar sua rede de apoio externo em plena guerra. O país busca compensar a perda de um parceiro tradicional com aproximações a Rússia e grupos aliados no Oriente Médio, mas enfrenta limitações financeiras e sanções acumuladas. Cada semana sem reforço em armas e tecnologia aumenta a assimetria frente à capacidade industrial americana e israelense.
Dentro da Coreia do Norte, a combinação de dificuldades econômicas, corrida armamentista e possível transição dinástica deixa pouco espaço para aventuras externas prolongadas. O regime concentra recursos na própria sobrevivência e tenta transformar seu arsenal em moeda de troca com as grandes potências. A aproximação da cúpula EUA-China apenas acelera essa lógica.
Resta saber por quanto tempo Kim Jong-un consegue equilibrar esse jogo de alto risco. Se o afastamento do Irã render ganhos diplomáticos concretos, a aposta se consolida como modelo. Se vier acompanhado de novas sanções ou de isolamento adicional, a Coreia do Norte pode voltar a recorrer à velha estratégia: alimentar crises para ser chamada de volta à mesa.
