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Gravidez sob apagões: como bloqueio dos EUA agrava drama em Cuba

Em uma Havana sujeita a apagões que duram até 24 horas, grávidas como Mauren Echevarría Peña e Indira Martínez atravessam a reta final da gestação em clima de emergência. Três meses após o bloqueio quase total imposto pelos Estados Unidos, a crise energética transforma parto, pré-natal e a simples tarefa de fazer café da manhã em testes diários de resistência.

Gestação em tempo de colapso elétrico

Mauren Echevarría Peña, 26, espera o primeiro filho em uma cama da maternidade pública Ramón González Coro, em Havana. Ela convive com diabetes gestacional e hipertensão crônica, condições que exigem monitoramento constante e medicação regular justamente no momento em que o sistema de saúde cubano opera no limite.

Há quase três meses, desde o endurecimento do bloqueio americano que reduziu quase a zero o envio de petróleo à ilha, ela está internada em uma ala especializada. O parto está programado para o fim do mês, mas o relógio corre também contra a instabilidade da rede elétrica. No fim de semana de 21 e 22 de março, o país enfrenta mais um colapso do sistema nacional, com apagões prolongados.

Sentada na cama de metal, cercada por ventiladores que só funcionam quando há luz, Mauren não esconde o nervosismo. “Fui diagnosticada com diabetes gestacional e hipertensão crônica”, explica, enquanto ajeita o soro no braço. “Eles fizeram todo o possível por mim no hospital. Deram os remédios e a insulina necessária para a saúde do meu bebê e da placenta.”

A confiança na equipe médica convive com o medo do improvável se tornar rotina. Ela sabe que pode entrar em trabalho de parto em meio a um apagão, com monitores desligados e a equipe dependendo de lanternas de celular. “Meu país sempre encontra uma forma de seguir adiante”, diz, tentando sorrir. O tom de voz, porém, revela o temor de ver o filho nascer em uma sala às escuras.

Estimativas oficiais apontam cerca de 32,8 mil grávidas em Cuba hoje. Nem todas, como Mauren, conseguem vaga em alas especializadas. Muitas atravessam o período mais delicado da gestação em casas sem eletricidade, com geladeiras vazias e fogões inúteis, enquanto cozinham em fornos a lenha improvisados para garantir ao menos uma refeição quente.

Casa no escuro, geladeira vazia

No subúrbio de Havana, a cabeleireira Indira Martínez, grávida de sete meses, passa a manhã sem conseguir sequer esquentar um copo de leite. A energia some na tarde do dia anterior e não há previsão de retorno. O forno elétrico parou, a geladeira está praticamente vazia e o único ponto de calor vem de um pequeno forno a lenha montado pelo marido, ferreiro, no quintal.

Para cozinhar algo mais consistente, ela precisa acordar de madrugada quando, com sorte, a luz volta por algumas horas. “Você precisa se levantar de madrugada, quando a energia volta, para cozinhar o que tiver”, conta. “E, muitas vezes, isso não tem as vitaminas e proteínas de que preciso e certamente não mata minha fome maior por causa da gravidez.”

Indira suspende o trabalho no salão para evitar o contato diário com produtos químicos. A renda da casa depende agora do salário modesto do marido. A mãe dela, enfermeira aposentada, acompanha com preocupação a combinação de alimentação precária, estresse constante e histórico de doenças. No primeiro trimestre, Indira contrai chikungunya, vírus transmitido por mosquitos, durante uma epidemia que atinge a ilha. Hoje ela mal consegue caminhar até o banheiro, embora os médicos garantam que a bebê está saudável.

O cenário doméstico contrasta com anúncios de ajuda externa. Em resposta ao bloqueio, o México envia centenas de toneladas de doações, incluindo leite em pó para gestantes. Em Havana, uma coalizão internacional de movimentos de solidariedade desembarca com caixas de insumos médicos e alimentos para maternidades. A BBC tem acesso ao hospital onde Mauren está internada no momento da chegada das doações.

Na casa de Indira, essa ajuda não aparece. “Não vi nada da ajuda humanitária enviada para Cuba”, afirma. “Meu marido e eu sabíamos muito bem o que estávamos fazendo quando decidimos ter um bebê em meio a esta situação. Sabíamos que não poderíamos contar com a ajuda do governo. Somos nós contra o mundo.”

O bloqueio ganha contornos mais duros em 3 de janeiro, quando tropas de elite americanas ajudam a retirar do poder o então presidente venezuelano Nicolás Maduro, aliado histórico de Havana. Desde então, Washington detém praticamente todos os envios de petróleo para a ilha e ameaça impor tarifas a parceiros como o México caso abasteçam Cuba com novos petroleiros. O resultado se mede em ruas às escuras, ônibus parados, geradores sem combustível e centros de saúde tentando racionar cada gota de diesel.

Uma nova geração nascendo em incerteza

Hospitais cubanos contam com geradores, mas relatam dificuldade para abastecê-los de forma contínua. Cada apagão prolongado coloca em risco cirurgias, partos de emergência e internações de alto risco. No caso da maternidade de Mauren, a equipe se organiza para priorizar o uso de energia em salas cirúrgicas e unidades de terapia intensiva neonatal, enquanto corredores, quartos comuns e áreas de apoio ficam às sombras.

A crise energética se soma a um quadro econômico já frágil. A escassez de alimentos básicos obriga famílias a reorganizar o dia em torno da fila, não do trabalho. Jovens qualificados deixam postos formais para buscar qualquer ocupação que pague um pouco mais do que os salários estatais. Indira, técnica de informática de formação, vira cabeleireira. O marido abandona a contabilidade para aprender ferraria. O rebaixamento profissional se torna rotina em um país que, por décadas, exibe educação como vitrine da revolução.

O impacto recai de forma particular sobre quem decide ter filhos. Cuba envelhece, registra baixa taxa de natalidade e convive com altas taxas de emigração. Mesmo antes do bloqueio de combustíveis, muitos casais já pensam duas vezes antes de formar família. Hoje, o cálculo inclui a chance concreta de ver o filho nascer sob a luz de uma lanterna de celular, com médicos disputando espaço em geradores quase secos.

Indira projeta essa realidade sobre a filha, que deve se chamar Ainoa. “Como vou dizer a ela que não há futuro? Porque ela não terá…”, diz, num misto de raiva e resignação. Na avaliação dela, a deterioração da escola pública, a fuga de professores experientes e a falta de investimento reduzem drasticamente as possibilidades de desenvolvimento intelectual das novas gerações.

“Como mãe, quero oferecer uma vida plena à minha filha. Mas não tenho motivos para dizer que ela tem um futuro promissor pela frente ou que pode desenvolver ao máximo seu potencial intelectual”, lamenta. “Se dissesse isso, estaria mentindo. Ela não terá nenhuma oportunidade de crescimento aqui, nenhuma.”

Pressão por soluções e futuro em aberto

O bloqueio americano, a crise energética e a escassez de alimentos empurram Cuba para um quadro que autoridades locais e movimentos internacionais já classificam como crise humanitária. A gestação de dezenas de milhares de mulheres, como Mauren e Indira, expõe de forma aguda os limites da rede de proteção social construída ao longo de seis décadas.

No curto prazo, o governo tenta administrar o racionamento de energia, negociar brechas para importação de combustível e ampliar a chegada de doações. Países aliados buscam contornar as ameaças de sanções americanas, enquanto organizações de solidariedade falam em novos carregamentos de insumos médicos e alimentos ainda neste semestre.

O ritmo dessas respostas, porém, parece lento para quem conta as semanas até o parto olhando o relógio e o quadro de luz. Cuba precisa de mais nascimentos para frear o envelhecimento da população, mas a própria realidade econômica e energética desestimula projetos de família. Cada novo apagão reforça a sensação de que o futuro da ilha pode escapar justamente entre as mãos de quem, hoje, tenta trazer uma nova geração ao mundo.

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