Jeffrey Sachs chama Trump de sociopata e pede afastamento imediato
O economista Jeffrey Sachs afirma, em entrevista publicada no fim de 2026, que Donald Trump é “psicopático” e deve ser afastado da presidência dos Estados Unidos. Para ele, a saída de Trump é condição para evitar uma crise econômica global ainda mais profunda, alimentada pela escalada da guerra contra o Irã.
Guerra, imprevisibilidade e risco sistêmico
A avaliação de Sachs surge em meio à ampliação dos confrontos envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel, que já arrastam a economia mundial para um período de retração e incerteza. Em entrevista ao canal de YouTube apresentado pelo cientista político Glenn Diesen, o economista descreve um governo em Washington que combina poder nuclear, arsenal tecnológico e “comportamento extraordinariamente errático”.
Sachs sustenta que o conflito no Oriente Médio não é um episódio isolado, mas parte de uma disputa de hegemonia que atravessa também a guerra na Ucrânia e outras frentes de tensão. Ele afirma que a ordem internacional construída desde o fim da Segunda Guerra entra em desorganização acelerada, com impacto direto sobre comércio, investimentos e segurança energética. “Ninguém consegue racionalizar a desfaçatez, a ilegalidade, a crueldade das ações dos EUA e da retórica de Trump”, diz.
O economista enfatiza que, nas últimas décadas, governos da Europa, do Golfo e do Leste Asiático ancoram seus sistemas de defesa na proteção americana. Hoje, segundo ele, esses países percebem que apostaram sua segurança em uma potência em declínio, com liderança instável e cada vez menos capaz de impor resultados no campo de batalha. O avanço da guerra contra o Irã, com sucessivas rodadas de ataques, sanções e retaliações, aprofunda essa sensação de vulnerabilidade.
Sachs aponta dois movimentos simultâneos. De um lado, o que chama de comportamento errático da Casa Branca, cristalizado em frases como a ameaça de Trump de “enviar o Irã de volta à Idade da Pedra”, que teria “chocado todo o mundo”. De outro, a exposição dos limites do poder militar norte-americano, cuja doutrina de “choque e pavor”, desenhada para paralisar o inimigo em poucos dias, enfrenta resistência em diferentes frentes desde o Vietnã, passando pelo Afeganistão e o Iraque, até chegar ao atual impasse.
Personalidade de Trump, indústria da guerra e nova ordem global
Ao longo da entrevista, Sachs abandona o tom acadêmico e descreve Trump em termos clínicos. “Donald Trump é psicopático”, afirma, ao caracterizar um presidente que, em sua visão, não processa informações de forma racional e reage de modo impulsivo, paranoico e megalomaníaco. O economista sustenta que esse perfil psicológico torna a desescalada muito mais difícil, porque transforma conflitos em testes pessoais de poder.
Ele cita episódios recentes como prova de uma erosão moral no comando político dos EUA. Um deles é a reação de Trump a um ataque contra uma ponte, que deixou mortos civis e foi celebrado publicamente como demonstração de força. Para Sachs, o fato de o presidente demonstrar satisfação diante de mortes de não combatentes indica que a brutalidade deixa de ser um efeito colateral e passa ao centro do discurso oficial. “Há, tanto fora quanto dentro dos Estados Unidos, a percepção crescente de que o país vive sob um regime absolutamente violento e sem lei”, resume.
Israel aparece como peça central nessa engrenagem. Sachs associa o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu à escalada verbal e militar, mencionando discursos marcados por referências bíblicas e por uma retórica de guerra sem limites. Ele descreve um nível de desumanização que, em sua leitura, revela não apenas uma escolha tática, mas uma ideologia que naturaliza a violência em larga escala. A diferença, diz, é que a opinião pública americana rejeita majoritariamente a guerra, enquanto em Israel há maior apoio social à ofensiva.
O economista também mira a dimensão financeira do conflito. Ele aponta o complexo militar-industrial como um dos grandes beneficiados, com empresas de tecnologia e defesa usando o Irã como campo de prova para sistemas baseados em inteligência artificial. Em jogo, calcula, há “dezenas ou centenas de bilhões de dólares” em contratos, desenvolvimento de armamentos e plataformas híbridas de vigilância e ataque, com reflexos duradouros sobre orçamentos públicos e prioridades sociais.
Ao mesmo tempo, Sachs afirma que a narrativa de supremacia militar americana começa a ruir diante de fatos concretos. A derrubada de aviões de combate dos EUA, contra-ataques em território israelense e sinais de vulnerabilidade em instalações no Golfo mostram, segundo ele, que o Irã dispõe de capacidade de retaliação significativa, especialmente com mísseis de médio e longo alcance. “A alegação americana e israelense de ‘choque e pavor’ esmagando o governo iraniano não é verdadeira”, afirma. “Parece haver muita preocupação sob a superfície.”
Alerta de afastamento, pressão internacional e cenário aberto
No ponto mais sensível da entrevista, Sachs conecta essa combinação de imprevisibilidade política, limites militares e incentivos econômicos à possibilidade de uma escalada catastrófica. Ele considera “sem dúvida” real o risco de o conflito atingir o patamar nuclear, sobretudo se novas derrotas em campo forem interpretadas por Washington e Tel Aviv como ameaça existencial. Nesse cenário, o comando sobre cerca de 5 mil ogivas nucleares americanas sob um líder que ele classifica como sociopata deixa de ser hipótese teórica e passa a ser questão prática de segurança global.
É nesse contexto que o economista defende o afastamento de Trump. Em sua leitura, a permanência do presidente agrava a instabilidade dos mercados, mantém as cadeias globais de produção sob sobressalto e empurra bancos centrais a decisões defensivas, como a manutenção de juros mais altos por mais tempo. O resultado seria um ciclo prolongado de baixo crescimento, queda no comércio internacional e aumento do desemprego, a começar por economias dependentes de exportações de energia e manufaturados.
Sachs sugere que a contenção de Trump passa por uma combinação de pressão institucional interna e ação coordenada de outras potências. Ele aponta diretamente Vladimir Putin, Xi Jinping e Narendra Modi como líderes com capacidade de influenciar o presidente americano. Segundo ele, Trump tende a ouvir chefes de Estado que enxerga como pares. “Eles precisam dizer a ele para parar”, afirma, em referência a uma iniciativa diplomática que extrapole os canais tradicionais de Washington e Bruxelas.
Para os aliados dos EUA, o recado é ainda mais duro. Sachs afirma que países europeus e do Golfo precisam abandonar a dependência quase automática da proteção militar americana e construir maior autonomia estratégica. Ele resgata a frase atribuída a Henry Kissinger, “ser inimigo dos Estados Unidos é perigoso, mas ser amigo é fatal”, para ilustrar a armadilha de vincular a própria segurança às decisões de um governo que ele considera desequilibrado. Na prática, isso significaria fortalecer mecanismos regionais de defesa e cooperação, inclusive com rivais históricos.
O economista conclui que o mundo já vive uma realidade multipolar e que insistir na hegemonia absoluta de Washington é “uma ilusão perigosa”. A guerra contra o Irã, diz, apenas acelera uma transição em curso e expõe a urgência de uma nova arquitetura de segurança baseada em equilíbrio e diálogo. “Olhem para a sua vizinhança, sejam amigos dos seus vizinhos. Não deixem o império americano dividir a sua própria região”, recomenda, em recado que atravessa continentes. O ponto em aberto, reconhece, é se a reorganização virá antes ou depois de uma ruptura maior na economia e na política global.
